Nós não somos um país. Somos uma coisa com muitos nomes, onde cabem extremos e mundos que nunca se tocam. Onde muita coisa correu mal, para chegarmos a este ponto.
Rita Mendes, de 19 anos, ainda não fixou o nome da escola do Lumiar, em Lisboa, onde começou este ano lectivo a frequentar o curso de Ciências Aeronáuticas. Mas na ponta da língua tem os nomes dos modelos das malas da Louis Vuitton que ela e a mãe hão-de receber este Natal, a mil e dois mil euros o exemplar, para depois emprestar uma à outra. O irmão não fica a perder: "Entre os jogos para a Playstation e um computador portátil novo leva sempre muitos presentes, para compensar as malas."
Que o diga Piedade Santos, 46 anos num rosto sem traços de maquilhagem a disfarçar a passagem dos anos. "Tenho muita pena, mas aos adultos é um beijinho, um abraço e pronto. Nem eles me dão nada a mim, nem eu lhes dou a eles"
Dois exemplos, entre muitos outros, deste fantástico ‘país de sucesso’ que tão bem gerido tem sido nos últimos anos.
Estava aqui a fazer um comentário mas era tão entediante que achei que nem um terço seria lido sem bocejarem.
Os meus natais preferidos são na Alemanha. As prendas são insignificante mas, lá está, não tiveram um pós 25 de abril que lhes provoque a necessidade de demonstrarem a riqueza que têm (e que não têm). Fico mais chocada com a Ritinha e a senhora dua mãe do que com a Dona Piedade dos Santos. No fundo os beijinhos que ela receberá serão mais sentidos do que os “lol” da rita.
Quanto ao governo, fala-se, Fala-se, mas tirá-los dali, nada… e isso é quase tão chocante quanto essa diferença entre aqueles dois mundos. Eu avisei que iria ser entediante.
Isto é o espelho da sociedade que, cada vez mais, teimamos em continuar a construir. Claro que isto não serve para os mais atentos. Esses, vão progredir e tornar-se pessoas cultas e ricas por dentro.
Julgados na praça… da alegria (http://eramaisumfino.wordpress.com/2009/12/10/julgados-na-praca-da-alegria/)
Fartamo-nos já de ver, os políticos queixarem-se de serem julgados na praça pública, quando são alvo de suspeitas ou mesmo constituídos arguidos em casos de justiça. Ao verem algumas investigações – levadas a cabo legitimamente por jornalistas – notícias ou reportagens, dizem-se alvo de campanhas negras e pedem que a justiça seja feita nos tribunais.
Mas o facto é que alguns políticos – principalmente os xicos-espertos corruptos – já perceberam que o melhor mesmo é serem julgados na praça pública. Isto porque, como diziam os Gato Fedorento num sketch imitando Valentim Loureiro, têm aquela vantagem pequenina de na TV ninguém ir preso. E além disso a opinião pública (e publicada) influencia e tira margem de manobra aos tribunais (só neste país).
Para ajudar à festa, a televisão pública (RTP) é usada e abusada por todos os senhores poderosos que representam grandes interesses, para portanto se virem defender ou vitimizar, aproveitando para descredibilizar a verdadeira justiça dos tribunais. É uma maravilha, a RTP é deles. Isto são julgamentos na praça da alegria, e não na praça pública. É uma bandalheira, uma vergonha.
Há uns anos foi o Carlos Cruz, há uns meses atrás foi o Dias Loureiro, amanhã será o Armando Vara. Todos no programa “Grande Entrevista“. Eu sugiro, para que haja equilíbrio e justiça para todos, que convidem também o Bibi da Casa Pia. Ora que diabo, ele também tem direito, ou será que são só os amigos do Governo e dos Bancos?
É o mundo que temos. Muito desviado do essencial. Ritas destas há-as por todo o lado. Alienadas de tudo o que não se possa colar ao corpinho com euros. A Piedade tem pena de só poder dar beijinhos. Mas, vá lá, dá-os. Quase apetece concluir que, quem tem poucos euros beija e quem tem muitos euros, por exemplo, bolsa. Ora, mesmo que se bolsem só artigos topo de gama, não deixa de ser meio caminho andado para a criação de gente sub-alimentada …. da alma, como dizia a poeta.