É só uma teoria, mas cá vai.
Um partido com vocação executiva tem apoiantes de vários tipos. O “hardcore” é aquele cujos interesses materiais (trabalho, acesso a negócios) dependem do partido. O “softcore” é o que se motiva por causas, como a despenalização do aborto ou o casamento entre homossexuais. O “missionário”, tradicionalista, é o que vota em quem sempre votou e encara o partido como uma extensão do clube, da família e do contexto local ou regional. Os três grupos têm em comum a fidelidade e o acriticismo: os “nossos” são bons, mesmo que façam mal, e os “outros” são maus, mesmo que façam bem.
O problema é que uma parte importante dos cidadãos que elevam um partido ao Governo não pertence a qualquer destes tipos. A sua avaliação dos partidos é casuística, independente do interesse próprio, e o seu apoio segue a lei da utilidade marginal: mais do mesmo dá-lhes cada vez menos prazer.
Pior, concentram as antipatias em “casos” e “figuras”. Alguns, como eu, são extremamente sensíveis aos indícios de corrupção. Outros rejeitam a arrogância, o controlo, o desleixo e a iniquidade. Em suma, não são fiéis.
A minha tese é que os grandes partidos deviam estar muito atentos a estes eleitores. Porque enquanto Armando Vara, Paulo Campos e Ricardo Rodrigues (no PS) ou Miguel Relvas (no PSD) tiverem rédea solta para exibirem a sua cupidez e impunidade, o desgaste das estruturas será mais rápido do que imaginam as elites que as dirigem.
E isto até um apoiante “hardcore” devia perceber.

Tem toda a razão: os eleitores que mudam de partido, consoante o(s) seu(s) interesse(s) ou não, quer seja pelas razões que evocou – “indícios de corrupção”, ou pela arrogância, o controlo, o desleixo ou a iniquidade -, são eles quem mais manda, quem detém o poder de mudar governos.
Para algumas pessoas pode parecer” injusto”, uma vez que são eleitores pouco fiéis, mas é assim mesmo. Senão repare-se: quando um eleitor muda de partido, a diferença de votos entre o partido em que ele votava e o partido onde ele decidiu votar, não representa apenas um voto, mas sim dois votos. Aqui vai um exemplo: se, por hipótese, a eleição fosse apenas entre dois partidos e cada um deles tivesse recolhido 50% dos votos e, portanto, empatado, a simples mudança de um eleitor elevaria a diferença para 2%, assim: antes, 50%/50% – diferença 0%; depois, 49%/51%, diferença 2%.
Em conclusão, os votos das pessoas que mudam de partido, valem a dobrar!
Não esqueça que alguns votos vão para a abstenção.
Um excelente resumo sobre a democracia enquanto um sistema divertido que só precisa de uns pequenos ajustamentos. Hélas!… E gostei tanto mais quanto alguns pensadores, assustados com o crescente desinteresse dos eleitores, estudam o voto obrigatório como forma desesperada de legitimação da paródia. Um abraço.
Julgo que o voto obrigatório no nosso contexto se calhar favoreceria os extremos Fernando- o que torna a coisa ainda mais divertida.
Se for como dizes, então voltarei a votar… Para casino, isto anda pouco animado, Luís.
Sobretudo desde que se rompeu o contrato social perverso que vigorava entre muitos eleitores e o Centrão: os eleitores faziam vista grossa à grande corrupção, à impunidade e ao amiguismo, o Centrão fazia vista grossa à pequena corrupção e distribuía a esmo algumas pequenas benesses. Ou comem todos, ou há moralidade; com a troika a proibir que comam todos, e a aliar-se do mesmo passo aos que sempre comeram mais, não será de admirar que os eleitores portugueses se tornem de repente moralistas. Como os gregos: fiat justitia et pereat mundus.
Inteligente texto, meu caro Luis!
Obrigado, Helena.
Tem o seu nervo a tua teoria, sim senhor. E a conclusão mais ainda (incontestável).
Mas precisas de trabalhar mais empiricamente os dados, pelo menos quanto ao segundo e terceiro grupos: acho a tua hipótese de trabalho redutora…
Porque se a afiliação é “só” por detalhes ideológicos (pequenas grandes causas);
Ou se é uma afiliação “só” afectiva e quase tribal;
Isso não retira necessariamente criticismo aos sujeitos.
Tudo depende de ‘quanto’ e ‘como’ se valoriza a identidade ideológica; e o mesmo para a identidade afectiva.
Esses ditos segmentos não são acerebrados nem desconhecem tanto assim a ideia de oportunidade. Ao contrário do primeiro grupo, podem baldar-se quando o grande prémio está a chegar… Simples: não dependem dele para nada.
Pega no caso do partido como extensão da família, etc, etc. Pois tudo depende da ideia e da praxis de família que os ‘afiliados’ tenham. Podem vir de uma em que, por exemplo, a traição não tenha desculpa…
Tens razão, claro. O texto está muito em bruto, mas essa é a grande vantagem de escrever na bloga.
Fiquei inicialmente ambivalente face à qualidade do post e a qualidade dos comentários que suscitou…
Ambos de excelente qualidade sem dúvida…
Que sóbrio espaço de debate,parabéns.
Youre welcome.
Plágio é crime…
“It is difficult to get a man to understand something when his job depends on not understanding it.”
Upton Sinclair
US novelist & socialist politician (1878 – 1968)