‘Changement’: do branco ao negro
Haja a leve suspeita de que possa ser minimamente mainstream e lá vêm todos os argumentos possíveis e imaginários dos gurus do cinema para o carimbar com a palavra “mau”.
Há algumas coisas que podem não fazer muito sentido em Black Swan, como a associação entre questões sexuais (“go home and touch yourself”) a um lado negro da personalidade de Nina ou certas cenas com demasiado sangue à mistura. Mas Black Swan é só isso? E o contraste perfeito das cores? O confronto permanente entre branco e negro? O bem e o mal, a sanidade e a loucura, a lucidez e a alucinação, a racionalidade e a obsessão. A obsessão existe na vida real. Aronofsky não a inventou, lamento.
Li algures na blogosfera que “as feridas nos dedos dos pés” estão entre as coisas de arrepiar deste filme. E como são então os pés de uma bailarina profissional? Não sangram, não têm feridas de arrepiar? Várias bailarinas profissionais já comentaram o filme. Dizem que o nível de competição não chega a este extremo, mas também não negam a exigência, o sangue nos dedos, as dietas infindáveis, o sofrimento necessário para que tudo pareça, aos olhos do público, simples, fácil e indolor.
E Natalie Portman não convence? Chamemos então a prima ballerina da New York City Ballet, essa com certeza convencerá, só não é actriz. É Portman em pontas na cena final do filme. É Portman em pontas em tantas outras e parece-me credível. Se não convence, chamemos a prima ballerina então, ela convencerá e dispensamos Portman e a duplo que fez as cenas mais complicadas. Teremos de passar a dispensar muitos outros actores sendo assim.
O filme choca, não é leve, não é só o drama de uma bailarina que quer ser perfeita. É o problema psicológico de uma bailarina jovem, obcecada, com alucinações, que se auto-mutila, que se auto-mutilava já antes de ter sido nomeada bailarina principal n’ O Lago dos Cisnes. Com certeza que nunca ninguém ouviu falar de auto-mutilição. Que horror, vamos guardar isso para os filmes de terror porque nestes podemos ferir susceptibilidades.
Parece-me algo impossível classificar um filme como mau, ou muito mau, quando estamos a respirar de alívio na altura em que os créditos começam a passar. Um filme mau não faz respirar de alívio, não deixa ninguém a pensar sobre ele nos dois ou três dias seguintes, não faz tentar perceber qual a distância que separa a realidade da alucinação. Pode não ser uma obra-prima é certo, longe disso, mas como mera espectadora (porque de especialista em cinema não tenho nada) acho que não merece, de todo, o desprezo que tenho lido em algumas críticas.
E já que vim ao Delito falar sobre o que não sei, correndo o risco de ser contrariada com argumentos cinematográficos de peso, com referências aos grandes clássicos ou a realizadores do cinema mudo francês, aproveito para sair sem fazer muito barulho, não esquecendo a devida vénia a “Sua Majestade”, Colin Firth, pelo seu “discurso”.



Gostei. Assim, vou mesmo ver o filme.
Impôem-se dizer aqui que “Quem fala assim náo é gago”
O meu comentário vai exactamente no mesmo sentido que o anterior. Estava com dúvidas sobre se iria ou não ver o filme. Depois de ler este texto decidi que irei.
Olá, Catarina. Gosto muito de te ver por cá. A tua opinião é certamente discutível. Mas é mesmo assim: os gostos discutem-se. E o teu ponto de vista está muito bem defendido.
Espero que voltes um dia destes.
Obrigada Pedro, gostei muito de estar por cá. A passadeira vermelha tem muita classe. 🙂
Apenas discordo em dois pontos, pois 1) poderia indicar alguns filmes terríveis que nos fazem suspirar de alívio quando acaba (se nos submetermos ao suplício, claro), e 2) pode até não ser uma obra-prima, mas não sei se andará muito longe disso; diria que é um filme muito bem realizado, talvez um dos melhores que saiu nos últimos anos. Entre os mais marcantes está, sem dúvida.
Quanto à conversa do mainstream, é uma discussão que já tive com muita gente. Os “gurus” do cinema têm muito que se lhe diga. Desde que li uma crítica de um desses “gurus” a um filme da série Harry Potter citando um filósofo qualquer de meados do século XX que ganhei alguma aversão à espécie.
João, tem toda a razão. É verdade, há imensos filmes que fazem suspirar de alívio no final de tão maus que são. Mas enfim, nesses, podemos sempre carregar no ‘stop’ ou sair da sala e…arcar com o prejuízo do bilhete. 😉
O filme está excelente e na minha opinião merece o óscar para melhor filme. Tendo em conta todos os filmes, creio que o seu argumento é sem dúvida o melhor. É violento, é sinistro e tem partes de suspense deliciosas. Os créditos também devem ser apontados a quem o merece: Natalie Portman. É sem dúvida uma das melhores interpretações da sua carreira – ao mesmo nível ou melhor que outras interpretações, nomeadamente, em “V for Vendetta e Garden State”