CÓCEGAS
Todas, ou quase todas as tardes, reuníamo-nos num dos cafés da baixa, para trocarmos notícias e histórias, umas da metrópole outras do lugar.
As novidades chegavam pela rádio, jornais e revistas, nestes casos com assinaláveis atrasos, ou tinham sido ouvidas ou vividas nas respectivas unidades. Nampula era uma cidade de quartéis, de todas as armas e boinas.
R., enfermeiro no hospital, trouxe uma vez uma, recebida de múltiplas maneiras, do silêncio ao riso.
Um oficial, abatido com a ruptura do namoro que deixara na terra, metera o cano da G3 à boca e disparara. Mas com tanto azar (não me lembro já se foi a expressão que usou) que a bala o deixou num mero estado vegetativo.
Pelo que R. contou, das poucas reacções que tinha era quando lhe faziam cócegas nos pés. Recolhia-os.
– É giro. Apareçam lá. Experimentem! Vão ver. É extraordinário!
(Notinhas de uma guerra engolida)

Esse teu amigo R. tinha um sentido de humor very british.
Não era amigo. Era só um tipo que estava naquilo há quatro anos e para quem as dores dos outros se tinham tornado comuns.
Claro, Fernando, não era uma crítica. Suponho que o humor deve ser a única forma de aguentar uma guerra sem enlouquecer.
Sim, Ana, de facto não há muitas maneiras de aguentar quatro anos a tratar de feridos e a embrulhar cadáveres. Só mesmo com sentido de humor. Um beijo.
Outro.
“recebida de múltiplas maneiras, do silêncio ao riso” – por aqui se vê como somos todos tão diferentes uns dos outros.
Coisas destas dão-me cabo do sossego, põem-me a pensar que tipo de carácter terão as pessoas que recebem notícias destas com riso.
Como a receberia o assassino de Toulouse?
Bom, não sei. Mas a julgar pelo que fez e pelos “remorsos” que mostrou provavelmente ria-se.
Bem, confesso que não pensei nessa hipótese de se usar o sentido de humor para não se enlouquecer…
Mas era, sim, um dos nossos recursos, Cristina. Não sei no entanto se algum dos companheiros chegou a aceitar o convite de R. Penso que não.
Provavelmente a reacção de quem tenta vestir de normalidade o absoluto absurdo da situação. Para a poder suportar.
Sim, Marta. Arriscaria dizer que foi para isso que nascemos com o sentido do humor e a capacidade do riso – para neutralizar o absurdo.