SURUMA
Por esses anos, Nampula era uma cidade cheia de vendedores ambulantes, que se apinhavam ao domingo junto da igreja ou se espalhavam pelas esquinas de segunda a sábado. Os principais compradores eram, claro, os brancos, na maior parte militares, ou a abastada comunidade indiana.
Vendia-se tudo, caju, vegetais, colares de missangas, pulseiras ditas de pêlos-de-elefante, peixe seco ou pau-preto, a madeira de mpingo que os artesãos desbastavam, a canivete, até encontrar dentro mães africanas em estilo de Nossas Senhoras, Cristos suspensos ou meros objectos de uso caseiro.
No meio das leguminosas e das figurinhas pretas, alguns ofereciam por poucos escudos saquinhos de suruma – o nome, ali, da canábis, ou cânhamo indiano, ou maconha, se quiserem, um preparado de folhas e flores secas, que, fumado, tem óptimos efeitos de alheamento. Bem; é um estupefaciente.
Umas passas, e não eram precisas muitas, serviam às mil maravilhas, no caso dos militares, para transformar uma operação numa passeata, dar um salto a casa, em A-da-Gorda, Aguçadora ou Vila Nova do Coito, sem sair da colónia ou trocar, por umas horas, a condição humana pela liberdade de um pássaro.
[Foi sob esse efeito que o furriel da Comissão de Serviço VIII se transformou num canário.]
A suruma foi sem dúvida, nesses anos, a mais querida das madrinhas de guerra: adormecia-nos, acordados e vivos, sem pedir nada.
(Notinhas de uma guerra engolida)

Um dos melhores momentos da comissão de serviço. Há ocasiões na vida, em que só a suruma nos vale…
(sem pedir nada)
P.S. Está desvendado o mistério do furriel.
Ahahahah!… O pior era quando o efeito passava e tudo voltava a ser feio e igual.
Pois, é a desvantagem dessas coisas…
Bom dia,
Chamo-me Vasco Gil e estou a fazer uma tese de doutoramento no ISCTE sobre o uso de álcool e outras substâncias psicoativas na guerra colonial. Um dos assuntos que me interessa é o uso de suruma/liamba por soldados portugueses, tema acerca do qual não encontro muita informação. Gostava de lhe pedir uma entrevista presencial (reafirmando a completa confidencialidade e anonimato). O meu contacto é vascogil@gmail.com.
Obrigado.