Delituosos na Madragoa


modosdever,

 

Ainda há milagres, sim senhor. Aos 13 de Maio do Ano da Graça de Nosso Senhor, e depois de várias tentativas, reuniram-se, num jantar, seis dos delituosos membros deste blogue para não deixarem morrer a tradição, que seria o mesmo que perderem a memória e com ela a história. E já comecei como não queria: a roçar o estilo de uma acta de condomínio – dessas de que fugimos chegando o mais tarde possível. Reuniram-se, para que se saiba e conste, como agora se diz, para memória futura, tanto em nome próprio como dos ausentes, que pelos motivos mais diversos não puderam estar – a Ana Vidal bem tentou. Não foi em Camelot nem à volta de uma távola redonda, mas no Mercatudo, numa rectangular e à volta de uma sangria, e de um tinto de que não guardei o rótulo mas o paladar, de um bacalhau com broa, de que, esse sim, ficou o sabor, e de temas que escorreram com a arritmia própria dos grupos que querem matar meses de saudade em apenas três horas – que foi o que durou a demanda. Para quem já se conhecia, notou-se o brilho com que amizade sai pelos olhos. Para mim, cuja chegada atrasada não me salvou desta acta, foi o tentar ligar as caras aos nomes de tantos adorados apontamentos aqui – do Pedro, da Teresa, da Ana, da Leonor, do Zé Bandeira. Depois do período-de-antes-da-ordem-da-noite, com breves leves alusões às ausências, e olhares de esguelha para os lugares vazios dos Lancelotes, à mistura com pasta de azeitona e um belíssimo queijo de cabra, os condóminos resistiram à actualidade política – inacreditável! – entretendo-se a falar ora dos filhos ora de quem deixou de escrever, momento em que tive de enfiar o nariz no bacalhau, ora dos comentários aos posts, detendo-se num ou noutro chato. Uma novidade: o Zé vai casar-se. Neste passo não tive pena de não ter ficado em frente dele – teria tido dificuldade em disfarçar o espanto que ainda me causam estes heróis dos tempos modernos. Frase da noite: “Toda a gente para mim é boa até prova em contrário.” Veio da Ana e ninguém torceu o nariz – que eu tivesse visto – ou tossiu – que eu tivesse ouvido. Também assinei. Uma conversa ficou inacabada quando eu disse – a propósito sei lá já de quê – que a felicidade é também um dever, não apenas um direito. Mas já era meia-noite na Madragoa, que a partir de certa hora é mais para quem bebe do que para quem pensa – se é que àquela hora nós próprios estávamos em condições de alinhavar duas ideias. Sobre o próximo jantar, os delituosos desejaram que volte a ser tão concorrido como os primeiros, porque a vida de facto não é virtual e a linguagem não é só a escrita – tem formas, gestos, cores, sons, tons. Tem gente, que antes de saber escrever já comunicava com isso tudo. Como esta, bonita, com quem jantei num dia de milagres, por acaso numa sexta-feira, dia 13.  E por ser verdade, e a contar com a compaixão de todos pelas omissões ou esquecimentos, e com a promessa de encaixar os reparos, assina aquele que encarregaram da tarefa de relatar aos que não foram, do que falaram os que foram, que aqui abraço e beijo.

 

Post Scriptum: Nosso muito, muito querido amigo João Carvalho, não voltes a arranjar desculpas para não aparecer. De espécie nenhuma. Podes ler isto como intimação – de todos.

10 comentários em “Delituosos na Madragoa”

  1. Assim se castigam os ausentes, nos quais me incluo, já em penitência. Aqui estou a imaginar as formas, gestos, cores, sons e tons a que te referes. E não tenho, sequer, a memória do sabor do bacalhau com broa para me consolar.

  2. Mas que bela acta, Fernando! Gostei muito de ler-te, e ainda mais de conhecer-te. Estivemos 3 horas à mesa? Muito me contas, o tempo passou a correr com a conversa boa. Bem dizia o meu pai que à mesa ninguém se faz velho. Mas espero – ESPERO, OUVIRAM BEM?? – que voltem todos os ausentes no próximo jantar. Até porque estão perdoados…

    1. Obrigando, Ana. E eu a pensar que me iam criticar por me ter esquecido do rótulo do tinto, da carne de porco com ameixas e do tudo o mais que não pus na acta mas que pelos vistos não era preciso. Um beijinho.

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