Contra os estereótipos


Pedro Correia,

 

Os jornalistas devem combater os estereótipos sempre que puderem, como dever profissional. Isto não é um princípio expresso no código deontológico dos jornalistas portugueses, que peca por inúmeras omissões, mas devia constar dele sem demora. Julgo, aliás, que os jornalistas já há muito deviam ter adoptado um código deontológico mais vasto e detalhado, que actualize o documento em vigor, aprovado há cerca de 20 anos.

Lembrei-me disto, vejam lá, a propósito do Algarve. Reparem como o Algarve é tratado nos principais órgãos de informação portugueses, incluindo os de serviço público: como um destino de praia para os outros habitantes do País. Não há um Algarve agrícola, não há um Algarve serrano, não há um Algarve fora dos postais ilustrados de sol & mar. Não há um Algarve com os problemas específicos da população que lá vive e lá trabalha, fora do sector turístico na época de Verão. Há quase só um Algarve dos forasteiros que lá vão estender a toalha nuns centímetros de areia.

Ainda neste fim de semana reparei nisto. Lá vimos a enésima reportagem televisiva a caminho de uma praia – que são quase sempre as mesmas, em Vilamoura ou Albufeira – a perguntar aos “banhistas” o que tencionam fazer se o tempo piorar. Ouviram-se, naturalmente, as mais diversas e disparatadas respostas – desde o sujeito que prefere tomar banho de mar à chuva até aos que anseiam pelo céu toldado para poderem arrastar a chinela em centros comerciais.

Há quem chame a isto “informação”. Não é o meu caso. Gostava que os jornalistas debatessem esta e outras questões. Infelizmente isso não acontece – por vários motivos, desde logo devido à crescente “proletarização” desta classe profissional. Com jornalistas a trabalhar 12 horas por dia e a ganhar cerca de 700 euros líquidos ao fim de vários anos, sem a mínima perspectiva de progressão na carreira e sob a iminência de um despedimento colectivo ao menor pretexto ou de uma redução unilateral de ordenado, como agora começa a ser moda, que nível de debate e de espírito crítico pode existir numa redacção?

17 comentários em “Contra os estereótipos”

    1. Falta de qualidade, falta de imaginação. Jornalismo de rebanho, jornalismo de frases feitas, jornalismo que toma a parte pelo todo e a irrelevância como virtude. Mas, como refiro, a falta de estímulo é tão grande – desde logo o estímulo salarial – que, não explicando tudo, explica muita coisa.

  1. Não pode, Pedro, existir uma Redacção. Porque não há quem mande com saber. E se uns ganham 700 euros, outros ganham 7000 e nem se chateiam muito. Como nos cargos públicos, sujeitos a críticas dos jornalistas, os postos altos são muito bem remunerados e muitas vezes na razão inversamente proporcional à competência e conhecimentos. Isto é que subverte as coisas – mas, como sempre, pergunto-me, tratando-se de privados ne generalidade, como os patrões avalizam isto e se é que até sabem o que estão a fazer (e a pagar)?…

  2. Isso era bom.

    Combater os estereótipos generalizados, e os estereótipos nas cabeças deles. Como por exemplo, que um dos deveres do jornalista é chamar a atenção para o que está mal, o que se consegue fazendo títulos catastrofistas nem que seja preciso torcer fortemente a realidade do que se diz mais à frente no artigo.

    Tenho a dizer que fico sempre na dúvida se o título é da responsabilidade deles ou dalguma cabeça iluminada lá na redacção. Mas ando há dias com vontade de propor aos ilustríssmos donos deste blog que abram uma discussão intitulada qualquer coisa como “Títulos-que-só-com-um-encharcado-na-cara”. Isto porque quase todos os dias me deparo com títulos que me apetece qualificar de alta traição (digo títulos porque os artigos costumam explicar-se melhor, mas o mal já está feito). O permanente sapar da confiança dos portugueses neles próprios e na sociedade que vão organizando não merece outro nome.

    O último é este, do DN

    “Água da torneira pode ser perigosa”

    sobre a questão das resistências ao antibióticos em bactérias inofensivas encontradas em água potável, questão sobre a qual as autoridades a nível mundial terão eventualmente de se debruçar um dia destes, como se depreende de um artigo um bocado melhor do Público. Tenho a dizer que estive precisamente ontem a discutir durante 1h com um desses vendedores da banha da cobra que vendeu por uma pipa de massa um filtro de sedimentos a um velhote que talvez tenha a água do poço inquinada, portanto estou particularmente sensível a esta questão.

    Outro exemplo brilhante é o “Metade do sangue doado vai para o lixo” de há uns meses atrás.

    Os baixos salários não são justificação para isto.

  3. Tens razão, Pedro. E o problema actual do jornalismo é mais grave do que isso. Quem sai hoje das universidades – bem ou mal preparado, não é esse o ponto aqui – e ambiciona fazer carreira em jornalismo depara-se com inúmeros obstáculos, desde remunerações praticamente inexistentes, estágios absurdos e regras de acesso à carteira profissional pouco claras, com critérios que dificilmente podem ser cumpridos. Ou seja: os jornalistas mais experientes trabalham muito e são, no geral, mal pagos, e a renovação é escassa. Por outro lado, os jovens mais persistentes (ou com mais sorte) acabam muitas vezes por estar “entregues aos bichos”, pois os mais velhos – uma vez mais – acabam por ter pouco tempo para os acompanhar.

    Não sei se o problema é falta de vontade, falta de dinheiro, ou as duas coisas. Sei que o resultado é um jornalismo cada vez mais pobre, e cada vez mais jornalistas – em início de carreira ou já veteranos – a abandonarem a profissão para áreas próximas. O que é uma pena.

    1. Tens razão, meu caro. Suponho que não há estudos feitos nesta matéria, nem sequer pelo Sindicato dos Jornalistas, mas a taxa de abandono da profissão tem sido elevadíssima e em percentagem sempre crescente. Pelos mais diversos motivos: proletarização das condições de trabalho, perda de direitos laborais, escandalosas assimetrias salariais, degradação contínua do poder de compra comparativamente a outras áreas profissionais, afunilamento das carreiras, ‘pré-reformas’ aos jornalistas a partir dos 50 anos, perpetuação dos falsos recibos verdes a quem cumpre agenda e horário regulares, despedimentos colectivos em manifesta distorção da lei, encerramento iminente ou consumado de diversos títulos jornalísticos. E por aí fora. Dava para um livro inteiro. Um livro negro.

  4. “Com jornalistas a trabalhar 12 horas por dia e a ganhar cerca de 700 euros líquidos ao fim de vários anos, sem a mínima perspectiva de progressão na carreira e sob a iminência de um despedimento colectivo ao menor pretexto ou de uma redução unilateral de ordenado, como agora começa a ser moda, que nível de debate e de espírito crítico pode existir numa redacção?”

    Todo o texto e o debate que aqui se gerou já é muito importante para quem é uma dessas proletárias exploradas, mas cujo trabalho é impiedosamente escrutinado por todos.

  5. 700 euros é pouco, muito pouco. Mas é isso que recebem muitos licenciados com 30 anos de idade, ou mais; muitos arquitectos assalariados, com mais 10 anos de trabalho;
    etc, etc.

  6. Sou licenciado em Comunicação Social e sempre adorei jornalismo (mas confesso que mais numa óptica sociológica, não necessariamente de exercício)… estagiei 6 meses num orgão de informação de referência e gostaria apenas de referir o seguinte: o meu ano tinha mais de 100 alunos… e são muito muito poucos os que não estão empregados… mas apenas dois dos meus colegas seguiram jornalismo, uma está muito bem no desporto da TVI (vá, no limite entra na categoria de jornalismo) e outro na Economia do “I”… tenho mtos colegas e amigos no entertenimento, mas a exercer jornalismo, está quieto… e porquê? porque rapidamente todos percebemos, na altura dos estágios, que ou se tem um bichinho que nos atira para o mundo descrito pelo Pedro, pela nobreza da profissão, ou não é esta a nossa vocação… claramente, jornalismo não era a vocação de mais de 90% daquele ano…

    1. É preciso muita vocação para ser jornalista, Filipe. E muita sorte também. Caso contrário, os sonhos rapidamente se transformam em pesadelos.
      Nos últimos anos conheci muitos estagiários, altamente qualificados, que trariam valor acrescentado ao jornalismo português se tivessem alguma oportunidade real de entrar no mercado de trabalho. Infelizmente não tiveram – e hoje orientam a vida profissional noutras direcções. Na melhor das hipóteses. Noutros casos, talvez a maioria, continuam sem aceder sequer ao mercado de trabalho.
      E não falta também quem emigre. Este é, aliás, um dos maiores dramas do País no nosso tempo: alguns dos nossos melhores valores potenciais, nos quais o Estado investiu muitos anos através do serviço público de educação, acabam por rumar ao estrangeiro por absoluta incapacidade de encontrarem um posto de trabalho digno aqui.

  7. A desculpa do pouco ordenado e da perspectiva de carreira, não me parece aceitável. Um bom profissional tem de mostrar que o é. Acontece com toda as profissões… Há bons profissionais mal remunerados na Investigação Científica, ou nas obras como trolha ou em Hospitais como médico ou em ateliers como arquitectos ou numa pastelaria a servir às mesas, ou …, etc. Ah! Se a questão adjacente for a da licenciatura… devemos remunerar bem todos os alunos cábulas só porque tiveram boas notas finais do seu curso? hmmmm. A excelência cultiva-se.

    1. A excelência cultiva-se, é certo. Mas em Portugal raras vezes o mérito é premiado. Os critérios habituais de contratação e de promoção são outros.
      Ignoro em pormenor o que se passa noutras profissões. Falo do jornalismo. São escandalosas as assimetrias salariais existentes nas redacções. Isso nada tem a ver com critérios de excelência, garanto-lhe.

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