Há notícias perturbadoras


Ana Lima,

Esta é uma delas. E não é pela eutanásia em si, com a qual tendo a concordar, mas pelo facto de se admitir que uma situação que só acontecerá no futuro é motivo suficiente para alguém se encontrar, já hoje, num estado de “sofrimento insuportável” e agir, conscientemente, no sentido de acabar com esse sofrimento que ainda não se materializou. Não falando no lado mais poético da questão (se é que se pode utilizar a palavra poético neste caso), associado às razões invocadas: a impossibilidade futura de comunicar com aqueles que lhes eram mais queridos; fica-nos uma sensação estranha, que é a de assistirmos a uma espécie de eutanásia preventiva, susceptível de ser questionada a fundo. Se Marc e Eddy estavam felizes com a perspectiva de morrer porque não gozaram mais algum tempo essa perspectiva? E porque não foram eles a escolher o dia em que morreriam? Será que se escolhessem um domingo não iria ser possível por causa dos dias e horários de funcionamento do serviço onde se ministra a injecção letal? Não sei, tudo isto é tão estranho…

31 comentários em “Há notícias perturbadoras”

  1. Eu não acho a notícia nada perturbadora. O que acho perturbador é que haja quem a ache perturbadora.
    Duas pessoas adultas, conscientes e, tanto quanto parece, sensatas pretendem morrer. Não interessa por que motivos, pretendem morrer. De forma repetida, consciente e não perturbada exprimem esse desejo. A medicina, como é sua obrigação, ajuda-as a seguir esse caminho.
    O que é que isto tem de perturbador? Nada. Cada um tem a liberdade de dispôr da sua vida e da sua morte.

      1. Nada foi imposto a nenhuma instituição de saúde, neste caso. Segundo se lê na notícia, houve um hospital que recusou efetuar a eutanásia. Outro hospital aceitou fazê-la. Portanto, não houve imposição.
        Porém, eu creio que os hospitais servem para ajudar as pessoas, ou seja, para realizar as suas vontades. Os hospitais devem ser regulados (pelo Estado) no sentido de cumprirem as vontades dos clientes. Da mesma forma que outros estabelecimentos são regulados nesse mesmo sentido.

        1. Pedir para morrer não é um mero serviço de guichet, é pôr fim áquilo que um ser tem de mais importante. O Juramento de Hipócrates já se tornou definitivamente dispensável?

          1. O Juramento de Hipócrates já se tornou definitivamente dispensável?

            Já. Trata-se de um anacronismo provindo de tempos muito remotos. Não percebo como se continua a exigir tal coisa.

        2. Quem falou nessa obrigação foi o Luís. E o Luís parece confundir liberdades com direitos. Ninguém pode obrigar o médico a fazer algo que ele não pretende fazer.
          Se o Luís quiser ser, por razões estéticas, amputados de ambos os braços, o médico não é obrigado a fazer-lhe a vontade.

          1. Ninguém pode obrigar o médico a fazer algo que ele não pretende fazer.

            O médico individualmente considerado não, o hospital talvez também não. Porém, o Estado tem que assegurar que os direitos são efetivados através da existência de alguns médicos, nalguns hospitais, que estejam dispostos a fazer as coisas. Nem que seja preciso para isso exigir à partida aos candidatos a cursos de medicina (que são financiados pelo Estado) que declarem que não fazem objeção de consciência a certas práticas.

        3. A questão não seria tanto ofensa à instituição pública – com o respeitinho pressuroso pelas ditas não destoaria no Portugal do Prof. Salazar mas a utilização da medicina – que deve curar – para morrer.
          O problema , no entanto, – remete-nos para questões que não são tratadas e que teriam interesse para a compreensão da situação (desde a dependência, que parece excessiva – uma espécie de autismo a dois – dos irmãos à ausência de outros métodos de comunicação -), o problema, dizia-se, radica mais fundo, na rejeição do sofrimento e das limitações humanas como parte da vida (e, por vezes da sua heróica superação, como no caso de Hellen Keller – um processo “desinteressante”, hoje em dia) – e no culto desta cultura da morte que parece invadir o hemisfério norte, tomado pelos gosto macabro politicamente correcto.

          1. a utilização da medicina – que deve curar – para morrer

            Não concordo com essa restrição que você coloca à utilização da medicina, dizer que ela “deve curar”.
            De qualquer forma, aqui não está em causa o uso da medicina. Qualquer farmacêutico é capaz de conceber uma mistela injetável que mata um homem, e qualquer enfermeiro é capaz de a injetar na veia do homem. Não é precisa medicina para nada.

        4. Quem falou nessa obrigação foi o Luís. E o Luís parece confundir liberdades com direitos. Ninguém pode obrigar o médico a fazer algo que ele não pretende fazer.
          Se o Luís quiser ser, por razões estéticas, amputado de ambos os braços, o médico não é obrigado a fazer-lhe a vontade.

  2. Há conversas mesmo parvas:
    “Se eu estou todo contente com a perspectiva de ir comer um bom almoço, para que é que eu vou almoçar e acabo assim com a enorme alegria dessa perspectiva?”
    E porque é que eu hei-de comer aquilo e não outra coisa?
    Enfim…
    Aqui o que se trata é de respeito pela vida, pela dor, pela dignidade dos outros.
    Se estivesse “caladinha” em vez de botar filosofia, revelaria mais dignidade. Não acredita? Experimente!

    1. Mas que raio de comentário é este? Onde é que lê neste post desrespeito pela vida, pela dor ou dignidade dos outros? Desrespeito há e muito, mas da sua parte, na forma como se dirige à autora do post. Além disso, para fazer comparações patetas como aquela com que começa o seu comentário, mais valia estar “caladinha”… para usar a sua expressão.

      1. A menina Ana Vidal, antes de escrever deveria prestar mais atenção “ao ler”.
        Não percebeu as comparações. Eu tento explicar:
        Este meu parágrafo:
        “Se eu estou todo contente com a perspectiva de ir comer um bom almoço, para que é que eu vou almoçar e acabo assim com a enorme alegria dessa perspectiva?”
        Reporta-se a este:
        “Se Marc e Eddy estavam felizes com a perspectiva de morrer porque não gozaram mais algum tempo essa perspectiva?”
        Se não consegue perceber isso, também estará muito longe de poder entender que o que está aqui em causa é a dor de outros, a vida de outros e a dignidade de outros que ninguém tem o poder ou o direito de se constituir avaliador.
        E quando não entendemos, e sobre o que não entendemos, devemos reflectir e estudar, sempre numa atitude e num princípio de que a realidade do pensar e do sentir alheio pode sempre estar muito para além (ou basta um bocadinho ao lado) da nossa possibilidade de entendimento.
        A modéstia intelectual leva sempre a mais vontade de aprender e a mais respeito pelo outro. Em contrapartida, a arrogância ignorante (eu sei que é pleonasmo) tende sempre para a uma certa segurança estúpida, a dar para o prepotente. E o resultado é normalmente poluição em posts.
        Mais vale, portanto, estarem caladinhas.

        1. Pois fique então a saber, “menina” Alice Samora, que só aprovei este seu comentário para dizer-lhe que raramente tenho visto a arrogância ignorante e a segurança estúpida tão bem representadas como agora, por si. O que equivale a dizer, caso não tenha ainda percebido, que nenhum outro comentário seu será publicado se insistir nesse tom. Porquê? Mera higiene ambiental, temos de velar pela poluição nas nossas caixas de comentários.

          1. Quando não se tem “capacidade de encaixe” e se procura “velar pela poluição”, então o melhor mesmo é fechar as caixas de comentários a outras opiniões.
            Ou então, melhor ainda: aceitar todas as opiniões, mas só na condição de serem iguais ou dizerem bem das nossas.
            Isso é que é!

          2. Não deve vir cá muito, suspeito. Se viesse, saberia que todas as opiniões são respeitadas aqui. O que não toleramos é faltas de educação.
            E agora… 3…2…1…0. Pronto, acabou-se-me a paciência para si.

  3. Este texto converteu-se para mim, num dilema deveras complicado: se por um lado, tendo em conta a minha profunda assunção religiosa, não posso concordar, por outro aceito que este acto foi um gesto de grande coragem e discernimento.
    Acredito que a vida é uma bênção. Eu que convivi muito de perto com um amigo com esclerose múltipla, curiosamente senti neste doente uma vontade férrea de viver mais um minuto, uma hora, um dia. Mas vê-lo definhar dia a dia tornou-se um sofrimento atroz para quem com ele vivia e convivia.
    Enfrentar a morte assim de frente como estes irmãos belgas o fizeram, exige que se esteja bem com o mundo e essencialmente consigo próprio.

  4. Não acho nada perturbador.
    Os gémeos era felizes, apesar da surdez. Comunicavam e eram independentes. Ao serem informados de que ficariam cegos, ficaram a saber que estavam condenados a viver numa instituição ou dependentes da boa vontade de alguém. Decidiram morrer. Tomaram uma decisão enquanto cidadãos conscientes. Gostaria de viver sem comunicar com os que lhe são queridos? Gostaria de depender dos outros para viver com o mínimo de dignidade?
    Seria uma violência obrigar estes irmãos a viver, contra a sua vontade.
    Isto não é perturbador, isto é decidir em consciência.

    1. Todos dependemos sempre uns dos outros. Às vezes temos mais consciêncis disso, outras menos.
      E numa sociedade que se pensa como o cume da humanidade e num país organizado, não se depende na boa vontade de alguém, com o que essa expressão poderá comportar de arbitrário.

      1. Bom dia dfg.
        «Todos dependemos sempre uns dos outros. Às vezes temos mais consciêncis disso, outras menos.»
        Precisamos uns dos outros para viver em sociedade. Concordo com a tese de que somos um todo e não apenas a soma das unidades.
        Mas eu, apesar de estar integrada numa sociedade, não dependo de ninguém para comer nem para me lavar. Consigo tratar de mim, ao contrário dos gémeos caso não tivessem escolhido morrer.

  5. Como tu, tendo a concordar com a eutanásia. É um direito que reconheço a quem não quer viver em condições duras que não escolheu, e que opta lúcida e livremente pela morte, como solução. Percebo o que te perturba: o porquê da antecipação, ainda mais quando não há sequer um sofrimento físico insuportável. Só estes gémeos poderiam responder a isso, nós não estamos na pele deles.
    Mas o que verdadeiramente me perturba é o último parágrafo da notícia: “Após a morte dos gémeos, os socialistas belgas apresentaram uma emenda à lei da eutanásia. Se for aprovada, a morte assistida poderá ser pedida por menores, “que tenham capacidade de discernimento” para tomar essa decisão”.

  6. O direito a alguém acabar com a própria vida desde que em consciência é natural, o problema são as pressões de alguém fragilizado e as “slippery slopes”.

    E que tal divertimento no Fim em vez de num horrível quarto de um hospital? Qual a justificação para não
    poder existir?:
    http://en.wikipedia.org/wiki/Euthanasia_Coaster

    E um muito interessante artigo sobre mudanças nos impostos e como afecta a vida e a morte : http://www.bloomberg.com/news/2012-04-10/death-and-taxes-collide-as-fatal-crashes-mount-on-irs-filing-day.html

  7. Temo que a eutanásia abra portas perigosas. Nenhum dos gémeos, por aquilo que me foi dado perceber, vivia uma existência de “sofrimento insuportável”. Decidiram por termo à vida porque tinham a noção de que iriam viver em condições que consideravam insuportáveis. Não sei quando iria isso acontecer e se a medicina (que evolui todos os dias) não poderia ter uma palavra a dizer.
    Como católico, acredito firmemente que a nossa vida não é nossa. Isto é, foi-nos dada para a pormos ao serviço dos outros e, mesmo que as circunstâncias não permitam esse serviço “prático”, há sempre o serviço “afectivo”, porque talvez haja gente que depende de nós sentimentalmente, a quem o nosso desaparecimento abre feridas profundas. Pelo que sei, os pais dos gémeos não concordaram e esta decisão, estou certo, será difícil de sarar.
    Se percebo a decisão deles? Humanamente ser-me-ia difícil não perceber… Agora concordar…

    1. João, viver abre portas perigosas…
      Concordo com a existência da eutanásia, mas desde que nenhum médico seja obrigado a praticá-la contra a sua vontade e as suas convicções.
      Este é um dos dilemas das sociedades hiper-civilizadas, não é fácil lidar com eles mas têm de ser enfrentados e legislados com a maior justiça que for possível.

      Gosto muito de vê-lo por cá.

  8. o direito à eutanásia eu tenho , mas suja muito . assim é mais asseado . é que dar um tiro na cabeça deve fazer uma porcaria …e o que os entes queridos têm que limpar ? e a imagem que fica para sempre ?
    por isso a eutanásia deve ser bem recebida . é um direito que nos assiste a todos (acho eu , claro )

  9. Sou leitora assídua do Delito, mas nunca costumo comentar. Faço-o agora porque também achei este texto extremamente perturbador. Além do mais, colocou-se-me desde logo uma questão: se ambos queriam morrer, porque é que não se suicidaram, em lugar de colocarem em terceiros a responsabilidade pela sua morte? Porque é que não viveram, felizes como a notícia diz que eram, até ao dia em que, com a cegueira mesmo a chegar, se matariam em conjunto?

    1. Boa pergunta, Zu, muito pertinente. Talvez a resposta esteja na fragilidade humana, que precisa de apoio mesmo para as decisões mais solitárias, mesmo que aparentemente firmes e lúcidas. Mas é só uma suposição minha, claro.

  10. É barato. Daqui a uns anos irão pensar em aplicar o mesmo tratamento a todos os idosos que precisem da ajuda de terceiros. Aliás até se poupa nos antidepressivos.
    É certo que a Hellen Keller não parece ter precisado de nada disso.
    Uma coisa só não percebo, se eles queriam morrer e não tinham problemas nas mãos nem nos pés porque não se mataram eles próprios? Se se atirassem de uma falésia de 100 metros não sobreviviam. Talvez porque no momento de se matarem afinal a vontade de viver mais uns tempos falasse mais alto. Como pode ser aplicada a eutanásia a quem tem capacidade de se suicidar se tiver mesmo decidido a morrer?

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