A MASCOTE
Em Nampula, a Polícia Militar ficava ao lado das nossas flats.
Tinha uma mascote: um miúdo preto, de uns oito anos, escapado, pelo que se contava, ao massacre da sua aldeia e adoptado pela PM, que lhe fez uma farda e o graduou, se não me falha a memória em capitão.
A unidade tinha ordens para respeitar o artifício. Os sentinelas saudavam-no com o cumprimento devido, acompanhado por um sorriso paternalista, ao que ele respondia fazendo-lhes, muito direito e sério, a continência.
Dormia e comia no quartel. E do que mais gostava era de jogar à bola.
Já na metrópole, perguntei a um velho camarada de armas que fora feito do puto. Respondeu-me que, a poucos dias da independência da colónia, a tropa lhe tirara a farda para o poupar a uma eventual retaliação. Mas que depois fora descoberto por um grupo, embriagado, da Frelimo, despido sobre o balcão de um bar, cuspido e agredido, chorando que não lhe fizessem mal.
[Este episódio era para o fim desta Comissão, mas não aguentei mais.]
(Notinhas de uma guerra engolida)

Só agora te li, Fernando. Percebi porque querias deixar esta parte para o fim. É profundamente triste esta história. As histórias mais difíceis de engolir são as que nos falam de miséria humana. Temos genes muito ordinários. Não há omo que os lave, por mais séculos que passem.
Infelizmente não foi a única que vivi, de que fui testemunha ou ouvi por outros. Mas foi, sim, um dos momentos mais altos das baixezas da guerra colonial. Que fique escrito.