VIOLETA I
O que é que se faz numa cidade onde tudo se esgotou? Bebe-se, escrevem-se cartas intermináveis a contar o dia, igual ao da véspera, discutem-se trivialidades. Ou lê-se.
No meu caso, e porque a escolhas eram curtas, pus-me a ler Os Santos vão para o Inferno, de Gilbert Cesbron, que já conhecia dos Cães Perdidos sem Coleira. Nada mais anacrónico quando no cinema militar ou passavam sessões do MFA ou filmes como Homens sem Amanhã, tirado do romace de Truman Capote. Deprimente? Ok. Mas foi assim.
[Os Santos vão para o Inferno descobri hoje que está a leilão no Sapo com uma base de licitação de 2,5 euros. Não vale nem isso. Mas qual é o preço da nostalgia?]
Outros camaradas preferiam ir embebedar-se para o Bagdad, o mais bem fornecido dos bares de Nampula, outros ver os aviões a partir. Outros ainda ir à Nametaqueliua, um bairro de palhotas, onde morava um grupo de três raparigas que durante meses foi o contraponto da guerra.
A guerra tinha acabado. A cidade, onde estávamos reféns, entregues a comissões liquidatárias, amontoava caixotes à porta e olhava, tensa, para o relógio. Excepto elas. Excepto Violeta. Não tinham ainda dinheiro suficiente para arrumarem as suas coisas. Mas essa é uma história que fica para depois.
(Notinhas de uma guerra engolida)
