Um excerto do Público de hoje, na notícia relativa ao Terreiro do Paço:
Especialista em questões da Baixa, Walter Rossa dá mesmo os parabéns aos seus autores, por terem conseguido "respeitar a solenidade e o silêncio do espaço". Tal como João Rodeia, também Walter Rossa temia o surgimento de árvores, banquinhos ou outro mobiliário urbano que de alguma forma apoucasse o sítio. "Qualquer intervenção deve respeitar a escala do local", e não tentar transformá-la, diz o arquitecto.
Pedro Lains, num dos posts que escreveu sobre a falta das árvores no projecto, perguntava-se se a culpa não teria sido dos arquitectos. Pelos vistos, é mesmo. A arquitectura por aqueles lados continua a ser feita para o local, para o espaço, e não para as pessoas que a vão habitar, que a vão tornar espaço vivido.

Na mouche. Cidades sem árvores são desertos, por muito harmónicos que sejam, arquitectonicamente.
pois. a sensação que tenho é que os arquitectos pensam nas pessoas como bonequinhos nas maquetes: gente que aguenta atravessar uma praça gigante à soleira de 30 graus, sem uma sombra, sem um abrigo. e faz-me confusão, porque essa é uma característica portuguesa. em mais nenhuma cidade da europa que tenha visitado vi isso. muito pelo contrário. e nenhuma delas tem as horas de sol anuais que nós temos!
É verdade, isso. Temos um estranho culto pelo betão nu, nós que até temos um clima privilegiado para estar na rua grande parte do ano. Complexo de provincianos? Não sei, é possível.
Seis palavras: Le Corbusier, Le Corbusier, Le Corbusier.
É o problema quando a arquitectura se torna mais arte que outra coisa.
Ainda há pouco tempo se falou aqui do Terreiro do Paço (que nada tem de Praça do Comércio, porque é mesmo um terreiro). E eu repito: não percebo para que é que serve ter um ringue de hóquei-em-patins às moscas no ‘cartão de visita’ da capital…
Ainda por cima, nem as ervas daninhas querem nada com aquele espaço. Nem uma erva daninha para amostra!
essa ideia do ringue de hóquei em patins é absolutamente certeira. eu sabia que havia alguma utilidade para aquela praça!
Os arquitectos – ou melhor, certa noção de arquitectura, muito contaminada pela ideologia – são os grandes responsáveis pelo facto de as cidades estarem cada vez mais infrequentáveis. A ‘recuperação’ do Terreiro do Paço é uma excelente demonstração disso. Pedro Lains invoca, e muito bem, o exemplo da Place des Vosges, uma das mais belas praças do mundo. O Terreiro do Paço seria assim, para melhor, se tivessem deixado as amoreiras crescer.
exactamente. eu generalizei, mas reconheço que é bem capaz de ser uma excepcionalidade portuguesa…
Concordo que a Place des Vosges é uma das belas praças europeias, Pedro, mas não pode, em minha opinião, estabelecer-se uma comparação com o Terreiro do Paço.
A Vosges é uma praça interior e o Terreiro do Paço está debruçado sobre o rio e isso faz toda a diferença.
A minha concepção de Lisboa, enquanto cidade virada para o Tejo, leva-me a apoiar o projecto, porque a presença das árvores iria retirar ao Tejo a centralidade que o Terreiro do Paço sublinha.
Vale a pena recordar que esta era a entrada nobre de Lisboa no século XVIII, feita através do Cais das Colunas.
Creio que a ideia dos arquitectos terá sido recuperar essa grandiosidade do Terreiro do Paço, como porta de entrada em Lisboa ( daí a recuperação da centralidade do Cais das Colunas no enquadramento da praça)
A arborização seria efectivamente uma solução romântico-paisagística correcta , mas desvirtuaria o significado do Terreiro do Paço, descontextualizando-o da vida da cidade.
Sob o ponto de vista urbano-ambiental, é importante preservar uma harmoinia entre a arquitectura, a vida e história da cidade e os parãmetros ambientais. Lisboa não ficaria mais rica com umas árvores no Terreiro do Paço. Pelo contrário. Aliás, na Praça de S. Marcos, em Veneza, terão sido adoptados critériso semelhantes.
A Vosges é uma praça interior e, nessas sim, deverá haver uma grande preocupação de enquadramento ambiental, com recurso a elementos amigos do ambiente, ( árvores e fontes) não só para o seu embelezamento, mas também por questões de equilíbrio ambiental que não cabe aqui explicitar, mas que, resumidamente, se prendem com a necessidade de garantir a qualidade do ar urbano e evitar concentraçoes de gases como o benzeno.
Abraço
Olha, Carlos, estás a dar-me uma ideia para mais uma série. As mais belas praças europeias. Começando por Portugal e continuando por aí fora.
Apesar de estar ligado à área do ambiente há mais de 30 anos, de grande parte da minha vida profissional se ter desenvolvido em torno das questões ambientais e de gostar muito de árvores e cidades arborizadas, penso que as árvores no Terreiro do Paço seriam tão desapropriadas como na Paraça de S. Marcos em Veneza.
Estou ao lado de Walter Rosa e saudo os arquitectos. Tal como ele também temia as árvores, os banquinhos, as mesinhas para os velhotes jogarem à sueca e, quiçá, uns baloiços e escorregas para as criancinhas.
As cidades, como as pessoas, também precisam de espaços de silêncio. O Terreiro do Paço não será uma praça para as pessoas viverem, mas apenas usufruirem.
Custou-me, sim, a desarborização das Avenidas Novas, para criar mais estacionamento para os automóveis. Esse crime parece não ter impressionado muita gente.
Eu também concordo que árvores, com um jardim e bancos e um parque infantil, seria a solução desejável para o Terreiro do Paço. A cidade serve para as pessoas viverem e não para simbolismos nem interpretações. E as pessoas na Baixa precisam muito de um jardim assim.
No entanto tenho sérias dúvidas de que árvores minimamente frondosas possam ali crescer. O solo está cheio de água, ainda por cima salobra (com alto teor de sal), pelo que duvido que árvores ali possam alguma vez fazer sombra de jeito.
Concordo inteiramente que os arquitetos, incluido os paisagistas, se fartam de fazer merda em Portugal, em especial devido à elevada preferência que o povo português demonstra por revestir espaços a pedra.
Há uns anos ouvi na TV uma entrevista com um arquitecto célebre que me impressionou muito. Perguntou a entrevistadora: dizem que as suas casa são belas mas pouco cómodas para se viver lá dentro. Ele respondeu: bem, as pessoas ou querem uma casa de autor ou preferem é refastelar-se na casa.
Quer dizer ou é esteticamente (segundo os critérios do arquitecto) boa mas não é grande coisa para se viver ou ao contrário. As duas coisas são incompatíveis?
Iria eu mandar construir uma casa de autor e depois iria viver noutra por aquela ser incómoda??