Coisas minhas


cadernoelastico,

Não sei falar sobre mim. Nem gosto, aliás. Mas, ao segundo pedido, não há volta a dar. Assim, aqui vão seis coisas minhas, confirmadas (para horror deles) por família e amigos:

1. Não falem comigo de manhã. Se o fizerem, arriscam-se a levar com um tijolo de sistemas eleitorais mistos. E não, não interessa se já acordei há várias horas. Até ao almoço, o dia é passado em silêncio.

2. Tenho uma estranha forma de ler, dizem-me. "É sempre a pessoa que leu mais livros da sala.", dizem os meus amigos. 

3. Adoro conversar à mesa. Uma refeição não serve só o estômago.

4. Uma vez passada a má discussão matinal, sou uma pessoa sempre bem disposta. Até à manhã seguinte.

5. Se não estou a ler, estou a ver bons filmes. É uma mania.

6. Sou uma colónia de café. Motivo para ir ao supermercado? Café.

As coisas que esquecemos


cadernoelastico,

(sobre a morte de Ivan Cameron, filho do líder conservador inglês)

 

People frequently speak of the death of someone who is sick or disabled as a release. It’s more complicated than that. Someone who is confused or in pain can still feel the worth of life, and have moments of real joy. And even if their lives are a struggle, losing them is still shattering for those who love them. Our love for others, and our tenderness towards them, is not determined by whether they function just as we do.

Cenário


cadernoelastico,

Este é um cenário hipotético: Cavaco Silva chama Pinto Monteiro. Pergunta-lhe que há contra Sócrates, em concreto. Pinto Monteiro reconhece que há problemas graves. Cavaco Silva diz-lhe que avance com o processo, porque ninguém está acima da lei. Pinto Monteiro recusa, porque foi nomeado por Sócrates. Cavaco lembra-lhe que tem nas mãos a sua exoneração, e pode recusar o nome dele em futuras propostas. Pinto Monteiro cede, e avança com o processo, à luz dos dados já existentes sobre a participação de Sócrates em casos de corrupção e fuga ao fisco. A justiça ganha alguns pontos, depois de anos a perder legitimidade. O país consegue respirar um pouco melhor.

 

Exercício para o leitor: Por que razão este cenário não se concretiza?

Um país enforcado


cadernoelastico,

Acabei de ver uma hora de notícias. Ou seja, acabei de ver uma hora de um país destruído, mal-amado, sem saber para onde vai. Os povos podem ser governados pelos piores de entre si. Não há nada na cruz do voto que nos indique que aqueles nomes, naquela lista, são diferentes de nós, na nossa mesquinhez e mediocridade. Ladrões, aldrabões, banais, pouco inteligentes: tal como nós somos, também os nossos eleitos o serão. A nossa acção é in extremis limitada pela lei, quando não por uma ética pessoal; a acção dos governantes, essa, deveria estar limitada por instituições. Poderes que controlam o poder, é esta a característica mais fundamental dos regimes livres.

No nosso caso, parece estar tudo a saque. Não há instituição que escape à fúria controladora do Governo. As notícias massacram-nos com novidades sobre as possíveis falcatruas – ridículas, na sua pequenez de espírito, de mafarrico de bairro – do Primeiro Ministro. Não de um secretário de estado, não de um subalterno qualquer, mas do todo-poderoso Primeiro Ministro. Em tempos diferentes, tivemos uma Assembleia dissolvida, por muito menos. Afinal, esse é o poder máximo do Presidente, quando vê as instituições em crise. Hoje, temos o silêncio absoluto do Presidente da República, lá na sua torre de marfim. Nada sabemos das suas razões. Sabemos, porém, das razões dos outros possíveis contra-poderes. Que pode um Procurador fazer contra o Primeiro Ministro que o propôs? Pode o Procurador morder a mão de quem lhe deu o cargo que hoje ocupa? Dificilmente.

O Nevoeiro


cadernoelastico,

Há disparates, e disparates. Estamos habituados às loucuras de Mário Soares, e encolhemos os ombros, por sabermos de quem vem (o inverno dos fundadores é uma desculpa permanente); lemos (ou não) os desvarios de Boaventura Sousa Santos, e de novo encolhemos os ombros, por sabermos que o senhor tem uma imagem de marca a manter. Agora, há limites à tolerância.

Na Visão de hoje, Francisco Assis afirma: "Quando lá chegamos, percebemos o que o neoliberalismo fez àquelas sociedades. E quando perdemos os preconceitos na abordagem da realidade, compreendemos o que a distância não explica, mudamos a perspectiva e tendemos a aderir a algumas causas. Até em excesso". Pese embora a poesia do pensamento (até dá vontade de vestir a t-shirt de caxemira do Che), é confrangedor ler estas palavras. O neoliberalismo? A sério? E o senhor tem a certeza disso? E já agora, o que é exactamente esse cruel neoliberalismo de que fala? É que, se por neoliberalismo entendermos aquele palavrão que é a globalização, há um dado chatíssimo a ter em conta: é que, sem ela, a pobreza era ainda pior. Ah, e o poder internacional também: é também devido à globalização que assistimos a um reequilíbrio de poderes no mundo. O Brasil, a Índia ou a China têm hoje o peso relativo que têm devido a essa mesma globalização. Já chega de camuflarmos problemas políticos sérios com fantasias neomarxistas que nada resolvem. Podemos discutir os regimes sul-americanos, as suas elites, os seus sistemas eleitorais. Tudo bem. Não podemos é estar neste nevoeiro de perspectivas, que entorpece qualquer análise.

Da vulgaridade das sequelas


cadernoelastico,

 

Muito raramente, há filmes que excedem o romance que lhes deu origem. De uma história banal ou pouco trabalhada, resulta um clássico esmagador. E tudo o vento levou é o exemplo máximo. O romance de Margaret Mitchell é bom, mas não mais do que isso. A Scarlett O’Hara é a Vivien Leigh, não uma personagem mais plana, mais resignada. Melanie Wilkes é o rosto gasto e terno de Olivia de Havilland, e enche cada cena.

Voltando aos livros. Em tempos, li um livro chamado Scarlett. Quando ainda tinha tempo, costumava ter o mau hábito de não ser muito exigente com o que lia. O livro tinha uma capa escarlate com letras douradas, uma coisa muito pindérica. A gritar logo no seu mau gosto o conteúdo semi-pornográfico, de alcova de ar pesado. Nele, Scarlett era levada até às escarpas da Irlanda, onde se rebolava com rudes irlandeses, de mãos calosas a subir pelas suas brancas coxas. Era este o nível da coisa: a Scarlett de Tara, da terra e dos rábanos crus, vulgarizada, tornada presa da carne da maneira mais vulgar possível. Lembrei-me disto ao rever o filme, ontem à noite. A Scarlett escarlate é uma mulher, não uma camponesa rústica.

Blogue da semana


cadernoelastico,

O meu blogue da semana é irregular. Escreve pouco, e deixa séries de posts sem sequência durante semanas a fio, num desprendimento nada estudado. Se um texto estiver menos do que bom, não existe. Enquanto não estiver pronto, não saberemos novidades do agente de Nicósia ou de Ms. Novak. E esperamos, porque o autor sabe contar uma história. E isso é bem mais do que tantas outras coisas que lemos.

 

É o Circo da Lama, o blogue do Bruno Vieira.

Expliquem-me, por favor


cadernoelastico,

O i o ai, nós queremos é justiça

o i o ai, e dinheiro para o bife

o i o ai e não esta coboiada

em que é tudo do sherife

 

(Sérgio Godinho)

 

Quando o PGR diz coisas como esta, "em vez de andarem a escutar criadas de quarto, podiam ajudar-me a descobrir as violações do segredo de justiça", fico a pensar que somos mesmo um estado falhado, como o Henrique Raposo escreve hoje no Expresso. Há uma perversidade extrema neste regime, que em nome da Liberdade nos condenou à impunidade e abuso do poder. Não há instituições, mas uma coboiada, como diz o Sérgio Godinho.

Ainda a emigração


cadernoelastico,

A lei eleitoral portuguesa não é muito comum, no que ao voto emigrante diz respeito. Poucos países têm círculos próprios de emigração, como é o nosso caso. A maioria inclui os votos extra-territoriais nos círculos eleitorais de origem, ainda que neste caso seja mais difícil avaliar o seu impacto nos resultados.

Portugal é um caso ainda mais raro: os nossos círculos de emigração elegem quatro deputados, dois pela Europa e dois pelos restantes países. A importância do peso do voto emigrante é assim muito mais visível: é só lembrar os 115 deputados de António Guterres em 1999, pela conquista de mais dois entre os emigrantes. Aliás, o número de mandatos atribuídos a estes círculos ficou logo estabelecido nos debates da Constituinte, apesar de Jorge Miranda denunciar os riscos de fazer uma eleição depender de quem não vive no país. De qualquer maneira, podíamos ainda assumir que nada disso era problemático; porquê então a atenção dos partidos (leia-se, PS e PSD)? É que a história não é assim tão simples. Independentemente do número de eleitores recenseados, o número de deputados eleitos mantém-se. O baixo de índice de proporcionalidade pode, para efeitos de introdução do tema, ser aqui apresentado apenas em termos comparativos: descontando a abstenção, temos 30.306 votantes na Europa a eleger dois deputados. O outro círculo nacional com semelhante magnitude é o de Portalegre, e tem cerca de 100.000 eleitores. Se considerarmos o conjunto dos dois círculos, temos 45.576 a eleger exactamente o mesmo número de deputados que, por exemplo, o círculo de Bragança, com os seus 150.000 eleitores. E, como a história das eleições nos conta, desde 1976 que estes votos são favas contadas para o PSD, contando apenas com a excepção de 1999. Com a abolição do voto por correspondência, talvez o PS ganhasse alguma vantagem; com o veto presidencial, a haver transmissão de informação, o PS acabou de perder novamente 3 deputados. Em tempo de guerra não se limpam armas, deve ter pensado o deputado José Lello; saíram-lhe as contas furadas.

Um pouco de ar


cadernoelastico,

 


 

Não sei o que vai acontecer a este país perdido em disses que disse e trafulhices várias. Sei que é preciso respirar um pouco. Afastarmo-nos um pouco do turbilhão, respirar fundo e tentar distinguir alguma coisa no meio da confusão.