Comissão de Serviço XI


modosdever,

CELESTINO II

 

Estava naquele dia para fechar a secção quando, de repente, o rapaz entrou. Levou tempo a começar.

– Preciso de falar consigo, mê furrié.

– O que se passa?

– É que… quero ser padre… – disse, baixando os olhos, embaraçado, e a coçar comichões inventadas.

– PADRE? Porquê, Celestino?

Voltei atrás, sentámo-nos, respirei fundo; perguntei-lhe onde tinha ido buscar a ideia, se sabia o que isso significava; se era mesmo o que queria. Respondeu a tudo, insistente, determinado.

– Amanhã de manhã aqui, às nove horas.

No dia seguinte peguei num jipe e levei-o estrada fora, por cinco quilómetros, na direcção de Nacala, ele feliz, eu calado, concentrado nos buracos da estrada e numa salada de sentimentos desencontrados, até ao seminário hoje chamado Mater Apostulorum.

Ainda parei no caminho para lhe perguntar se era mesmo o que queria.

– É sim, mê furrié.

– Não sou teu furrié! Não me trates assim!

– Sim, mê furrié.

No seminário, o reitor falou com ele dois minutos e comigo outros dois.

– Ele quer é onde dormir e comer, e talvez estudar.

No regresso, vi-lhe lágrimas. Na cidade, deixei-o donde tínhamos partido.

– Amanhã aqui outra vez às nove horas.

– Sim, mê furrié.

No dia seguinte fomos ao liceu de Nampula, depois comprar livros e cadernos, lápis, borrachas, canetas, calções e mais T-shirts. Passou a dormir na camarata dos soldados. Não sou capaz de descrever a felicidade da cara dele – tudo o que me ficou do meu pequeno amigo.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

5 comentários em “Comissão de Serviço XI”

    1. No dia seguinte apareceu-me vestido, com os livros debaixo do braço, a caminho da escola, todo contente, a olhar para o pulso esquerdo e para as horas – “Tenho de ir, mê furrié!” Vai!

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