Sim, houve pressões…


cadernoelastico,

 … mas não faz mal.

Lopes da Mota acordou um belo dia de manhã, e decidiu que não gostava da palavra Freeport. Primeiro, não é uma palavra portuguesa, e, depois, até é difícil de dizer, com aquele "t" pendurado no final. Assim, fez pressão sobre dois procuradores, para que a famigerada palavra desaparecesse do léxico processual. Não era por mais nada, a sua motivação era tão só a pureza da bela língua portuguesa. Teve algum sucesso, que esperamos ver confirmado no final do mês, com a conclusão do caso, e a erradicação da referida palavra do nosso quotidiano. A luta semântica vencerá.

A excelente diplomacia económica


cadernoelastico,

 Há uns dois anos almocei num simpático restaurante da Ilha de Luanda com um diplomata português. Antes de chegarmos à sobremesa já ele me dava conselhos: "Você só tem problemas porque fala de mais", assegurou-me. "Escreva os seus romances mas não ataque o regime. Não há necessidade." Depois disso tenho escutado conselhos semelhante vindos de editores, empresários e políticos portugueses.

 

José Eduardo Agualusa, a propósito da transição constitucional em Angola.

A-normalidade


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 Acabei de descobrir ao telefone, na linha de apoio técnico, que a Meo/PT considera "normal" que um cliente tenha uma banda larga de 8M no seu uso diário quando paga no contrato pelo menos 11M. O meu dia acabou de melhorar consideravelmente: ganhei uma desculpa para perder a minha "normal" polidez. Está tudo dentro da banda de a-normalidade.

O fim da ilusão


cadernoelastico,

Já é oficial: Angola aprovou a nova Constituição. Está, finalmente, consagrado em lei o sistema presidencialista, que permitirá a José Eduardo dos Santos eternizar-se no poder, como cabeça-de-lista do MPLA. As eleições foram fundidas, acumulando o Presidente os cargos de Chefe de Estado e de titular do poder executivo. 

Esta não é uma má notícia para as perspectivas da democracia em Angola; é, realmente, uma péssima notícia, que vem acabar com quaisquer réstias de multipartidarismo e concorrência democrática que pudessem existir. Com esta nova Constituição, acabaram os poucos limites que havia à consagração da ditadura em Angola; o texto fundamental hoje aprovado vem cristalizar este fim da ilusão.

Aprender a escrever


cadernoelastico,

 O Conselho Superior de Magistratura foi hoje ouvido sobre a proposta de lei para o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Basicamente, desfizeram a lei. Está mal escrita, tem imprecisões, é ambígua, cria mais problemas de discriminação, e é muito provavelmente inconstitucional. Estão os senhores deputados de parabéns, portanto. Entre tantos assessores (e tantos deputados advogados, diga-se), não conseguiram encontrar um único que revisse o texto, de um ponto de vista legal.

 

Ora, isto não é novidade nenhuma. Se perguntarem a um juiz qual é o enquadramento legal da droga (e esta é só a principal causa de prisão em Portugal), ele provavelmente revirará os olhos e dirá que não quer falar sobre esse caos. Não sabe, nem quer saber, tal é o emaranhado legal, por incompetência do legislador.

 

Temos muitos problemas em Portugal, mas este é um deles. Temos más leis, o que é mau em si mesmo, mas temos muitas más leis, num fenómeno de inflação legislativa que poucos países entenderiam. Por outro lado, temos uma justiça lenta, lentíssima, de maneira que uma lei contraditória como a da droga pode vigorar durante oito anos até finalmente chegar ao Supremo Tribunal, para este descobrir que raio queriam os deputados com aquele articulado. O que, diga-se, causa um novo problema, com a possibilidade da linha ténue de separação dos poderes se apagar de vez.

 

Posto isto, há que enfrentar o problema. Podemos até admitir que os deputados não conseguem fazer melhor; nesse caso, reveja-se o orçamento do parlamento para assessoria jurídica. Até prefiro que seja esta hipótese a verdadeira; parece-me bem mais difícil obrigar deputados a trabalhar decentemente, de acordo com o cargo que ocupam.

Blogue da semana


cadernoelastico,

Esta semana, escolho um blogue para nos deixar mal-dispostos. Há pouco mais de dois anos que vivo em Lisboa; ao longo deste tempo, tive tempo para ver uma cidade suja, pouco amada e escassamente habitada. São os passeios escorregadios, repletos de pedras levantadas, detritos animais, lixo e automóveis. São as ruas com buracos a ameaçar os incautos automobilistas, ladeadas por casas grafitadas e frequentemente entaipadas, a denunciar o abandono dos moradores para paragens mais arejadas. São os parques aos quais são arrancadas as árvores, sem uma explicação que nos sirva. São os negócios estranhos de milhões, a revelar uma falta de respeito por eleitores e habitantes.

 

Escolhi o Lisboa S.O.S., mas imagino que haja gente com as mesmas indignações por todas essas cidades fora. O problema não é só da capital, é do país. Desculpem o azedume, mas com esta chuva nem há luz que safe as nossas cidades.

Surpreendente


cadernoelastico,

 Nos jornais de hoje, leio com espanto que vão ser limitados os anúncios referentes a produtos alimentares com excesso de sal, açúcar e gorduras. Porquê? Obesidade infantil. Aparentemente, as crianças vêem os anúncios, querem consumir os produtos, e tornam-se obesas. É este o raciocínio, uma causa-efeito bastante simples. E, no entanto, isto é perfeitamente absurdo. 

Vamos lá a ver uma coisa: então não são os pais a comprar comida, a decidir o que compram e o que as crianças comem? Em toda a minha vida, devo ter comido uns dois Bollycao. Os meus pais não compravam, e não me davam autorização para comer. Simples: eram eles que mandavam, e eu, criança, obedecia. Sei que em muitas escolas de hoje os miúdos nem têm dinheiro. Há uns cartões tipo multibanco, que os pais carregam com dinheiro, e que têm a informação relativa ao que lhes é permitido comprar. A responsabilidade é dos pais. Não os podemos demitir dessa função. Dizer não é difícil, dá origem a intermináveis birras e sessões de berros. Mas é nesse não que reside toda a esperança de um adulto bem formado. Pais, imponham-se.

 

Comentário ao André


cadernoelastico,

Fiquei um bocadinho perplexa com este teu post, André. O problema deve ser meu: eu também não imagino como é que se vive com 450 euros por mês. Não sei como se paga uma casa, comida, transportes e tudo o mais com um ordenado desses. Para não pensar em filhos e escolas, doenças e apoio a idosos. E mais: acho vergonhoso que haja ordenados de 450 euros numa das economias mais desenvolvidas do mundo, pertencente a um clube muito especial de países. Houve qualquer coisa aqui que falhou; falhou, e continua a falhar, à medida que cada vez mais portugueses têm de tentar viver com 450 euros por mês. Isto não tem nada que ver com esquerda ou direita; felizmente, a indignação com a injustiça ainda é uma referência moral bem acima desse eixo tão redutor.

A memória


cadernoelastico,

 Na edição especial de Natal do Economist, um artigo belíssimo sobre a memória da Grande Guerra, agora que já não há sobreviventes das trincheiras:

 

 

OTHER wars have happened since. Some have taken millions of equally young and untried lives. Some have been fought in conditions—whether Russian snow, African jungle or Vietnamese swamp—that have been as trying and as terrible. Many, perhaps almost all, have been every bit as futile.

Momento de choque


cadernoelastico,

Estão quase a acabar os anos 00, sem que eu tenha aprendido a referir-me a eles em voz alta. A data de vencimento da minha carta de condução aproxima-se, e já não parece um futuro longínquo. A invenção da televisão de qualidade já leva dez anos (Sopranos, 24, Sete Palmos de Terra, House, por aí fora), e o James Cameron voltou a realizar filmes. Dez anos. Pois.

As pressas


cadernoelastico,

A blogosfera permite a reacção instantânea. Leio uma notícia, vejo um programa de televisão, e zás!, em vez de fazer um comentário apressado à minha reduzida assistência, escrevo um post de meia dúzia de linhas sobre o assunto. Todos dizemos disparates, nessas primeiras reacções infundadas e a quente. A coisa passa, porque não pensamos mais no assunto, ou porque a informação que depois obtemos nos leva à auto-correcção.

Agora mesmo, eu ia fazer precisamente o mesmo que o Miguel Marujo aqui fez, ao ler a notícia sobre alterações da Igreja Católica com respeito aos matrimónios. Ainda bem que não o fiz. Na verdade, ia escrever exactamente o que o Miguel escreveu, numa fúria que me dá com frequência, sem saber que a notícia foge, por assim dizer, um bom bocado à verdade. Os comentários ao post do Miguel explicam que, mais uma vez, a nossa comunicação social se entretém a tresler um documento da Igreja, induzindo os leitores em erro.

Isto é o nosso país


cadernoelastico,

Nós não somos um país. Somos uma coisa com muitos nomes, onde cabem extremos e mundos que nunca se tocam. Onde muita coisa correu mal, para chegarmos a este ponto.

 

Rita Mendes, de 19 anos, ainda não fixou o nome da escola do Lumiar, em Lisboa, onde começou este ano lectivo a frequentar o curso de Ciências Aeronáuticas. Mas na ponta da língua tem os nomes dos modelos das malas da Louis Vuitton que ela e a mãe hão-de receber este Natal, a mil e dois mil euros o exemplar, para depois emprestar uma à outra. O irmão não fica a perder: "Entre os jogos para a Playstation e um computador portátil novo leva sempre muitos presentes, para compensar as malas."

Que o diga Piedade Santos, 46 anos num rosto sem traços de maquilhagem a disfarçar a passagem dos anos. "Tenho muita pena, mas aos adultos é um beijinho, um abraço e pronto. Nem eles me dão nada a mim, nem eu lhes dou a eles"

Aos histéricos da irresponsabilidade radical


cadernoelastico,
Artigo 156.º

Poderes dos Deputados

 Constituem poderes dos Deputados:

a) Apresentar projectos de revisão constitucional;

b) Apresentar projectos de lei, de Regimento ou de resolução, designadamente de referendo, e propostas de deliberação e requerer o respectivo agendamento;

c) Participar e intervir nos debates parlamentares, nos termos do Regimento;

d) Fazer perguntas ao Governo sobre quaisquer actos deste ou da Administração Pública e obter resposta em prazo razoável, salvo o disposto na lei em matéria de segredo de Estado;

e) Requerer e obter do Governo ou dos órgãos de qualquer entidade pública os elementos, informações e publicações oficiais que considerem úteis para o exercício do seu mandato;

f) Requerer a constituição de comissões parlamentares de inquérito;

g) Os consignados no Regimento.

 

 

A vida depois da presidencialização é tramada. Obriga à responsabilidade, e a prestar contas. Tramadíssima, de facto. Em vez de ordenar o voto obedientíssimo dos grupos parlamentares relevantes, implica que se convençam os deputados da bondade da medida. Leva à negociação, e à defesa consciente de posições, para se chegar a um consenso. Em vez da verdade única, um jogo de cedências mútuas. Ora bolas.

Recomendação


cadernoelastico,

 

 

Na próxima terça-feira é lançado "História de Portugal", uma obra de peso coordenada por Rui Ramos. O responsável pelos capítulos relativos à época medieval é Bernardo de Vasconcelos e Sousa; para a época moderna, temos Nuno Gonçalo Monteiro. Rui Ramos apresenta-nos a época contemporânea. O jornal i disponibilizou aqui, em pré-publicação, o nono capítulo do livro.

 

(Disclamer: fui aluna do Prof. Rui Ramos, um verdadeiro mestre, e sou sua leitora ávida.)

Uma questão de azar


cadernoelastico,

 


 

 

And I would like to think, this is only a matter of chance.

 

José Sócrates vê-se rodeado de processos de corrupção. O seu nome aparece, consecutivamente, ligado a estranhos casos. Por coincidência, a sua família e amigos parecem condenados a irregularidades e trocas inexplicáveis de dinheiro. José Sócrates não tem nada a ver com estas confusões. Eu gostaria também de pensar que isto é tudo uma questão de azar.