Convidado: HELDER ROBALO


Pedro Correia,

 

Um povo de mansos

 

“É preciso mudar isto, já não se aguenta.” A frase, com mais ou menos variação, corre de boca em boca com frequência. Emocionamo-nos com os Deolinda e aplaudimos de pé Ana Bacalhau enquanto entoa “que mundo tão parvo que para ser escravo é preciso estudar”. Saímos do Coliseu e, pela rua fora, comentamos para o lado que “os gajos estão cheios de razão”, que “isto era preciso outro 25 de Abril”.

Ligamos a televisão e procuramos avidamente as notícias da revolução no Egipto, o povo na rua a exigir a mudança e, invejosos, logo disparamos que “era preciso algo assim mas era cá”.

E, distraídos com os incêndios na Rússia, as cheias na Austrália, a revolução na Tunísia ou o ataque terrorista em Estocolmo, deixamos que o Governo nos vá ao bolso e nos tire ao salário mais dois pontos percentuais para pagar o IVA. Entretidos com a constante gatunagem da malta das gasolineiras, vamos dando graças aos sócrates por impedirem que o FMI entre por aí dentro e mande na nossa vida. Enquanto festejamos as goleadas às espanhas, patrões e governantes, sentados à mesma mesa, vão combinando como tirar mais um pouco do salário aos trabalhadores e até como os obrigar a subsidiar a sua própria indemnização. Mas com limites que isto está mal para as empresas e elas não podem andar aqui a dar indemnizações chorudas a esses malandros que só se preocupam com o tacho deles. “Vais para o desemprego aos 45 e agora, se quiseres trabalhar amanha-te, que ainda não tens idade para a reforma.”

Embalados pelos jornais e televisões com os crimes cometidos pelos renatos desta vida e pelas tricas e intrigas dos partidos à esquerda e à direita, nem reparamos que, nos intervalos, os proenças deste Portugal deram o seu aval para que os trabalhadores deixem mais de metade do seu salário nos recibos que têm a cor que devia ser de esperança.

E, no meio disto tudo, distraídos pelos bancos que não fecharam e deviam fechar, continuamos a reclamar que nos estão a ir ao bolso e que era preciso era o povo vir para a rua outra vez. Mesmo que, quando ele sai à rua, os olhemos de lado e digamos que são “uma cambada de malandros que não querem trabalhar”. 

No meio disto tudo, na verdade, continuamos a reclamar por um novo levantamento de Abril. De preferência com os capitães a darem a cara por nós outra vez. Queremos a revolução na rua, sonhamos com uma mudança de vida, mas aceitamos de bom grado o salário de 400 euros a troco de doze horas de trabalho e, no final, ainda damos graças porque temos trabalho e há muitos que até o faziam de borla.

Afinal, ambicionamos por um futuro melhor e nem reparamos, ou fingimos não reparar, que nos estão a roubar o presente. Aplaudimos o aumento da escolaridade, lamentamos a subida do preço da gasolina e fingimos não reparar que a cada ano ganhamos menos. 

Queremos uma revolução, mas esquecemos que ela tem de começar em cada um de nós, que não podemos ficar à espera que outros a façam. Os outros que a façam que eu agora não posso.

Cantem os Deolinda odes ao “mundo parvo onde para se ser escravo é preciso estudar”. Povo de doutores. E de engenheiros. Povo de mansos que tem medo de lutar.

 

Helder Robalo

9 comentários em “Convidado: HELDER ROBALO”

  1. Hélder, este é um dos problemas dos portugueses, têm muita garganta, mas gestos nem um. Ainda hoje de manhã, no metro, uma senhora estava a sentir-se mal, quase a desmaiar e, ainda por cima, estava com a filha pequena. A carruagem ia cheia, mas, de onde estava, conseguia perceber o que se estava a passar. Nem uma única pessoa perguntou à senhora se precisava de ajuda, ou deram-lhe espaço, ou disponibilizaram um lugar sentado para recuperar. Nada. E aposto que a maioria das pessoas à sua volta, que olhavam para ela sem nada dizer ou fazer, estavam a pensar que ninguém dizia ou fazia nada…
    Outro exemplo, paradigmático. Falamos mal dos políticos, dos nossos governantes, deputados, etc. Mas votamos neles. Sócrates, Cavaco, Isaltino (‘and so on’…) continuam a vencer eleições. Apesar de ‘tudo’. Somos assim. Um povo de pobre espírito, que tem tido os governantes que merece.
    Um abraço (e outro ao Pedro por se ter lembrado do Hélder).

  2. Triste verdade, da qual me lamento diariamente. Mas não consigo passar do lamento à acção, não vejo como. Mas estou disposta a embarcar numa onda de mudança, estendam-me o braço que eu agarro-o decidida!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *