Temos que pagar. Temos que cortar. Temos que compreender. Temos que trabalhar. Temos que ver, ouvir e calar. Temos que deixar. Temos que emagrecer. Temos que ceder. Temos que vergar. Temos que obedecer. Temos que aguentar. Temos que nos resignar. Temos que rezar. Temos que fazer filinhas de gente caladinha, calminha, enfiadinha, disciplinadinha, de nariz no chão. Temos… Temos… Temos…
Temos?
modosdever,

Ter… não temos de coisa nenhuma. O problema é que por vezes e, quando teimamos em não ter, a coisa caiu-nos em cima e esmaga-nos os sonhos. Ainda que ache que o facto de andarmos de cabeça baixa, seja uma espécie de andar com os sonhos esmagados.
Viver de cabeça levantada foi sempre um risco, Maria.
“Temos de fazer filinhas de gente caladinha” etecetra coisa e tal… Está-se a referir a países como o dos camaradas da Coreia do Norte? Só Pode. Puseram Portugal de pantanas, de tanga, na bancarrota, nas mãos dos credores externos, sobretudo no reinado do Senhor Sócrates, o tal do “Porreiro, pá!”, e agora, afinal, querem o quê!? Que montes de demagogia, senhores!
Não temos de andar em filinhas de gente caladinha em lado nenhum, aqui ou na Coreia do Norte.
“Não temos de … em lado nenhum, ….”
Caro Ferando Sousa, junte mais esta à sua listagem.
Quando, cá em casa, o seu homónimo acha que não nos podemos esquecer de alguma coisa (maneira elegante de me mandar fazer a mim), diz: – “Tem que se ….”, e, de imediato, ainda ele não acabou de dizer o quê e já eu estou a interromper, assobiando com um sorriso: ” quesse quesse”.
Resumindo, na Coreia do Norte como em casa, mas num sítio como noutro acho que tambem é uma questão de ADN, e o meu pelos vistos, às vezes, será um bocadinho retorcido.
Se acha que não dá para integrar a sua lista, “delete”
Um bom resto de Domingo para si.
Rosa Maria
Dá para integrar a lista, sim, Rosa Maria. Não temos nada em lado nenhum. Nem em Portugal nem na Coreia do Norte, nem na rua nem em casa. Só temos de aquilo que resulta de um contrato, social ou outro. Não se preocupe com o seu ADN.
Não Temo.
Pois nem eu.
Temos de.
Tem razão. A revolta às vezes também cega a gramática.
Mas concordo consigo. O nível e o número de conselhos paternalistas que nos são é deveras irritante. Mas note-se que isso é feito por comentadores oficiais e oficiosos. O governo, e bem, manteve sempre o mesmo discurso. Não que aprecie, mas não vejo outras hipóteses (temos mesmo de…) tendo em conta o ponto a que chegámos. O que me assusta é que todo este esforço, na cabeça de muita gente, é para voltarmos ao mesmo estado em que estávamos antes de chegar aqui. Ou seja, na cabeça de muita gente, assim que ultrapassarmos isto, vamos voltar a cometer os mesmos erros e, provavelmente, isto vai tudo repetir-se e nunca mais saímos da cepa torta. Por isso é que eu digo: vejam lá se percebem que o socialismo é muito caro e não podemos ter um país com 50% de funcionários públicos. Temos de produzir mais riqueza directa, sem ser serviços. Temos de criar riqueza, por as mãos na massa e não nos papéis. Se não não dá e vamos ter sempre de ter de e ter de e ter de.
Não vou fora das suas razões de fundo, Vasco. O que me incomoda é que nos cortam em tudo e dão-nos ao mesmo tempo o discurso do conformismo. E há demasiada gente a morder o isco e a fazer seu também o discurso oficial da resignação. É este esvaziamento que me revolta.