Comissão de Serviço I


modosdever,

[Pus aqui uma foto, mas tirei-a; é só minha]

 

ADEUS ETERNIDADE

 

– Vá, pá. Mexe-te! A guia?

Era Primavera e cheirava a querosene.

No chão ficava um grupo aos gritos de nem mais um soldado para as colónias, e outro, o da minha gente, que à medida que eu voava – tinham-me tirado umas asas de algodão e trocando por umas de ferro -, ia ficando mais pequeno, e mais distante, um mundinho que provavelmente nunca tinha existido.

Então um avião era aquilo!

Fora-se o garotinho de calções, o pião, as caricas, os cromos; as tranquilas meias-estações, as fatias recheadas [depois dou-vos a receita], as baínhas-abaixo, os Verões, os amores – dos muito-a-medo aos totais e para-sempre -, as batatinhas fritas da praia de São Martinho. As tardes na ITAU.

– Adeus eternidade!

Tinha deixado a cama feita.

Levava no bolso mais medalhas do que moedas.

– Continuem a comprar-me a Vida Mundial! [Ainda a guardo toda]

Não senti medo – ficaria para mais tarde; senti abandono.

Tinha 21 anos.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

11 comentários em “Comissão de Serviço I”

  1. Muito bom o texto, Fernando. Aí está uma experiência que nunca conheci, mas imagino que tenha sido duríssima para um rapaz de 21 anos habituado ao conforto e à segurança de um país pacato.
    Não te pergunto se trouxeste ainda mais medalhas, porque uma basta: a de teres voltado vivo.

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