Comissão de Serviço – XIII


modosdever,

O FEITICEIRO

 

– É verdade! Ele muda!

Quanto mais Ali arregalava os olhos, mais eu abria a boca. Aquele filho de um embondeiro estava a gozar-me…

– Se não acredita, venha. As festas são no sábado.

Ali queria convencer-me que o feiticeiro da aldeia natal, a caminho de Nacala, depois de andar aos pulos à volta da fogueira, cresciam-lhe a cara, os dentes, o cabelo e as unhas, rugia e transformava-se num leão.

– Pára com isso, pá! Quase acabaste o Liceu! E além disso és católico…

– Está bem. Mas ele transforma-se.

No dia das festas, fui. O aldeamento, umas vinte cubatas e uma praça de pó, estava num frenesim, cheio de visitantes, elas de túnicas garridas e missangas, aos gritinhos de lé lé lé, eles já aos tombos. Ali apresentou-me o régulo e uma série de amigos de caras abertas – o riso dos macuas é uma coisa indecifrável. Chegada a noite, do feiticeiro, nada!

– Onde é que ele está, Ali?

– Não vem.

– Aaaaaah, eu sabia!

– Sabia? Então porque é que veio? – riu-se. – Mas já que está aqui, beba uns golinhos de cana. Talvez ele ainda venha…

O entertainer não  apareceu, que eu tivesse visto. Mas sonhei com ele.

– Ora vê? – exclamou, na manhã seguinte, Ali. Vocês brancos, para acreditarem têm que sonhar! – e deu uma gargalhada.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

6 comentários em “Comissão de Serviço – XIII”

    1. Todos os que passámos pela guerra trouxemos as nossas histórias. Teremos sido um milhão entre 1961 e 1975. Agora adivinhe, Zé, a quantidade de comissões de serviço que nunca sairão à luz do dia. A ideia destes episódios é salvar alguma coisa. Abraço

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