Falar sobre a velhice


cadernoelastico,

Tenho para mim que a velhice deve ser vivida dignamente. Numa revista deste fim-de-semana, acho que era João Lobo Antunes que dizia esperar que a família o escondesse e protegesse em casa, se o pior sobreviesse. Só tenho pena que as famílias de Soares e Saramago não tenham tido este bom senso. Sempre se poupavam duas vidas preenchidas (bem ou mal) à tristeza de uma velhice pública de embaraços.

Falar sobre o tempo


cadernoelastico,

É evidente que, todos os anos, basta começar a chover para se gerar o caos. Em Lisboa, parece sempre que é a primeira vez que chove. As inundações são, em parte, provocadas pelas sarjetas por limpar, entupidas com as folhas do outono e lixo vário. No entanto, convém sermos aqui um bocadinho mais justos para com os nossos autarcas: é um bocado complicado escoar água quando chove torrencialmente. A quantidade de água por hora, nestas chuvadas, é tanta que nem que houvesse um ralo de banheira a cada quinze ou vinte centímetros de rua a coisa ia correr bem. 

Sobre deveres


cadernoelastico,

Ontem, no seu discurso de comemoração da República, Cavaco Silva insurgiu-se contra a lamúria, esse desporto nacional, pelo "dever de participação" na coisa pública (cito de cor). Nada de mais errado: a participação na esfera pública é um direito, uma opção nossa, e não um dever. O dever é o inverso, está na reserva por parte da esfera pública de se imiscuir nos nossos interesses privados. O governo representativo, tal como o conhecemos, significa precisamente esse esforço de reserva.

O cidadão delega nos deputados a responsabilidade de defender opiniões e interesses no mundo político, para poder ter tempo para as suas ocupações na sociedade civil. A liberdade individual reside também na possibilidade de nos abstermos de participar na vida pública. É esta liberdade que a ética republicana não consegue compreender.

 

Blogue da semana


cadernoelastico,

Para descansar um bocadinho da campanha, esta semana escolho um blogue que é um romance. Assim, sigam já para o Ouriquense, um quase diário escrito por um eremita exilado, e esqueçam toda esta confusão. A barriga de Tatiana está maior, o album a ela dedicado está praticamente terminado, mas faltam-nos noticias de Ígor. Só isso importa.

Falta de tudo


cadernoelastico,

José Sócrates é, possivelmente, o político mais mal-educado que alguma vez tivemos o desprazer de aturar. A entrevista a Maria Flor Pedroso, na Antena 1, elucida bem a pessoa intratável, arrogante e sem qualquer respeito que nos governou nos últimos quatro anos e meio. Não responde a perguntas directas, rejeita qualquer crítica. Por volta do minuto 16, chega a imitar a voz da jornalista, como uma criancinha mal-educada.

Sócrates obrigou-nos a um clima de total crispação, insuportável em momento de crise, quando precisávamos de alguma serenidade para importantes negociações. Felizmente, está quase a acabar este período de má memória.

 

O link está aqui, num texto de Carlos Botelho.

Entretanto, lá fora


cadernoelastico,

Alvaro Uribe, presidente da Colômbia, falhou o teste decisivo da democracia. Apesar das suas altíssimas taxas de aprovação, estava limitado a dois mandatos seguidos. Depois, poderia prosseguir a sua carreira política, mas de outra maneira. Não resistiu à tentação do poder.

Certo de que a sua política colhia a aprovação do país, Uribe preferiu convencer a Câmara Baixa do Congresso a convocar um referendo para a possibilidade de um terceiro mandato. Com este pedido, Uribe deu uma valente machadada no caminho da Colômbia para a normalidade. Se o Tribunal Constitucional consentir, o poder executivo volta a perder um importante freio, o poder pessoal volta a contar mais. O veneno do caudilhismo ainda corre forte na política sul-americana.

Sem comentários


cadernoelastico,

Dois agentes da PSP, agredidos na Amadora em 2004 quando estavam em serviço, não vão ser indemnizados por danos morais e físicos e foram obrigados a pagar as custas do processo porque os agressores, condenados em tribunal, apresentaram atestado de pobreza.

 

No Público.

 

(O único comentário seria a extrema vergonha que sinto por viver num país assim.)

Prioritárias são as pessoas


cadernoelastico,

O primeiro parágrafo do meu artigo de hoje pelo Jamais, para o Diário Económico. O resto pode ser lido no Jamais.

 

Nas linhas gerais para o programa eleitoral, o PSD destacou uma expressão que pode parecer evidente, mas que revela uma mudança significativa: "prioritárias são as pessoas". E as pessoas são, convenhamos, um bocadinho mais do que simples pagadores regulares de impostos.

 



(Sobre a importância da pessoa: em 1953, Russell Kirk foi convidado para integrar o conselho académico da recém-criada Intercollegiate Society of Individualists. A  resposta, mostrou bem a distância que separa o conservadorismo do liberalismo: “(politically, individualism) ends in anarchy; spiritually, it is a hideous solitude… I do not even call myself an ‘individual’; I hope I am a person”.)

Imaginemos


cadernoelastico,

Imaginemos que eu fazia crítica de livros. Imaginemos que tinha para criticar um livro de um autor que eu sempre detestei. Por motivos vários, tenho mesmo de escrever a recensão desse livro. Por acaso, até escrevo que não gosto daquele autor, mas que me surpreendeu, porque o livro até tinha partes boas. Imaginemos tudo isto: perfeitamente normal, certo? É a minha profissão escrever sobre livros, nem sempre vou gostar do que tenho para ler. Aliás, até seria estranho se gostasse de todos os livros que me passam pela mão.

Agora, imaginem que recebo cartas de leitores indignados por eu não gostar daquele autor. E recebo insultos, vários, e disparates diversos. Penso eu: vou encolher os ombros, não podemos contentar sempre todos. Mas não: um dos directores da publicação em que escrevo faz um editorial a pedir desculpa aos fãs do autor por mim, num tom subserviente e que insulta o meu trabalho. Pior: depois vem o provedor da mesma publicação dizer em tom autoritário que, se não gosto daquele autor, nunca deveria ter escrito sobre ele. Diz ele que não é curial. Assim, categoricamente.

Pode isto acontecer em Portugal? Pode. Na verdade, não se trata de livros, mas de uma crítica a um concerto, e tudo isto está a acontecer a um crítico musical, João Bonifácio. O jornal é o Público, e o artigo do provedor pode ser lido aqui. A liberdade de expressão está em sérias dificuldades por estas paragens.

Eleições não são julgamentos


cadernoelastico,

"O julgamento será feito pelos oeirenses", diz Isaltino Morais à saída do Tribunal que o condenou por diversos crimes de corrupção e branqueamento de capital, entre outros.  Lamento, mas não será. E será uma pena se aqueles pensarem sequer por um minuto que o podem fazer. O julgamento foi feito por um tribunal, dentro de um Estado de Direito que, da última vez que verifiquei, ainda era o que vigorava em Portugal. Os crimes não são julgados em praça pública, e muito menos nesse local perigoso que é a urna. A democracia não se esgota na urna; a democracia cumpre-se, sim, quando criminosos são trazidos à justiça, com um processo justo e célere (bom, este com alguns problemas), e condenados em função das provas apresentadas.