O FEITICEIRO
– É verdade! Ele muda!
Quanto mais Ali arregalava os olhos, mais eu abria a boca. Aquele filho de um embondeiro estava a gozar-me…
– Se não acredita, venha. As festas são no sábado.
Ali queria convencer-me que o feiticeiro da aldeia natal, a caminho de Nacala, depois de andar aos pulos à volta da fogueira, cresciam-lhe a cara, os dentes, o cabelo e as unhas, rugia e transformava-se num leão.
– Pára com isso, pá! Quase acabaste o Liceu! E além disso és católico…
– Está bem. Mas ele transforma-se.
No dia das festas, fui. O aldeamento, umas vinte cubatas e uma praça de pó, estava num frenesim, cheio de visitantes, elas de túnicas garridas e missangas, aos gritinhos de lé lé lé, eles já aos tombos. Ali apresentou-me o régulo e uma série de amigos de caras abertas – o riso dos macuas é uma coisa indecifrável. Chegada a noite, do feiticeiro, nada!
– Onde é que ele está, Ali?
– Não vem.
– Aaaaaah, eu sabia!
– Sabia? Então porque é que veio? – riu-se. – Mas já que está aqui, beba uns golinhos de cana. Talvez ele ainda venha…
O entertainer não apareceu, que eu tivesse visto. Mas sonhei com ele.
– Ora vê? – exclamou, na manhã seguinte, Ali. Vocês brancos, para acreditarem têm que sonhar! – e deu uma gargalhada.
(Notinhas de uma guerra engolida)

África e as suas histórias. Bons tempos. Nacala, Fernão Veloso….Ilha. A sonhar se faz história.
Sem dúvida, zeparafuso. A África guarda o tempo.
“Ver para crer” já era.
“Sonhar para crer” – interessante…
Quando a razão afasta a crença, o corpo vinga-se no sonho. Sim, é interessante. Bjo.
Trabalho mais que bom, para “comissão de serviço”!
Leio-o sempre.
Todos os que passámos pela guerra trouxemos as nossas histórias. Teremos sido um milhão entre 1961 e 1975. Agora adivinhe, Zé, a quantidade de comissões de serviço que nunca sairão à luz do dia. A ideia destes episódios é salvar alguma coisa. Abraço