Desenhador, precisa-se


modosdever,

A PSP está a reunir todos os elementos disponíveis para “perceber o que se passou” na agressão policial ocorrida na quinta-feira, em Lisboa, contra jornalistas que faziam a cobertura de uma manifestação, disse hoje o porta-voz da Polícia. Extraordinário! Com uma polícia como esta [segundo 22´] a quem é preciso fazer um desenho para perceber o que se passou é porque estamos literalmente entregues aos bichos. Literalmente. 

Comissão de Serviço – XX


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CÓCEGAS

 

Todas, ou quase todas as tardes, reuníamo-nos num dos cafés da baixa, para trocarmos notícias e histórias, umas da metrópole outras do lugar.

As novidades chegavam pela rádio, jornais e revistas, nestes casos com assinaláveis atrasos, ou tinham sido ouvidas ou vividas nas respectivas unidades. Nampula era uma cidade de quartéis, de todas as armas e boinas.

R., enfermeiro no hospital, trouxe uma vez uma, recebida de múltiplas maneiras, do silêncio ao riso.

Um oficial, abatido com a ruptura do namoro que deixara na terra, metera o cano da G3 à boca e disparara. Mas com tanto azar (não me lembro já se foi a expressão que usou) que a bala o deixou num mero estado vegetativo.

Pelo que R. contou, das poucas reacções que tinha era quando lhe faziam cócegas nos pés. Recolhia-os.

– É giro. Apareçam lá. Experimentem! Vão ver. É extraordinário!

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Blogue da Semana


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Como sou do tempo em que se chateavam os putos por gostarem dos quadradinhos, gosto hoje de quem os trata bem, como Pedro Moura o faz no Ler BD. Sabe do que escreve e está atento às novidades, incluindo as más, como a morte, sábado, de Moebius, ou Jean Giraud, o homem que deu vida ao tenente Blueberry, o meu primeiro herói atípico – outros se lhe seguiram. Longa vida aos fazedores de sonhos e aos que não os deixam morrer.

Comissão de Serviço – XIX


modosdever,

VIOLETA I

 

O que é que se faz numa cidade onde tudo se esgotou? Bebe-se, escrevem-se cartas intermináveis a contar o dia, igual ao da véspera, discutem-se trivialidades. Ou lê-se.

No meu caso, e porque a escolhas eram curtas, pus-me a ler Os Santos vão para o Inferno, de Gilbert Cesbron, que já conhecia dos Cães Perdidos sem Coleira. Nada mais anacrónico quando no cinema militar ou passavam sessões do MFA ou filmes como Homens sem Amanhã, tirado do romace de Truman Capote. Deprimente? Ok. Mas foi assim.

[Os Santos vão para o Inferno descobri hoje que está a leilão no Sapo com uma base de licitação de 2,5 euros. Não vale nem isso. Mas qual é o preço da nostalgia?]

Outros camaradas preferiam ir embebedar-se para o Bagdad, o mais bem fornecido dos bares de Nampula, outros ver os aviões a partir. Outros ainda ir à Nametaqueliua, um bairro de palhotas, onde morava um grupo de três raparigas que durante meses foi o contraponto da guerra.

A guerra tinha acabado. A cidade, onde estávamos reféns, entregues a comissões liquidatárias, amontoava caixotes à porta e olhava, tensa, para o relógio. Excepto elas. Excepto Violeta. Não tinham ainda dinheiro suficiente para arrumarem as suas coisas. Mas essa é uma história que fica para depois.  

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço – XVIII


modosdever,

 

“MEU AMOR”

 

Um dia fui ao SPM – o Serviço Postal Militar.
Estava na guerra há meses e há semanas que L. não me escrevia.
(Escrevo estas linhas e rebobino os anos. Volto a ter 20. Entro, suado, nos correios militares de Nampula e pergunto por cartas para mim.)
1974. Está um calor de derreter as solas. Estou numa fila de magalas ansiosos. Dizem o nome e recebem o que chegou – ou não recebem nada e voltam a sair. Uns sorriem, outros encolhem os ombros.
Digo o meu nome. L. voltou a faltar.
 “Meu amor, meu amor, minha parte de mim.” Tenho-lhe escrito com tinta das veias. Esgoto os aerogramas. Impossível que não me pressinta! Mas também sorrio e saio. À noite volto a escrever-lhe.
(Os aerogramas eram folhas amarelas com asas, gratuitas.)
2012. Escrevi-lhe sempre. Esgotava-me a lembrá-la – linda! – e a contar-lhe os meus dias, e de como os meus olhos não pousavam em mais mulher nenhuma.
Um dia deram-me uma carta. Logo pela letra, era dela! Começava por um olá e pelo meu nome, e contava de como as ruas, aqui, estavam cheias e de como era urgente travar a reacção. E acabava com um beijo – só um.
Foi a última. Mas continuei a ir sempre que pude ao SPM. Não tinha mais aonde ir. Excepto para a guerra, que, vista daqui, passara de uma tragédia a um pormenor.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

O que ando a ler (22)


modosdever,

 

Tomo estas notas a quente e frio, por causa de uma despedida e da temperatura que baixou, e por as duas coisas me terem lembrado umas férias de Verão, em 1966, de um imenso calor e de uma morte, de uma escultura de areia e de como a maré a desfez, seriam umas sete da tarde, isto para vos sugerir o que o uruguaio Felizberto Hernández levou a vida a fazer: a procurar, entre as palavras, os seus sentidos. Foi o autor que acabei de reler, porque a leitura é isso mesmo, voltar a ela. Mas que livro, este Contos Reunidos! Naqueles em que volta a ser menino, FH descobre o passado, e o homem que resultou dele, através por exemplo da amizade com Clemente Colling, um violinista virtuoso que nunca trocava de meias e tinha o corpo coberto de percevejos, de duas irmãs velhas que a mãe visitava, duas mulheres de véus caídos sobre as caras e de chás tomados na penumbra de uma sala igual há cinquenta anos, de como o atraiu, adolescente, o cesto de roupa suja da casa de banho de uma mulher bonita – e de como lhe bateu o coração com medo de que alguém de repente entrasse. Noutro, já homem e pianista, antes de trocar o mundo dos sons pelo das palavras, aceita ser convidado de uma matrona rica que vegeta, caprichosa e ferida de amores, numa casa alagada, onde só se pode andar de canoa, e as camas e os armários flutuam sobre bóias. Felizberto Hernández convive com as palavras para encontrar o sentido das coisas, umas vezes claro outras misterioso. “… Tenho como um processo de amizade com as palavras, primeiro faço-me amigo directo delas; e depois fico muito contente quando me aparecem juntas, duas que nunca haviam estado juntas, que se haviam simpatizado, ou que se haviam atraído nalgum lugar da minha alma não vigiado por mim. Mas há palavras que nunca poderão ser minhas amigas, as que não me parecem naturais ou as que não entram no mistério da simpatia” – escreveu a uma amiga. Portugal conhece pouco este abridor de caminhos, este autor incomparável – o mais próximo, no humor e na angústia, talvez seja Kafka. E no entanto Italo Calvino, Júlio Cortázar ou García Márquez, para citar só estes, têm-no como um dos seus maiores mentores. Este o livro que acabei de reler. O que estou a terminar, O Espião Alemão em Goa, de José António Barreiros, é outra história: de como, em Março de 1943, no porto de Mormugão, as tripulações de três navios mercantes alemães e um italiano, atacados por um comando britânico, preferiram metê-los no fundo, criando um problema ao Portugal neutral, que, não podendo reconhecer o ataque, fez julgar e condenar as quatro equipagens. Uma história feia, que o conhecido advogado soube investigar e trazer à tona.

E aqui vai, Cláudia, com um enorme pedido de desculpas pelo atraso, o meu contributo para esta série. E tu, Helena Sacadura, o que andas a ler?

Comissão de Serviço – XVII


modosdever,

BARBATANAS

 

Entre o fim da adolescência e os primeiros anos da idade adulta há um período, enfim, estranho em que pensar não é propriamente uma prioridade.

Foi assim que um fim de tarde, abrasado, no regresso de um passeata a Nacala, eu e mais quatro camaradas decidimos dar um mergulho na Praia das Chocas. De caminho tínhamos dado boleia a um preto.

Estávamos nós na água – sem pensar em nada – quando de repente o nosso passageiro, que preferira ficar na praia, começou aos pulos, a gritar coisas que se perdiam no ar e a apontar para trás de nós; ainda a uns bons metros, mas na nossa direcção, rasgavam o mar, discretas, duas pequenas barbatanas negras.

Há onze anos que aprendera a nadar, modalidade que exibia com vaidade. Mas naquele fim de dia troquei o estilo e as peneiras pela velocidade, e por alguma sensatez também.

Em Moçambique, a guerra colonial causou 2962 mortos entre os militares portugueses, metade em combate e a outra metade em acidentes – 234 com armas de fogo, 467 de viação e 780 por outras causas…

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço XVI


modosdever,

A ALTA

 

Contra o stress de guerra tínhamos as nossas receitas.

Uma madrugada desviámos um jipe do parque auto militar, passámos pela manutenção, pedimos ao sentinela para assobiar para o lado, levámos a comida que pudemos e rumámos para a Ilha de Moçambique. A ideia inicial era irmos caçar felinos, mas alguém com mais bom senso aconselhou esta.

Já no destino, depois de uns banhos de mar, uma visita à mesquita e outra ao forte, pôs-se a questão onde dormir. Um dos nossos sugeriu o hospital militar.

[Não tínhamos dinheiro ou tínhamos 20 anos, qualquer das desculpas serve.]

Entrámos, de noite e num respeitoso silêncio, escolhemos a enfermaria com mais camas disponíveis e dispersámo-nos por elas, entre camaradas operados e outros à espera. Mas o calor e a fome traíram-nos.

Estávamos nós, na cozinha, às três da manhã, a assar um belo chouriço e a abrir umas cervejas, quando um major médico entrou inesperadamente, e, depois de uma curta entrevista a cada um, deu-nos alta:

– “Todos fora do hospital, JÁ!”

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço XV


modosdever,

A MASCOTE

 

Em Nampula, a Polícia Militar ficava ao lado das nossas flats. 

Tinha uma mascote: um miúdo preto, de uns oito anos, escapado, pelo que se contava, ao massacre da sua aldeia e adoptado pela PM, que lhe fez uma farda e o graduou, se não me falha a memória em capitão.

A unidade tinha ordens para respeitar o artifício. Os sentinelas saudavam-no com o cumprimento devido, acompanhado por um sorriso paternalista, ao que ele respondia fazendo-lhes, muito direito e sério, a continência.

Dormia e comia no quartel. E do que mais gostava era de jogar à bola.

Já na metrópole, perguntei a um velho camarada de armas que fora feito do puto. Respondeu-me que, a poucos dias da independência da colónia, a tropa lhe tirara a farda para o poupar a uma eventual retaliação. Mas que depois fora descoberto por um grupo, embriagado, da Frelimo, despido sobre o balcão de um bar, cuspido e agredido, chorando que não lhe fizessem mal.

[Este episódio era para o fim desta Comissão, mas não aguentei mais.]

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Os bons voos não vão em rectas


modosdever,

 

Esta manhã acompanhei uma gaivota numa brisa. Eram aí umas oito e meia. Deixou-se ir com uma determinação e graça que me lembrou Violeta Parra. A alma vai para onde quer se não chatearmos. “La canción es un pájaro sin plan de vuelo que jamás volará en línea recta. Odia las matemáticas, ama los remolinos”. Foi um momento sem sobras, dois dias depois de ter visto “Violeta se fue a los cielos” (Andrés Wood), lançado em Agosto, no Chile, e passado agora em Lisboa numa sessão privada a que assisti ao lado de Ângel Parra. Há que olhar para os pássaros. Os bons voos não vão em rectas.

Os verdadeiros sonhadores, segundo Zizek


modosdever,

Slavoj Zizek visitou a Liberty Plaza, em Nova Iorque, para falar aos indignados do movimento Occupy Wall Street. “Não se apaixonem por vocês próprios, nem pelo momento agradável que estamos a ter aqui. Os Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como a nossa vida normal e quotidiana será modificada”, avisou. “Dirão que estão a sonhar, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar tal como estão por um tempo indefinido, como acontece com as mudanças cosméticas”. Deixo-vos com as palavras do filósofo esloveno, publicadas no Verso Books. No fim, talvez vos pareça também que enquanto uns ainda semeiam em terra cansada, outros lavram ao lado.

Blogue da Semana: A Natureza do Mal


modosdever,

Não conheço a natureza das coisas, muito menos a do mal, mas sei, isso sei, o que é respirar em ambientes fechados ou ter de ouvir de manhã à noite  uma série de chatos de pai e mãe. Não foi o título do blogue, A Natureza do Mal, que me atraiu, nem o nome dos autores, André Bonirre e Luís Januário, que não conheço. Foi o propósito do projecto: derrotar o real, rasgar janelas e se for caso disso sair por aí a dar umas dentadas. Traz, claro, citações magníficas, por exemplo dos presidentes da Unicer, da Red Oak ou da Mota-Engil, que não são naturalmente nem maus nem bons, são apenas o que são, mas também notas sobre o direito à raiva, esta a propósito do desfile de hoje, ou pequenos avisos, em jeito de vá, vá, afundem de vez esta merda, como o que segue:

 

Fechem os museus aos domingos.

Fechem os museus.

Fechem…

…Os domingos…

…A ideia de domingo.

E de sábado. E de sexta-feira à noite.

 

Por tudo isto, mais pelo que lá podem ler, escolho-o como o blogue da semana.

Comissão de Serviço XIV


modosdever,

O ORGANISTA

 

Entrou calmo, cara de bebé, lisa e branca, em cima da hora e sem uma palavra.

Chegou fardado, engomado, com passos pequenos e determinados, olhou sem expressão para cada um e, por fim, para o órgão.

Era domingo e faltavam poucos minutos para o meio-dia.

– Quem é? – perguntou a filha de um coronel, a mais fresca das vozes do coro.

– O novo organista – respondeu um soldado.

Durante a guerra, a missa, na Capela Militar de Nampula, chamava muita gente. E, desde a introdução da Missa Gen, chegadinha de Itália, acompanhada à guitarra, flauta e bateria, gentilezas do EMGFA, ainda mais.

Sentou-se, tirou a boina, amarela, pousou-a delicadamente ao lado do teclado, do lado dos graves, e esperou. O padre entrou. E o ar desfez-se em moléculas de música, numa harmonia tão suave que desviou o olhar dos fiéis, atónitos e rendidos, para a cara, sem ponta de emoção, do bebé.

– Sim, mas quem é?

– Um GE, um especialista em operações especiais e golpes de mão, que gosta de andar sozinho e de atacar à faca – e pelos vistos também de tocar órgão.  

Depois do ide em paz e que o Senhor vos acompanhe, o rapaz levantou-se, benzeu-se, ajeitou a boina, a pender sobre a orelha esquerda, e saiu.

E foi assim quase todos os domingos, excepto num ou noutro, em que todos o imaginávamos na selva, a cortar gargantas.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Comissão de Serviço – XIII


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O FEITICEIRO

 

– É verdade! Ele muda!

Quanto mais Ali arregalava os olhos, mais eu abria a boca. Aquele filho de um embondeiro estava a gozar-me…

– Se não acredita, venha. As festas são no sábado.

Ali queria convencer-me que o feiticeiro da aldeia natal, a caminho de Nacala, depois de andar aos pulos à volta da fogueira, cresciam-lhe a cara, os dentes, o cabelo e as unhas, rugia e transformava-se num leão.

– Pára com isso, pá! Quase acabaste o Liceu! E além disso és católico…

– Está bem. Mas ele transforma-se.

No dia das festas, fui. O aldeamento, umas vinte cubatas e uma praça de pó, estava num frenesim, cheio de visitantes, elas de túnicas garridas e missangas, aos gritinhos de lé lé lé, eles já aos tombos. Ali apresentou-me o régulo e uma série de amigos de caras abertas – o riso dos macuas é uma coisa indecifrável. Chegada a noite, do feiticeiro, nada!

– Onde é que ele está, Ali?

– Não vem.

– Aaaaaah, eu sabia!

– Sabia? Então porque é que veio? – riu-se. – Mas já que está aqui, beba uns golinhos de cana. Talvez ele ainda venha…

O entertainer não  apareceu, que eu tivesse visto. Mas sonhei com ele.

– Ora vê? – exclamou, na manhã seguinte, Ali. Vocês brancos, para acreditarem têm que sonhar! – e deu uma gargalhada.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Quando ler é insuficiente…


modosdever,

O convite da Helena Ferro, deixou-me um pouco atrapalhado – daí a demora – porque me obrigou a voltar ao meu primeiro livro, de pano, e a uma idade em que nada me preocupava. Isto para vos dizer que vários anos depois olho para os livros com um misto de atracção e desconfiança: levantaram-me sempre mais problemas do que resolveram. Não sei como é que me transformei num leitor compulsivo, quando o que queria era viajar e respirar fundo. Mas talvez a resposta já esteja na pergunta.   

 

1. Existe um livro que relerias várias vezes?

As Mil e Uma Noites, porque ainda me encanto, Em Nome da Terra, de Virgílio Ferreira, porque ainda me comovo, as Alices, de Lewis Carrol, porque ainda me partem a cabeça, vários de Pessoa, de Rilke…

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

O último foi Demasiados Heróis, de Laura Restrepo, o que me pesa: dá a ideia que o escreveu com uma pistola apontada à cabeça – ou à carteira.

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?

Foi a pergunta que mais tempo me levou a responder. Mas aí vai: Em Nome da Terra, porque me tocou, invadiu e ocupou.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

O Ulisses, de Joyce. Também porque nunca calhou. Olhem: esta pergunta é deprimente!

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?

Assim, de repente, não me lembro de nenhum. Em geral, não consigo separar os começos e os fins nas histórias. Como é que se faz?

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Ai, saudade! O primeiro livro que folheei, não sei com que idade, foi um de pano – O Preto da Guiné. Quando tinha oito anos deram-me um de poemas, que li e reli, até que me escapou das mãos quando tomava banho. Lia de dia e de noite, com uma lanterna debaixo dos lençóis. Sonhei com Grichka e o seu Urso, andei na garupa do Cavaleiro Andante, acompanhei até aos últimos suspiros o Major Alvega e O Último dos Moicanos, emocionei-me com Beau Geste, de P. C. Wren, fui duende numa história de Selma Lagerloff. Desci ao centro da Terra com Júlio Verne. E, claro, fui o sexto companheiro dos Cinco, entre bolachas e limonadas – foi a única vez na vida que engordei.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

O mais recente foi Método Prático de Guerrilha, do brasileiro Marcelo Ferroni, para quem, à semelhança de muitos novos escritores, a História não passa de uma metáfora e a escrita um exercício de ironia. Pagaram-me para o ler. Os mais remotos foram dois disparates, um de um chileno, Michelle Bonnefoy, e outro de um espanhol, Enrique Murillo. Não devia ter na altura mais nada à mão…

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Ora, sentem-se. Na prosa, e à medida que me lembro, Os Maias, de Eça, Em Nome da Terra, de Virgílio Ferreira, Avieiros, de Alves Redol, vários de Agualusa, vários de Saramago, Cães Perdidos sem Coleira, de Gilbert Cesbron, Terre des Hommes, de Saint-Exupéry, vários de Camus, Carta a um Homem Religioso, de Simone Weil, Escritos no Deserto, de Isabelle Eberhardt, entre outros, O Fio da Navalha, de S. Maugham, A Montanha Mágica, de Thomas Mann, O Velho e o Mar, nem digo de quem, as Alices de que já falei, vários de Chatwin, Doce Companhia, de Laura Restrepo, entre outros, Cem Anos de Solidão, de García Márquez, entre outros, Terra do Fogo, de Francisco Coloane, entre outros, Terra de Ninguém, de Eduardo Antonio Parra, Conversa na Catedral, de Vargas Llosa, entre outros, A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, 2666, de R. Bolaño, Somos o Esquecimento que Seremos, de Abad Faciolince, uma descoberta, vários de Carlos Fuentes, RoBhalde, de H. Hesse, O Processo, de Kafka, vários de Kapuscinski, vários de Mia Couto. Na poesia, o Cântico dos Cânticos, ou o corpo que todos perdemos, e, também sem nenhuma ordem especial, a obra de Pessoa e dos seus outros seres, a de Mário de Sá-Carneiro, a de Ana Daniel, a de Emily Dickinson, a de Rilke, a de Paul Éluard, e, no teatro, a de Sartre, a de Brecht – claro! –, a de Schnitzler, a de Pinter. Pronto. Basta. Chega.

9. Que livro estás a ler?

Contos Reunidos, do uruguaio Felisberto Hernández, uma obra absolutamente prima de um escritor absolutamente genial, desgraçadamente pouco lembrado. E um outro sobre plantas carnívoras, mas este não conta para aqui…

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.

Podem ser só quatro? Filomena Naves, Sérgio Luís de Carvalho, Miguel Real, Alice Vieira. Eu aviso-os.

Comissão de Serviço XII


modosdever,

SURUMA

 

Por esses anos, Nampula era uma cidade cheia de vendedores ambulantes, que se apinhavam ao domingo junto da igreja ou se espalhavam pelas esquinas de segunda a sábado. Os principais compradores eram, claro, os brancos, na maior parte militares, ou a abastada comunidade indiana.

Vendia-se tudo, caju, vegetais, colares de missangas, pulseiras ditas de pêlos-de-elefante, peixe seco ou pau-preto, a madeira de mpingo que os artesãos desbastavam, a canivete, até encontrar dentro mães africanas em estilo de Nossas Senhoras, Cristos suspensos ou meros objectos de uso caseiro.

No meio das leguminosas e das figurinhas pretas, alguns ofereciam por poucos escudos saquinhos de suruma – o nome, ali, da canábis, ou cânhamo indiano, ou maconha, se quiserem, um preparado de folhas e flores secas, que, fumado, tem óptimos efeitos de alheamento. Bem; é um estupefaciente.

Umas passas, e não eram precisas muitas, serviam às mil maravilhas, no caso dos militares, para transformar uma operação numa passeata, dar um salto a casa, em A-da-Gorda, Aguçadora ou Vila Nova do Coito, sem sair da colónia ou trocar, por umas horas, a condição humana pela liberdade de um pássaro.

[Foi sob esse efeito que o furriel da Comissão de Serviço VIII se transformou num canário.]

A suruma foi sem dúvida, nesses anos, a mais querida das madrinhas de guerra: adormecia-nos, acordados e vivos, sem pedir nada.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

Tempestade e bonança


modosdever,

 

Vi esta foto de RC pela primeira vez em 2006. Confesso que me confundiu. Penso que isso aconteceu por ter recusado logo qualquer semelhança entre os seus olhares e os meus. Cinco anos depois, voltou a cair-me debaixo dos olhos e a dar-me que pensar. Mas agora decidi separar as águas e gostar dela, pela imensa versatilidade da velha Rolleyflex e a força do tema. É uma bela foto.