[Por motivos absolutamente alheios à minha vontade, e do Delito de Opinião, tive de interromper durante algum tempo estas notinhas de uma guerra engolida. Elas voltam agora, para continuar.]
VIDAS EM CARVÃO
Sete e meia, a manhã aquece, os jipes roncam.
– Tudo pronto?
– Tudo pronto, meu capitão.
– Então vamos que se faz tarde.
Arrancámos, com as metades de trás dos carros a abarrotarem de papéis e armados de G3. Rodámos uns 45 minutos na direcção do mais próximo dos inselbergs de Nampula e parámos à beira de uma ravina.
– Desçam! – ordenou o oficial.
Os soldados amontoaram a papelada no fundo da escarpa. A coisa durou uma meia hora. Eram caixas e caixas de processos individuais, com nomes, datas, acções, condecorações, lotes de meias-vidas do então chamado recrutamento provincial – dos nascidos e crescidos em Moçambique, quer dizer, pretos na esmagadora maioria.
No fim, o capitão Franco mandou que nos afastássemos.
– Fogo nisso! – disse.
Acendi um fósforo. Os papéis gostaram. Os nomes, as datas, as acções e as medalhas ficaram reduzidos a nada, entre chamas e fumo, numa hora.
No cimo, do lado oposto aos nossos jipes, dois da Frelimo; a guerra acabara há poucas semanas, vigoravam acordos de cooperação.
– Não liguem. Não farão nada.
Ficámos até às cinzas.
Já de partida, seis guerrilheiros desceram, quase a rebolar, para remexer nos restos. Mas já só havia carvão. Ninguém a quem pedir contas.
(Notinhas de uma guerra engolida)

Ainda bem que voltou. E ainda bem que nos dá a conhecer estes momentos. Continuarei a seguir com interesse.
Obrigado, Cristina. Afastei-me por instantes, por motivos de força maior, mas cá estou e para continuar. Como lhe prometi uma vez, lá mais para a frente terei mais novidades.