TIROS AOS PÁSSAROS
O inferno não tinha que ser, afinal, um buraco em chamas, com corpos aos estalidos – ai Dante, Dante! Podia ser uma parada com uma bola de fogo suspensa a dez metros da cabeça de cem homens semi-nus, de peitos cruzados por fitas de balas e com cinturas de granadas, acabados de sair da selva, surdos e cheios de arranhões por uma ideiazinha de pátria. – Cem homens, menos um pássaro!
– FORMEM! – Mas a turba, ora, ora!
– A gente tem é fome, ó periquito! Deixa-te de merdas! – “Periquito” era o nome dado aos pássaros caídos do céu, verdinhos e de listas castanhas, tenrinhos e de penas passadas a ferro, que ainda não sabiam onde tinham pousado.
Mas era hora de almoço no inferno – massa guisada –, o que decidiu a coisa; ainda que ao preço de uma porta escavacada, duas mesas viradas, um pronto atropelado e uma gamela entornada.
– Bom dia, Moçambique! Piu!
(Notinhas de uma guerra engolida)

Engolida ou ainda atravessada na garganta, Fernando? Duvido muito de que alguma vez se consiga fazer a digestão completa de muito do que por lá se passou… e eu não devo saber da missa a metade.
Preciosos retalhos, estes. Apesar de tudo, acredito que essa massa guisada tenha sabido a lagosta! (suada, claro…)
Não passei mal, Ana. Fui já dos últimos. Mas vi e ouvi demais. Verás mais lá para a frente.
Piu? Maçarico? Talvez ‘massarico’: também passei por muita massa, muito esparguete cozido e branquinho rematado com marmelada, que eram todo o abastecimento durante tempo a mais. Mas isso foi o mal menor.
Lá mais adiante também falarei dos menus. Vai-te levantando da mesa…