
[Pus aqui uma foto, mas tirei-a; é só minha]
ADEUS ETERNIDADE
– Vá, pá. Mexe-te! A guia?
Era Primavera e cheirava a querosene.
No chão ficava um grupo aos gritos de nem mais um soldado para as colónias, e outro, o da minha gente, que à medida que eu voava – tinham-me tirado umas asas de algodão e trocando por umas de ferro -, ia ficando mais pequeno, e mais distante, um mundinho que provavelmente nunca tinha existido.
Então um avião era aquilo!
Fora-se o garotinho de calções, o pião, as caricas, os cromos; as tranquilas meias-estações, as fatias recheadas [depois dou-vos a receita], as baínhas-abaixo, os Verões, os amores – dos muito-a-medo aos totais e para-sempre -, as batatinhas fritas da praia de São Martinho. As tardes na ITAU.
– Adeus eternidade!
Tinha deixado a cama feita.
Levava no bolso mais medalhas do que moedas.
– Continuem a comprar-me a Vida Mundial! [Ainda a guardo toda]
Não senti medo – ficaria para mais tarde; senti abandono.
Tinha 21 anos.
(Notinhas de uma guerra engolida)

Muito bom o texto, Fernando. Aí está uma experiência que nunca conheci, mas imagino que tenha sido duríssima para um rapaz de 21 anos habituado ao conforto e à segurança de um país pacato.
Não te pergunto se trouxeste ainda mais medalhas, porque uma basta: a de teres voltado vivo.
Hesitei muito em trazer para aqui esta outra vida. Obrigado, Ana.
Como eu te entendo. Gostei. E sou contra os fantasmas: podes continuar.
Pero que los hay, los hay… Obrigado, João.
Parabéns pelo texto, achei lindo, de uma grande sensibilidade!
Sim, continue!
Obrigado, Cristina. Afinal, a sensibilidade é sempre o que sobra de mais vivo, ainda que oculto.
E é preciso coragem para trazê-la à luz.
Gostei muito, Fernando. Quero mais 🙂
Bom teres gostado, Teresa. Teremos mais… Mas ainda não sei se vou até ao fim. Veremos. Afinal são notinhas engolidas…
Excelente, Fernando. Não tendo passado por nada de semelhante, por momentos a tua guia esteve na minha mão.
Obrigado, Rui. Mas ainda bem que não embarcaste: nenhuma guia no mundo é de confiança.