Copenhaga: à procura de consensos


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Resisto à tentação de escrever  sobre a Cimeira de Copenhaga, convicto que  nada acrescentaria ao que os jornais vão noticiando.

Sou  um “burro velho” nestas andanças. Quando, em 1992, voei de Hong-Kong para o Rio de Janeiro, com o objectivo de fazer a cobertura da “Cimeira da Terra para a “Tribuna de Macau” e para a TDM, ia cheio de esperança. Apesar das reservas que sempre manifestei quanto à possibilidade de um acordo, era a minha estreia em cimeiras sobre ambiente e tinha esperança que, à última hora, pudesse ser o primeiro a dar, em directo, a notícia para Macau: os líderes mundiais tinham ganho juízo e resolveram entender-se. Ingenuidade de principiante, admito hoje sem qualquer rebuço.

É sabido que o programa de acção da  Carta da Terra, estabelecido na Agenda 21, acabou por ser o acordo possível. Embora muito aquém do que já nessa altura seria necessário, o texto enunciava um conjunto de propostas razoáveis que, sendo seguidas pelos vários países, poderiam servir de travão a certas práticas ecologicamente incorrectas. A frase  chave – “Pensar globalmente, agir localmente” – parecia também, na época, ajustar-se à ideia de que cada país deveria tomar as medidas adequadas à sua realidade, numa perspectiva global. Olhando para trás, há quem diga que o fracasso da Cimeira do Rio não foi tão rotundo como se possa pensar. Foi a partir daí que se começou a falar de desenvolvimento sustentável, biodiversidade, consumo responsável dos cidadãos ou Responsabilidade Social das Empresas. Na realidade, as medidas  Agenda 21 exerceram, na salvação do Planeta, o mesmo efeito de uma Aspirina ministrada a um doente com cancro mas, sem a Cimeira da Terra, talvez não tivesse sido possível a existência do Protocolo de Quioto.

Desde o Rio de Janeiro estive presente em diversas conferências e convenções internacionais. Em Montreal, Buenos Aires, Nova Iorque, Quioto, Joanesburgo, Cairo, Istambul ou Bali, pude testemunhar que,  apesar de tímidos, os passos que foram  dados permitiram algum progresso.

Copenhaga é, para muitos, a última esperança. Não será tanto assim. Quando a água for paga a peso de ouro e os gases com efeito de estufa esturricarem os terráqueos, a maioria de nós já cá não estará para ver. Os nossos descendentes que se amanhem, porque o importante, para a geração actualmente no poder em todo o mundo é deixar-lhes, como herança, tecnologias de ponta, off shores, uma boa conta bancária, e um modelo social e económico assente na doutrina ultra-liberal cujo único dogma é o “Eu, Ldª”.

Ao longo destes 17 anos os protagonistas políticos têm mudado, mas os seus discursos são os mesmos. Os interesses de cada um dos países está acima do interesse global, porque a globalização só serve para alguns e, no momento de pedir sacrifícios a todos os mais poderosos fazem-se distraídos. Em Copenhaga, o discurso e a prática de Obama, por exemplo,  pouco diferem do discurso e prática de Bush pai durante a Cimeira do Rio. 

Os diversos blocos têm tido dificuldade em falar a uma só voz. Nos países do Mercosul, a Argentina e o Brasil entraram em confronto; no G-77 a Malásia demarcou-se dos restantes países; há dificuldades sérias em estabelecer um consenso entre os países africanos sobre as regras do mercado de carbono. Apenas a UE parece ter uma estratégia concertada e falar a uma só voz, embora seja ainda difícil prever  o que custará a cada um dos estados-membros este consenso (es)forçado. E, como se não bastasse, há cada vez mais adeptos do ambientalista céptico Bjorn Lomborg

Nas ONG  e na comunicação social há muitas caras que já conheço desde o Rio de Janeiro e, como sempre acontece, recordam-se alguns episódios ocorridos noutros cenários.  Talvez, nos próximos dias, tenha oportunidade de partilhar alguns convosco. Até lá, se quiserem saber um pouco do ambiente que se vive em Copenhaga, convido-vos a ler aqui.

3 comentários em “Copenhaga: à procura de consensos”

  1. Excelente os dois posts Carlos. É verdade o que diz sobre a adesão às teses de Bjorn Lomborg . Em Setembro no Estoril no Green Fest foi ver o corrupio de gente a comprar o livrinho “Calma” para ele autografar. Uma cambada de avestruzes.

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