CELESTINO II
Estava naquele dia para fechar a secção quando, de repente, o rapaz entrou. Levou tempo a começar.
– Preciso de falar consigo, mê furrié.
– O que se passa?
– É que… quero ser padre… – disse, baixando os olhos, embaraçado, e a coçar comichões inventadas.
– PADRE? Porquê, Celestino?
Voltei atrás, sentámo-nos, respirei fundo; perguntei-lhe onde tinha ido buscar a ideia, se sabia o que isso significava; se era mesmo o que queria. Respondeu a tudo, insistente, determinado.
– Amanhã de manhã aqui, às nove horas.
No dia seguinte peguei num jipe e levei-o estrada fora, por cinco quilómetros, na direcção de Nacala, ele feliz, eu calado, concentrado nos buracos da estrada e numa salada de sentimentos desencontrados, até ao seminário hoje chamado Mater Apostulorum.
Ainda parei no caminho para lhe perguntar se era mesmo o que queria.
– É sim, mê furrié.
– Não sou teu furrié! Não me trates assim!
– Sim, mê furrié.
No seminário, o reitor falou com ele dois minutos e comigo outros dois.
– Ele quer é onde dormir e comer, e talvez estudar.
No regresso, vi-lhe lágrimas. Na cidade, deixei-o donde tínhamos partido.
– Amanhã aqui outra vez às nove horas.
– Sim, mê furrié.
No dia seguinte fomos ao liceu de Nampula, depois comprar livros e cadernos, lápis, borrachas, canetas, calções e mais T-shirts. Passou a dormir na camarata dos soldados. Não sou capaz de descrever a felicidade da cara dele – tudo o que me ficou do meu pequeno amigo.
(Notinhas de uma guerra engolida)

Como um cãozinho perdido, à procura de um lar, de algo parecido com uma família (pelo menos, aos seus olhos).
No dia seguinte apareceu-me vestido, com os livros debaixo do braço, a caminho da escola, todo contente, a olhar para o pulso esquerdo e para as horas – “Tenho de ir, mê furrié!” Vai!
Bela história. Lembra-nos que até nas situações mais improváveis há espaço para a ternura. E é uma história que diz muito de ti 🙂
Obrigado, Teresa. Bom, deixaste-me um pouco sem jeito…
🙂