Em jeito de abraço


modosdever,

Era culto sem espalhafato, ladino e mordaz, e, a par disso, um ser leal e atento e um homem sem vergonha da doçura. Daí termos ficado cúmplices sem saber de quê. A sua ironia às vezes incomodava-me mas o seu humor repunha a qualidade das tantas conversas que tivemos, olhos nos olhos, dos Açores a Gaia, que era como gostava de olhar para o mundo e as pessoas. Ofereceu-me das melhores gargalhadas que já dei quando, uma vez, a meio da doença, o acompanhei a mudar um penso, e, à pergunta da recepcionista da clínica sobre o nome, respondeu prontamente e com o ar mais sério do mundo: “Júlio Machado Vaz.” Não me aguentei. “É que às vezes nos confundem.” E ele a seguir, que também gostava de rir, gargalhou também. Gostava de falar, mas ouvia como vivia: com a alma toda. Firme nos seus motivos, sabia ainda perder – “Touché”. Ele era assim, o João, um amigo cheio, de quem me recuso a despedir. Até porque tínhamos combinado, há poucas semanas, um café para um dia destes…

5 comentários em “Em jeito de abraço”

  1. Os meus mais sentidos pêsames. Não somos muito na vida, mas custa separarmo-nos dum amigo assim, sem mais nem menos, quando a morte se lembra sempre que é ela a mandar e não nós. Abomino essa senhora mas um dia terei de a ver e cara a cara dir-lho-ei, mesmo que o resultado seja nulo para o meu lado. O meu abraço. Com sentida mágoa pela sua perda e pela de todos que aqui contavam com a colaboração e amizade do homem bom tenho a certeza, que hoje se perdeu. Desculpe se me excedi. Obrigado.

  2. Pena que, procurando textos seus neste blog, encontre este.
    Bonito o texto, pese embora não saber de quem se trate, além de ser um amigo seu. Ficamos sempre mais pobres.
    Rosa Maria

    1. Pena minha, desde logo, por ter tido de o escrever, RM. O João Carvalho era um dos colaboradores aqui do DO e um amigo para quem os meus abraços nunca foram suficientemente fortes. Enfim, sobraram-se os dedos… Obrigado, RM.

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