às vezes há sol em inglaterra


cadernoelastico,

Por todo o lado, somos rodeados de avisos, a informar-nos alegremente de que estamos a ser vigiados. Shoppings, lojas, museus, edifícios de estado. Claro, ainda não chegámos às câmaras na rua (excepto na entrada de alguns prédios), e estamos muito longe de Tóquio. Vamos aceitando tudo isto, acriticamente, em nome da nossa seguranças. Os estudos concretos, normalmente sobre o Japão, exemplo máximo, indicam que nunca ninguém foi preso devido à presença dessas mesmas câmaras. Mas fomos aceitando. Nos jogos de futebol, todos os adeptos são filmados, sem que haja qualquer rejeição de tal abuso. Tanto é filmado o Macaco agarrado às grades como a D.Maria que gosta do seu Benfica em dias de sol. Em nome da igualdade. Em nome da segurança.

Nick Gibson é um inglês, proprietário de um pub em Islington, em Londres. Não tinha licença de exploração do bar, porque se recusou a instalar CCTV, como a polícia aparentemente lhe exigia. Recusou-se a invadir a privacidade dos seus clientes, de controlar por filme a quantidade de cerveja e sandes ingerida. Mas não se ficou por aqui: escreveu à sua MP, e fez publicar essa mesma carta no Guardian. Ontem, viu finalmente ser atribuída a licença, sem CCTV. A pergunta final da sua carta, porém, permanece digna de transcrição: When was it that the constant small erosion of our liberties became irreversible?

8 comentários em “às vezes há sol em inglaterra”

  1. Um caso desses nunca aconteceria em Portugal. Aqui é ao contrário: gostamos de ser filmados, vigiados, controlados, «normalizados». E nunca poderíamos escrever uma carta ao deputado. Até porque esse deputado já teria dado lugar a outro que por sua vez também já teria sido substituído.

  2. Em Portugal temos muitos sítios vigiados. Para quê? Quando acontece um assalto, os ladrões são filmados, algumas vezes são apanhados pela polícia, vão a tribunal e são postos outra vez na rua… e o ciclo repete-se!
    A filmagem fica para recordação…

  3. “…escreveu à sua MP…”, a ideia mais relevante do post na minha opinião. Ontem na SIC, dizia Alexandre Quintanilha que quando pagava os impostos na California, recebia depois um documento em que se discriminava a distribuição das suas contribuições pelos diversos sectores e que, se houvesse desacordo, era possível influenciar de algum modo o destino do imposto. Aqui, nem ‘MP’ nem controlo sobre o nosso dinheiro a partir do momento em que é descontado pelo estado…

  4. When we’ve allowed the “erosion of democracy and civil liberties” i would answer.

    De qualquer forma, uma rosa no deserto na manutenção da liberdade individual.
    Cá? é o oposto. Ainda que sem a garantia de segurança que tal pressuposto pressupõe.

  5. Tal capacidade de crítica e resistência ao abuso, entre nós, enfrenta um problema bicudo: a generalidade dos portugueses pela-se por ter uma câmara virada para si. No mínimo, uma câmara virada para outro, mas que lhe permita pôr-se atrás a espreitar como quem não quer a coisa…

  6. Ana:

    Deixo-lhe o link para a tomada de posse do Presidente dos EUA. Aqui, verá que foram todos vigiados ao pormenor. Se aumentar o zoom consegue ver as caras (e não só) dos presentes. Pode, inclusive, ver detalhes das partituras musicais da Banda.

    http://gigapan.org/viewGigapanFullscreen.php?auth=033ef14483ee899496648c2b4b06233c

  7. obrigada a todos os comentadores. queria só acrescentar que Gibson escreveu à MP, sim, que por acaso tem gabinete na mesma rua, mas ela não respondeu. algumas coisas não são muito diferentes: a MP só respondeu quando a carta de gibson apareceu no jornal, e a resposta é uma miséria, em termos de discussão de liberdades (o vazio).

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