Comissão de Serviço – XXII


modosdever,

O BLUFF

 

Todos de acordo, decidimos ir jogar cartas para a prisão militar.

No recinto, do qual R. era nessa semana o oficial de serviço, conviviam tipos com azar, outros com menos azar e por fim gente que se habituara a viver sem nada a perder.

Suspenso o recolher obrigatório para uma noitada de póker, debaixo de um telheiro onde um dos condenados pintara a Última Ceia, com um dos apóstolos com o braço cheio de relógios, ganhos às cartas, a coisa correu bem durante um par de horas.

O problema foi que às onze da noite os nossos companheiros se recusaram a regressar  às celas, faltando ao acordo que tínhamos feito.

Nampula estava quente e o céu estrelado. 

Da parte de fora, os guardas juntaram-se e foram buscar as armas. Pediram a R. que os deixasse entrar, o que ele recusou afirmando que resolveria o tumulto.

Num pequeno diálogo com os chefes do que não chegou a ser um motim, o problema foi sanado ao fim de poucos minutos sob a ameaça de que não voltaria a haver nem mais noitadas nem mais póker.

Ainda hoje estou para saber se ganhámos ou perdemos esse último jogo, pois nunca mais houve soirées nem cartas.

 

(Notinhas de uma guerra engolida)

4 comentários em “Comissão de Serviço – XXII”

      1. ….Mas era mais previsível ganhar às cartas do que aos aerogramas.”
        Não sei se gostei mais do post, se desta sua resposta ao comentário.
        Pensando melhor: gostei de ambas as duas como diz o outro.
        Rosa Maria
        (sua contemporânea em Nampula, que nas noites quentes e de céu estrelado fazia soirées de monopólio; cada um com seu ópio …..).

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