O DO e a pedagogia


jmmcc,

Se mais e melhores vantagens não houvesse, podia registar-se o facto de andarmos aqui a contribuir decisivamente para minorar os efeitos da lamentável subcultura linguística e comportamental que cavalga a nossa sociedade.

 

Entre outros casos bem sucedidos, contam-se os seguintes êxitos já alcançados e carimbados pela nossa persistência:

— Fernando Mendes já conseguiu dizer  uma vez «minhas senhoras e meus senhores», entre os milhões de vezes que diz «meus senhores e minhas senhoras», no seu O Preço Certo (RTP-1);

— o Eixo do Mal já se portou menos mal no passado fim-se-semana (SIC-N);

— o inenarrável programa que se apresentava como Telerural refez o seu grafismo para poder finalmente ler-se "Tele-Rural" (RTP-1);

— esteve há dias um concorrente no concurso do Malato Jogo Duplo que disse «a minha mulher» e não «a minha esposa» (RTP-1);

— o Público Última Hora passou um dia inteiro sem publicar uma notícia em que trocasse um «e» por um «ou» e  sem recorrer aleatória e cegamente a quaisquer outras preposições (Público);

— um repórter do Jornal Nacional conseguiu estar quase quatro minutos a falar à porta de um tribunal sem trocar «sob caução» por «sobre caução» (TVI);

— o Expresso já tem menos autores que ainda não sabem conjugar o sujeito com o predicado e não percebem o que é o infinitivo de um verbo (Expresso);

— Fátima Campos Ferreira conseguiu fazer um Prós e Contras inteiro sem qualquer «mudança de paradigma» e sem pôr assuntos «em cima da mesa» (RTP-1);

— Pacheco Pereira deixou de usar na Quadratura do Círculo expressões-tiques, como seja, entre vários exemplos possíveis, dizer que Sócrates quer parecer «melhor do-có-que é» (SIC-N);

— Francisco Louçã já diz menos vezes que o Código do Trabalho afecta «todos e todas» (qualquer microfone serve).

 

Prometemos continuar com afinco este combate contra os tratos de polé de que sofre a nossa língua e contra o mau gosto e infracultura que grassam, dispostos a tentar alargar os bons resultados a outros meios de comunicação.

 

Para já, estamos a bater-nos pela substituição do piroso CD musical de um duo com o título Cumplicidade que está a ser anunciado por aí. Os artistas, na capa do dito, dão pelo nome de Beto e Mélito, mas a verdade é que o segundo se chama Melito. Mais valia o primeiro ser Béto, que sempre respeitaria a sílaba tónica.

30 comentários em “O DO e a pedagogia”

  1. Ainda bem que, pelos vistos, este DO tem vindo a ser seguido e a ensinar alguma coisa a muita gente. Pena é que o governo não se deixe também orientar um pouco por ele, mas já faltou mais. Devagar se vai ao longe, embora me pareça que o que não vai longe é mesmo este governo…
    Um grande e delituoso abraço.

  2. Muito bem. Mas está muito modesto. E o “pessoal” que apresenta as notícias da manhã não melhorou imenso? Sim, sobretudo AS que falavam mais ou menos assim: Azzz notíciasz …
    É impressão minha ou melhoraram imenso?

    :)))

  3. Ena, João, que responsabilidade! Mas depois, quando “todos e todas” já não disserem nem escreverem asneiras, com que é que nos vamos entreter??

    1. Ora Ana, mudam de paradigma e colocam novas problemáticas em cima da mesa, de modo a abordarem novas vertentes das questões que emergem no contexto das alterações dos pressupostos estabelecidos, se possível numa compreensão ecológica e compreensiva, facilitadora da integração dos diferentes factores e protagonismos em jogo….

      :)))

          1. Pois fica sabendo que é a influência francesa por via de Bruxelas. Pacheco Pereira é muito influenciável. Pelo menos, mais influenciável ‘do-có-que’ parece.

  4. João:

    Eu gostei do “post”, vindo de ti não esperava outra coisa. Parabéns e espero a continuação da “novela”
    Abraço forte, João.

    1. Bem… Fico admirado, confesso, mas não vou ficar chocado. Desde que me dê razão: aquilo lia-se, até agora, «telerural» e não «telerrural», como se pretendia. O arranjo gráfico que acabou de sofrer é que já permite ler-se direito. Há-de reparar nisso.

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