Obrigada.


cadernoelastico,

Perdoem-me o umbiguismo, mas tenho vindo a reparar que esta casa, o Delito de Opinião, se distingue por uma coisa muito, mas muito simpática: a cumplicidade. Este blogue é dos poucos onde se conversa, amavelmente, nas caixas de comentários. Sem insultos, com discussão civilizada, entre autores e leitores, que acabam por ser também autores.

Há dias escrevi um post muito rápido sobre quotas. Chegou aos 44 comentários, e pasme-se!, todos de debate educado, numa troca de ideias bem fundamentada. Uma raridade, num país de gente histérica e mal-educada.

Obrigada.

Ao cuidado da Zentropa


cadernoelastico,

A propósito desta notícia, que explica que o novo filme de Lars von Trier terá uma versão censurada (também) na Europa do Sul. A expressão usada é, aliás, uma "versão católica para os mercados mais conservadores".

 

Exmos. Srs.,

Agradecemos o cuidado e atenção manifestados sobre a nossa sensibilidade, mas dispensamos o paternalismo. Estamos conscientes de que ver um filme de Lars von Trier implica riscos, nem que seja estéticos, mas preferimos ser nós a fazer essa escolha.

Com os melhores cumprimentos,

AMC

Ainda o serviço militar


cadernoelastico,

Tinha pensado em escrever um post sobre o tema. Aliás, até o tinha escrito, e apaguei, por achar que já ia fora de tempo. Mas, ao ler o Miguel Marujo, voltei a recuperá-lo.

Há uma questão fundamental nesta história dos bairros de risco: a desestruturação social. Por outras palavras, o não saber a que se pertence, que lugar temos na sociedade. Quando Campos e Cunha, o tal sociólogo de sofá na crítica do Vasco Barreto, vem recuperar o serviço militar obrigatório, é porque lhe parece que a estrutura militar integra, criando um papel ao indivíduo, com direitos e deveres. A diferença entre o SMO e o ensino profissionalizante nas escolas é que o primeiro oferece uma estrutura, da qual qualquer um se pode tornar uma parte. Permite criar redes de lealdade e amizade filial, quando o exército substitui a própria família (muito mais facilmente nos casos em que esta não existia anteriormente). Isso é completamente impossível nas escolas. Numa escola, essa rede pura e simplesmente não existe, olhe-se por que se lado olhar. Grande parte daqueles miudos dos gangues procuram isso mesmo: uma família, um lugar a que pertençam, no qual tenham deveres e direitos, onde a disciplina se ligue a uma autoridade que vêem como legítima. O SMO é uma solução possível. Funcionará? Não sei. É verdade que há um hiato de idades, entre o início da violência e a idade de alistamento, como o Vasco aponta. Ainda irá a tempo? De novo, não sei. O que sei é que as soluções correntes têm falhado, e as condições agravado.

Por outro lado, é também verdade que o exército é uma fuga ao desemprego e à pobreza. Mesmo que seja pouco, os militares têm sempre um ordenado, pago a horas. Há sempre algum dinheiro, que evita a necessidade do roubo. Aliás, recentemente li até nos jornais que, com a crise, houve um aumento na "procura" de emprego nas Forças Armadas. Por muita confusão que isso me faça, o exército é hoje um emprego vulgaríssimo, das 9 às 5. E isso tem vantagens, nos tempos que correm.

Quotas para mulheres


cadernoelastico,

 

A propósito do que o Henrique aqui escreve: enquanto as mulheres portuguesas não tiverem um, mas pelo menos três empregos (o das oito horas, o da família e o da casa), não há quotas que as emancipem. A verdadeira igualdade começará a ser construída no dia em que os anúncios de detergentes não forem imensos bailados de donas-de-casa.

Current mood? Miguel Sousa Tavares


cadernoelastico,

A jantar fora, a um sábado à noite, ocorrem-me duas ideias. A primeira, que nunca ninguém me ouvirá dizer mal dos restaurantes "non-children friendly"; crianças em restaurantes, só a partir dos três ou cinco anos, e isto se se souberem comportar (elas, e os pais). A segunda, que há por aí muitos pais a precisar de levar umas boas palmadas. Parece-me completamente evidente que ter uma criança a gritar e aos pulos num restaurante nunca é giro ou engraçadinho. É só irritante para toda a gente. Lembro-me de ter escrito qualquer coisa sobre crianças mal-educadas resultarem em adultos insuportáveis. Olhando para a nossa classe política, até consigo ter umas ideias sobre o tipo de educação que tiveram na infância. Meninos engraçadinhos, muitos deles.

Recomendação


cadernoelastico,

Este post de Luís Januário. Vejam só uma pequena amostra:

 

"Ao Senhor Vital Moreira

Quando fizer campanha com o seu secretário-geral, e este for interpelado, não olhe para ele. Olhe para a câmara. Nós sabemos que aquilo que diz o secretário-geral é importante, verdadeiramente importante. E que o candidato Vital não conta muito. Mas não precisa de demonstrar essa atenção expectante, de pupilo engraxador. Continue a olhar para a câmara. A câmara representa o povo. Os espectadores. Os eleitores. V. Exa. não é candidato a presidente da Junta de Avelãs de Caminha. Vai ser o primeiro deputado europeu de Portugal, como diria D. Duarte de Bragança. Mesmo que de facto esteja interessado em ouvir e perceber o seu secretário-geral, segure o maxilar, modere esse seu interesse fascinado. Pode pedir a gravação do evento. Telefonar à Eduarda Maio. Ou esperar pelas Obras Completas."

Já sabe que deus não existe?


cadernoelastico,

Ontem dei por mim a pensar que certa espécie de ateísmo, muito na moda em alguns blogues, é como que uma inversão do born again christianism. O zelo é o mesmo: um espírito missionário, imbuídos que eles estão da verdade, e da missão que têm para o mundo. Uns chatos, a bem dizer, que não nos largam a campainha: "Já sabe que não há deus? Já sabe que isso são mitos e histórias para criancinhas? Tenho aqui uma série de livros que lhe vão mostrar o caminho."

 

E nós bocejamos, enquanto tentamos fechar a porta. Que gente mais chata.

As árvores, esse “apoucamento” de qualquer espaço


cadernoelastico,

Um excerto do Público de hoje, na notícia relativa ao Terreiro do Paço:

 

Especialista em questões da Baixa, Walter Rossa dá mesmo os parabéns aos seus autores, por terem conseguido "respeitar a solenidade e o silêncio do espaço". Tal como João Rodeia, também Walter Rossa temia o surgimento de árvores, banquinhos ou outro mobiliário urbano que de alguma forma apoucasse o sítio. "Qualquer intervenção deve respeitar a escala do local", e não tentar transformá-la, diz o arquitecto.

 

Pedro Lains, num dos posts que escreveu sobre a falta das árvores no projecto, perguntava-se se a culpa não teria sido dos arquitectos. Pelos vistos, é mesmo. A arquitectura por aqueles lados continua a ser feita para o local, para o espaço, e não para as pessoas que a vão habitar, que a vão tornar espaço vivido.

Falta de vergonha


cadernoelastico,

A partidarite tende a ser uma doença contagiosa, com consequências sérias para os pacientes. Afecta muita coisa, a começar pela sanidade dos infectados. Aqui, podemos ler o elogio à honestidade de Elisa Ferreira, uma das bicandidatas sem respeito nenhum pela democracia ou pelo voto. Instituições europeias? Não servem para nada, a não ser para assegurar um rendimento mensal de 7 mil euros, caso tudo o resto (isto é, a câmara municipal da segunda principal cidade do país) falhe. Falta apenas mencionar no referido elogio da frontalidade o último deslize da acumuladora de eleições, naquele pequeno pormaior de o dinheiro do estado (isto é, o dinheiro dos vários milhões de contribuintes) ser o dinheiro do PS.

 

O povo não é estúpido, meus senhores. Já chega de brincar connosco. Agora somos nós que nos indignamos.

Da educação


cadernoelastico,

Ao ler a página sobre educação sexual nas escolas, surge-me uma só pergunta: e os pais? Será que a educação sexual e reprodutiva das crianças e adolescentes não é responsabilidade das tarefas educativas em casa?

Faz-me confusão este estado que tudo abarca, desde o sal do pão e o açúcar dos doces regionais às relações afectivas e ao sexo, de jovens e de adultos. Sei bem que esta tendência do estado para se substituir nas responsabilidades e nas decisões nada tem de exclusivo em Portugal. Passa-se relativamente o mesmo por todos os estados ocidentais. Mas, ainda assim, continuo a pensar que é preciso, de alguma forma, resistir a isto. As crianças não são propriedade do estado, para as formatar e educar. Foi a isso que dissemos não, em tempos de bipolaridade. As nossas crianças são propriedade dos pais, que têm primazia nas suas escolhas, nos valores que lhes querem legar, nas atitudes que pretendem formar. A escola deveria ser um local de ensino, nada mais. A educação dá-se em casa.

Ciclos


cadernoelastico,

A arrumar papéis velhos, encontro um folheto sobre "A crise da União Europeia: implicações para Portugal", e dou por mim a pensar que não sei a que crise se referem, daquela vez. Ninguém conhece a integração europeia sem ser pela crise permanente, de progressos "inevitáveis" e soluções "inadiáveis". Se calhar, este medo imenso do fim já faz parte da nossa identidade europeia. É mau funcionar assim, com esta pressão? Sim, é péssimo, até porque tendemos a querer dar passos maiores que as pernas. Mas, aparentemente, não sabemos avançar de outra maneira. E a verdade é que os terrores do último dia nem por isso nos fazem dar saltos de canguru.

Pandemias


cadernoelastico,

Li por aí algures que a Ministra da Saúde todos os dias dá uma conferência de imprensa. Mais ridículo ainda, vi nas notícias da hora de almoço uns jornalistas muito ávidos à espera dos bronzeados portugueses que vinham de Cancun. Mais dia, menos dia, a nossa hiper-medicada sociedade das pilulas para emagrecer e dos antibióticos para o nariz fungão vai começar a querer ter stocks antivirais na despensa lá de casa. "A gente nunca sabe se é preciso!" 

Lamento, mas não tenho medo de gripes. A única pandemia de que tenho medo é esta, a que mata bastante em Portugal: