Dos livros


cadernoelastico,

Um dia destes, um amigo dizia-me que um escritor atinge a sua qualidade máxima por volta dos 36 anos. Depois, é sempre a cair. Este fim-de-semana, li que o Ian McEwan está a escrever um romance sobre as alterações climáticas. Depois do Le Carré e do José Rodrigues dos Santos, eis que a escassez dos recursos chega ao feudo mais canonizado da literatura contemporânea. Confesso que leio as obras mais recentes de McEwan por preguiça de abandono: não gostei de Saturday (pobrezinho, previsível, demasiado correcto), nem de On Chesil Beach (infantil, quase). Parece-me que tenho o argumento final para o deixar nas prateleiras: os 36 anos de McEwan já lá vão. Resta a pergunta: para quando o romance sobre a gripe suína?

A ler


cadernoelastico,

Este artigo – Could Changing the Electoral Rules Fix European Parliament Elections? – de Simon Hix e Sara Hagemann. Sobre a importância do sistema eleitoral enquanto mecanismo de correcção do pouco interesse que os europeus têm sobre o PE. Uma ideia crucial: as eleições europeias não permitem o castigo/recompensa dos principais actores, os eurodeputados, contrariamente às eleições nacionais. Mudando isso, será que os europeus se interessariam mais?

Ainda a construção


cadernoelastico,

A questão das línguas na UE tem muito que se lhe diga: ontem tive oportunidade de assistir ao press briefing na Comissão, com tradução simultânea para dez das vinte e três línguas possíveis. Na sala, jornalistas das mais diversas nacionalidades. Não é fácil, viver numa união deste tamanho.

A UE tem um forte poder de atracção, em todos os níveis. É natural que assim seja: concretizou a ideia da paz entre as suas nações, e acrescentou-lhe um próspero mercado único. Os alargamentos foram-se sucedendo, então, à medida que os pedidos de adesão se multiplicavam. Só o de 1995 foi pacífico, não tendo implicado grandes custos – políticos ou económicos. Houve ainda outro padrão: depois de um alargamento, pensava-se no seguinte. Não há uma tradição de calma, e lenta adaptação à mudança. A verdade é que a adesão de cada país correspondeu a diferenças de funcionamento, mesmo nas questões mais primárias, como a língua. Foi desta forma que chegámos à crise política (alguns diriam, institucional) de hoje: sucessivos alargamentos, pouca ou nenhuma adaptação das instituições e modos de funcionamento e decisão. O Tratado de Lisboa propõe-se a resolver parte desses problemas. Ainda assim, o problema é o mesmo: vários anos passarão até que a entrada dos últimos doze tenha sido absorvida pela União. Hoje, a lista de nomes concorrentes continua a crescer: Croácia, Sérvia, Turquia, Albânia, Ucrânia. De alguns, temos até dúvidas quanto à sua democraticidade, para não falar na economia de mercado.

A Europa não é um clube fechado. E ainda bem que assim é. Mas, para se manter o que já conquistou, é hoje forçoso parar para descansar. Isto é, é preciso respeitar aquilo que temos, com os membros que temos, em nome de um futuro mais próspero, com portas mais francamente abertas.

A importância da construção europeia


cadernoelastico,

"The Commission staff didn’t just speak several languages; they joke in them, fought in them, made love in them. Speaking of making love, there were lots of European marriages in the early years. German married Italians and their children’s first language was French. In the backyards of the suburbs surrounding Brussels lived a polyglot of people who were literally married to the idea of Europe."

George Taber

 

Esta também é a minha Europa.

Este PS, e o outro


cadernoelastico,

‘Este’ PS, como o Henrique Raposo escrevia ontem no Expresso, faz-me confusão. Tenho alguma alergia a socialismos, ortodoxos ou modernizados, mas o caso português era diferente. O PS sempre se definiu como um partido democrático, de debate, feito contra o pensamento único e o risco autoritário, viesse ele da esquerda ou da direita. Os atritos – mais que isso, choques – entre Mário Soares e Vítor Constâncio provavam um partido plural, representativo de uma sociedade também ela plural. Onde há dissidências, caminhos diferentes, visões de sociedade e de necessidades também diferentes. Entretanto, vieram os anos Guterres, e o pavor das maiorias relativas. O PS decidiu agrilhoar-se ao poder. Que significou isso? A eliminação pura e simples de qualquer diferença. O PS é hoje um imenso rebanho atrás de um líder de palha, calando aquilo que vê de errado, concordando no desespero do poder com prazo de validade. Mas porquê esta insegurança? Só encontro uma resposta, na ausência de um partido que lhe roube esse poder: tem medo das suas próprias sementes de destruição. O poder não lhe trouxe confiança; trouxe, outrossim, uma insegurança extrema, de quem sobe à montanha mas tem medo de descer.

 

Também publicado aqui.

Um país que mete medo


cadernoelastico,

"No início, ninguém dá nada por eles. Mas, pouco a pouco, vão conseguindo afirmar o seu espaço. Não se lhes conhece nada de significativo, mas começa a dizer-se deles que são porreiros. Geralmente estes tipos porreiros interessam-se por assuntos também eles porreiros e que dão notícias porreiras. Note-se que, na política, os tipos porreiros muito frequentemente não têm qualquer opinião sobre as matérias em causa mas porreiramente percebem o que está a dar e por aí vão com vista à consolidação da sua imagem como os mais porreiros entre os porreiros. Ser considerado porreiro é uma espécie de plebiscito de popularidade. Por isso não há coisa mais perigosa que um tipo porreiro com poder. E Portugal tem o azar de ter neste momento como primeiro-ministro um tipo porreiro."

 

Obrigatório: Helena Matos, hoje no Público.

Cepticismo


cadernoelastico,

Estou cansada de escrever que desconfio de todas as centralizações de informação. De cada vez que me tentam convencer de que "é mais fácil para ti, está tudo arrumado, e ninguém tem acesso", tenho logo engatilhado o discurso pronto: isso é tudo muito lindo, mas só torna mais simples a vida a quem nos quiser controlar. Mania minha, anti-tecnologia? Talvez, mas quando estamos todos arrumadinhos, com os dados todos disponíveis, as nossas vidinhas são completamente expostas. E sim, fico desconfortável com a ideia. Bom, há cada vez mais motivos para recearmos esta centralização, como a Ministra do Interior inglesa percebeu:

 

How many times must we repeat this? There is no such thing as a secure computer. It does not exist. The secrets of the Pentagon have been penetrated by Chinese hackers and British nerds. The most carefully programmed firewalls in east Europe were crashed at the click of a mouse by Russian agents. Such is the magnetism of secrecy that poachers will always be a step ahead of gamekeepers.

In the last eight years, the same MPs who are howling at their data vulnerability have voted for the most extensive surveillance system in Europe, as well as the biggest data storage in the most expensive and inept computers. Britain under Labour has become the world capital of privacy intrusion.

A sociedade dividida em três


cadernoelastico,

Structurally, we are endangered because many of the Western democracies are becoming tripartite states in which one-third of all taxpayers are employed by government at some level, one-third of the people are crucially dependent in some way on government support (welfare, Medicare, Medicaid, farm subsidies, and a gazillion other untrackable support programs), and one-third produces the income (the tax base) paid out in supports for the first two-thirds.

 

William D. Gairdner, na New Criterion.

 

A ideia de Gairdner é interessante, e tem consequências neste contexto de depressão. A crise começou por afectar inicialmente desempregados e classes mais baixas, que passam a depender do estado. Para os muitos que trabalham para o estado, houve duas hipóteses: reforma antecipada, para quem a pediu antes de os valores descerem no início deste ano, e  um agarrar-se com toda a força ao emprego, para todos os outros. Há um egoísmo implícito: quem tem 50/60 anos, recusa-se a abdicar de um cêntimo do que tem, mesmo sabendo que isso fecha as portas aos seus filhos. O que conta é o salário ao fim do mês, e esse é pago a horas pelo estado, com ou sem crise.

Claro que há um problema grave; os programas de apoio não se pagam a eles mesmos. Nada têm de sustentado. É evidente quem vai pagar esta almofada de protecção: o último terço. São os profissionais liberais que vão aguentar este Titanic, com os seus impostos. 

O perigoso Magalhães


cadernoelastico,

É raro o dia em que não leio notícias que tenham a palavra Magalhães no corpo do texto. Há dias, discutia se o Magalhães resume de facto esta legislatura, com amigos que o negavam veementemente. Para eles, há mais neste governo que o computadorzinho azul. Se tivesse a paciência (e tempo) necessários, garanto que faria um clipping das notícias diárias, para provar com dados concretos a prioridade nacional. Mesmo não levando este projecto para a frente, levantam-se-me já algumas dúvidas. Não tenho a certeza se esta mania do Magalhães tem origem nos media, verdadeiros obcecados, ou se vem de cima, do governo. Bom, no plano interno não sei mesmo responder. Parece que a febre magalhaneira colou mesmo, em pais, crianças, professores e jornalistas, tornando-se o centro do debate sobre educação. Já só falta mesmo desfilarem pela Avenida abaixo reivindicando um Magalhães para cada tomada (ou o contrário, também seria um relevante avanço tecnológico, como os quadros eléctricos das escolas assinalam).

Hoje, descubro que o Magalhães, qual droga leve que tudo inebria, até já tem uma perninha na actividade ilícita: parece que aquilo é tão bom que até já há mercado negro, com desvios de material e atribuições erradas. Ainda pensando nas minhas dúvidas de direcção da importância (isto é um bocadinho ovo e galinha, eu sei), acho que a resposta nas relações internacionais é mais simples. Afinal, os contratos viajam de avião pela mão dos nossos governantes, não pelas insistências dos media. A presença do computador nas nossas relações externas parece ser motivo de alegria para os nossos governantes, que o trazem na boca como um credo solucionador. De Cabo Verde à Venezuela, o intrépido navegante arrepia caminho, em nome da redenção informática. E isto parece-me tudo muito triste. E muito pobre, sob todos os pontos de vista.

Definitivamente, a ler


cadernoelastico,

Viro-me para a esquerda, e apenas oiço o velho esquerdismo tecnocrata. Viro-me para a direita, e apenas oiço a direita da calculadora. Este cerco tecnocrata faz-me lembrar Henrique Paiva Couceiro (1861-1944), tal como foi descrito por Vasco Pulido Valente em "Um Herói Português" (Alêtheia). Paiva Couceiro era um cavaleiro romântico num tempo em que a política já começava a ser coisa de tecnocratas. Aliás, este livro acaba por ser o relato do choque entre o D. Quixote da tresloucada grandeza romântica (Paiva Couceiro) e o tecnocrata da pequenez do défice (Salazar). Hoje, Portugal não precisa de um Paiva Couceiro monárquico e com tiques de D. Sebastião, mas necessita de um Paiva Couceiro ‘institucional’ com a capacidade para refundar a III República.

 

Henrique Raposo, no Expresso (e leiam tambem a parte de cima; recomendo vivamente a quem anda com ideias patetas sobre novos pós-mundos).

Quinta frase


cadernoelastico,

Mrs. Gould voltou-se para ele e interrogou-o em silêncio, rasgando um pouco mais o olhar e semiesboçando um sorriso, num gesto habitual que sempre fascinava os homens pela dedicação subtil que revelava e a rendição que deixava vislumbrar na atenção pronta que lhes dedicava.

 

Em resposta ao João Carvalho, aqui está a minha quinta frase, página 161. O livro é Nostromo, de Joseph Conrad. E é muito bom, se me permitem acrescentar. Deixo a corrente aberta aos leitores. As caixas de comentários são para usar, e são todos muito bem-vindos.

Mudanças de planos


cadernoelastico,

Estava a pensar em escrever como todas estas decisões e recursos em casos de corrupção comprovada demonstravam o fim de qualquer coisa séria neste país. Mas desisti: mais do que excitações e fúrias, é preciso respirar fundo, ganhar alguma distância, e ver o que podemos salvar disto tudo.

Um bom fim-de-semana.

 

às vezes há sol em inglaterra


cadernoelastico,

Por todo o lado, somos rodeados de avisos, a informar-nos alegremente de que estamos a ser vigiados. Shoppings, lojas, museus, edifícios de estado. Claro, ainda não chegámos às câmaras na rua (excepto na entrada de alguns prédios), e estamos muito longe de Tóquio. Vamos aceitando tudo isto, acriticamente, em nome da nossa seguranças. Os estudos concretos, normalmente sobre o Japão, exemplo máximo, indicam que nunca ninguém foi preso devido à presença dessas mesmas câmaras. Mas fomos aceitando. Nos jogos de futebol, todos os adeptos são filmados, sem que haja qualquer rejeição de tal abuso. Tanto é filmado o Macaco agarrado às grades como a D.Maria que gosta do seu Benfica em dias de sol. Em nome da igualdade. Em nome da segurança.

Nick Gibson é um inglês, proprietário de um pub em Islington, em Londres. Não tinha licença de exploração do bar, porque se recusou a instalar CCTV, como a polícia aparentemente lhe exigia. Recusou-se a invadir a privacidade dos seus clientes, de controlar por filme a quantidade de cerveja e sandes ingerida. Mas não se ficou por aqui: escreveu à sua MP, e fez publicar essa mesma carta no Guardian. Ontem, viu finalmente ser atribuída a licença, sem CCTV. A pergunta final da sua carta, porém, permanece digna de transcrição: When was it that the constant small erosion of our liberties became irreversible?

Sequências


cadernoelastico,

A propósito deste post de Francisco José Viegas.

Nós aqui por esta terrinha gostamos muito de nos fingir sofisticados. Esta história da base de dados de ADN é só mais um exemplo. Ficamos embrenhados nas hipóteses tecnológicas, na vanguarda da ciência, e esquecemos tudo o mais. Afinal, somos um case-study da Nokia. Mesmo desempregados, pobres e lamurientos, compramos LCDs, sistemas surround e discutimos animadamente as vantagens de uma internet de 16 mega. Se podemos fazer entusiasmada figura com uma gigantesca base de dados, cheia de códigos e informação, porque não?

Bom, em Inglaterra foram obrigados a encerrar a parte relativa aos cidadãos "normais", isto é, sem antecedentes criminais. É que parece que há uma coisa pequenina, discreta, chamada direito à privacidade. Implica a não interferência das autoridades, segundo determinados critérios, devidamente especificados. É um equilíbrio complicado, este da vida quotidiana com o progresso científico. E como tal, tem de ser pensado. As liberdades pessoais e políticas sobreviveram à integração das liberdades reais; torna-se cada vez mais complicado discutir o seu estado depois da revolução científica.