“MEU AMOR”
Um dia fui ao SPM – o Serviço Postal Militar.
Estava na guerra há meses e há semanas que L. não me escrevia.
(Escrevo estas linhas e rebobino os anos. Volto a ter 20. Entro, suado, nos correios militares de Nampula e pergunto por cartas para mim.)
1974. Está um calor de derreter as solas. Estou numa fila de magalas ansiosos. Dizem o nome e recebem o que chegou – ou não recebem nada e voltam a sair. Uns sorriem, outros encolhem os ombros.
Digo o meu nome. L. voltou a faltar.
“Meu amor, meu amor, minha parte de mim.” Tenho-lhe escrito com tinta das veias. Esgoto os aerogramas. Impossível que não me pressinta! Mas também sorrio e saio. À noite volto a escrever-lhe.
(Os aerogramas eram folhas amarelas com asas, gratuitas.)
2012. Escrevi-lhe sempre. Esgotava-me a lembrá-la – linda! – e a contar-lhe os meus dias, e de como os meus olhos não pousavam em mais mulher nenhuma.
Um dia deram-me uma carta. Logo pela letra, era dela! Começava por um olá e pelo meu nome, e contava de como as ruas, aqui, estavam cheias e de como era urgente travar a reacção. E acabava com um beijo – só um.
Foi a última. Mas continuei a ir sempre que pude ao SPM. Não tinha mais aonde ir. Excepto para a guerra, que, vista daqui, passara de uma tragédia a um pormenor.
(Notinhas de uma guerra engolida)


Saudosista!!!
Cada vez que me lembro dos bate estradas…vomito !
Baaaaaaaaahhhhhhhh…já estou com a crise !
É porque não tinhas noiva… famila… amigos..
É o primeiro militar que diz ” vomitar com a lembrança dos “bate estradas” …
Possivelmente eras um homem só!
Devemos sómente lembrar o “aérograma”, como veiculo de comunicação… Nada de confusões.
Erraste em todas !
Mas estás perdoado.
Belo texto. E ela, uma ingrata!
Obrigado, Helena. Mas não, uma ingrata não, estávamos só em lados diferentes da história. E havia ainda a distância…
Belo texto.
Ela tinha uma guerrinha em clima temperado…
Grato, JMP.
Não me olhe de esguelha… mas deixe-me dizer-lhe que
o meu coração gosta do seu coração… o meu ficou
agora alagadinho de ternura…
Lindo!, isso que escreveu! Eu adorava receber uma
carta de amor, mas só me escrevem sms malucos!!
Deixou-me sem jeito, Ilda. Não, não a olhei de esguelha. Obrigado pelas suas palavras.
Na guerra em Nampula? Sim abelha.
Não, guerreiro. Estive lá de férias.
Que belo texto, Fernando!
Mas não sejas severo com ela. Possivelmente estavam mesmo em lados – ou tempos – diferentes da mesma história. Lembro-me de que um amigo me pediu para ser sua “madrinha de guerra” (lembras-te da figura?) – e trocar com ele os ditos aerogramas durante a comissão de serviço que o esperava lá longe. Mas eu sabia que aquilo significava sempre um compromisso futuro, intensificado ainda por cima por esse drama de isolamento e desespero que vocês viviam em situação de guerra. E não aceitei, porque não quis mal-entendidos. Claro que não me teria custado nada ser um elo de ligação dele com o mundo “normal”, mas eu não estava minimamente interessada na conclusão da história, pelo menos como ele a queria escrever…
Fiz bem. Arranjou outra por correspondência e lá casaram quando ele voltou, são e salvo. 🙂
Não fui severo com ela, nem sou. Estávamos realmente na altura em dois mundos diferentes, na velocidade e no lugar. Percebi isso ao voltar – será um dos últimos episódios desta série. Mas custou, como custou a tantos outros. Para mais quando, não, L. não era uma madrinha de guerra, era minha companheira já há vários anos.
Meu caro Fernando
Isto de estar em lados diferentes da história é complicado. Às vezes significa, apenas, que estamos a viver histórias diversas, julgando que se trata da mesma…
A quem não aconteceu já? Mas, parece, fica sempre algo por desatar!
Em lados – ou tempos, como apontou a Ana – diferentes, um onde tudo mudava, todos os dias, outro ansioso por um regresso que nunca o seria porque tudo estaria mudado. Como aconteceu. E sim, foi complicado, Helena.
Bom, isso é muito diferente. Mas esses tempos não deixaram ninguém igual ao que era antes.
Seja como for, gostei muito do teu texto.