A ALTA
Contra o stress de guerra tínhamos as nossas receitas.
Uma madrugada desviámos um jipe do parque auto militar, passámos pela manutenção, pedimos ao sentinela para assobiar para o lado, levámos a comida que pudemos e rumámos para a Ilha de Moçambique. A ideia inicial era irmos caçar felinos, mas alguém com mais bom senso aconselhou esta.
Já no destino, depois de uns banhos de mar, uma visita à mesquita e outra ao forte, pôs-se a questão onde dormir. Um dos nossos sugeriu o hospital militar.
[Não tínhamos dinheiro ou tínhamos 20 anos, qualquer das desculpas serve.]
Entrámos, de noite e num respeitoso silêncio, escolhemos a enfermaria com mais camas disponíveis e dispersámo-nos por elas, entre camaradas operados e outros à espera. Mas o calor e a fome traíram-nos.
Estávamos nós, na cozinha, às três da manhã, a assar um belo chouriço e a abrir umas cervejas, quando um major médico entrou inesperadamente, e, depois de uma curta entrevista a cada um, deu-nos alta:
– “Todos fora do hospital, JÁ!”
(Notinhas de uma guerra engolida)

«Não tínhamos dinheiro ou tínhamos 20 anos, qualquer das desculpas serve.» Meu caro, absorvo as suas histórias com um prazer enorme. Somos da mesma faixa etária – estive em Angola em 73 e 74 – e que saudades sinto de não ter dinheiro, mas ter 20 anos. Agora não temos dinheiro e os 20 anos já estão tão longe…
Cumprimentos
Sendo eu da mesma faixa, aprendi uma coisa tremenda: nós não temos verdadeiramente saudades dos lugares onde estivemos, do tipo de vida que levámos, das pessoas com quem privámos, etc. Temos (isso, sim) saudades de uma certa idade, saudades da idade que tivemos.
Só quando ganhamos consciência disso é que a nostalgia deixa de ser triste ou depressiva, mas apenas um espaço interior para reter e gerir as memórias que realmente nos enriquecem.
E como dizia o outro, a juventude é um desperdício nos jovens.
Realmente.
Ai, João, não sei não… Eu tenho mesmo saudades dos sítios, posso-te jurar. Se voltasse a alguns deles – irrecuperáveis – garanto-te que os gozaria à grande e a francesa e com a mesma garra. Vai uma aposta?
(pois… eu sei que que achas isto uma ilusão. Talvez estejas certo mas sou teimosa 😉
Podes teimar, que isso é muito respeitável. Mas é como tu mesmo dizes desses sítios: estão irrecuperáveis. Estiveram associados à nossa idade. E mais: mesmo que até possa fazer melhor, ninguém faz hoje exactamente o que era capaz de fazer com metade da idade…
Sabes que mais? É como dizes: acredito que faríamos ainda melhor, porque com muito mais sabedoria. Não há remédio… sou uma vivente incurável 😉
Ainda assim, aprendi a ter saudades da idade.

E eu também João… estou é a fingir que não!
.
É uma questão interessante, João, mas eu não consigo distinguir – ainda – as coisas do seu significado. Ainda se misturam.
É verdade, observador, não temos nem dinheiro nem já 20 anos, mas temos memória – que ela sirva para passar testemunhos como os que aqui procuro trazer. Para que o passado de alguma maneira sirva. Obrigado pela fidelidade.
Fernando, belo apontamento, gostei muito. Espero ansiosamente as crónicas do Gerês.
Obrigado, Laura. Recordar as contradições, incluindo as parvoíces, empresta mais verdade à História, de que a nossa memória faz parte.
Saudades da Ilha e não só…Nacala, Fernão Veloso ( que baía!!!, espectacular!!!!). Saudades das asneiras que fiz naquela altura, que podia fazer. Hoje…recordo com saudade. Revejo-me nestes textos. A época é a mesma.
Bfs
Saudades das asneiras… Sim, zeparafuso. As asneiras são um dos riscos da liberdade. Como não ter saudades?