Comissão de Serviço – XX


modosdever,

CÓCEGAS

 

Todas, ou quase todas as tardes, reuníamo-nos num dos cafés da baixa, para trocarmos notícias e histórias, umas da metrópole outras do lugar.

As novidades chegavam pela rádio, jornais e revistas, nestes casos com assinaláveis atrasos, ou tinham sido ouvidas ou vividas nas respectivas unidades. Nampula era uma cidade de quartéis, de todas as armas e boinas.

R., enfermeiro no hospital, trouxe uma vez uma, recebida de múltiplas maneiras, do silêncio ao riso.

Um oficial, abatido com a ruptura do namoro que deixara na terra, metera o cano da G3 à boca e disparara. Mas com tanto azar (não me lembro já se foi a expressão que usou) que a bala o deixou num mero estado vegetativo.

Pelo que R. contou, das poucas reacções que tinha era quando lhe faziam cócegas nos pés. Recolhia-os.

– É giro. Apareçam lá. Experimentem! Vão ver. É extraordinário!

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

11 comentários em “Comissão de Serviço – XX”

  1. “recebida de múltiplas maneiras, do silêncio ao riso” – por aqui se vê como somos todos tão diferentes uns dos outros.
    Coisas destas dão-me cabo do sossego, põem-me a pensar que tipo de carácter terão as pessoas que recebem notícias destas com riso.

    Como a receberia o assassino de Toulouse?

  2. Provavelmente a reacção de quem tenta vestir de normalidade o absoluto absurdo da situação. Para a poder suportar.

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