A família inventada


Ana Lima,

 

Quantas de nós, ao longo da vida, não ouvimos já perguntas do género: “Então, quando é que te casas?” Ou a variante: “Então quando é que te casas novamente?” E a questão eterna: “Então quando é que resolves ter um bebé?”

Apesar de as expectativas acerca do papel da mulher na sociedade terem vindo a sofrer alterações ao longo do tempo, ainda se assume, com frequência, que a realização plena das aspirações femininas se prende com a vida familiar estável à volta de um casamento “feliz” e dos filhos que dele resultarem.

Cansada de ouvir as tais perguntas, a artista Suzanne Heintz resolveu brincar com o assunto e criar, artificialmente, uma família que responda ao estereótipo da mulher feliz americana. Para tal, comprou dois manequins que interpretam, nas fotografias encenadas, o marido e a filha “perfeitos”.

O projecto “Life once removed” (que podem acompanhar aqui) inclui fotografias do quotidiano, dos momentos festivos, de férias familiares.

Pelo humor que demonstra e pelo seu significado parece-me um trabalho muito interessante. Claro que uma interpretação mais psicanalítica da obra poderá dar-lhe uma outra perspectiva. Mas fico-me apenas pela ideia e pela sua concretização que, só por si, já têm uma grande força.

“No fundo era só para explicar um bocadinho” o título da notícia


Ana Lima,

Durante cerca de dois minutos assistimos à triste cena. Pela rua molhada, João Gouveia, protegido por um chapéu de chuva, parece tentar esquivar-se à patética perseguição da rapariga com um microfone na mão que assim, à primeira vista, parece uma jornalista. Na troca de palavras entre os dois o rapaz não explicou nem um bocadinho muito pequenino de nada. Mas é a forma como a situação é noticiada no Público on line que menos sentido faz. De acordo com o título, o “dux” quebrou o silêncio, quebra essa que corresponde a um “nada acrescentou”, no texto da notícia. Eu cá fiquei muito mais esclarecida…

Blogue da semana


Ana Lima,

É difícil acreditar que é tão nova. A Beatriz escreve como se por si já tivesse passado tanta vida… A sua escrita é madura, cheia de recordações e de sentimentos antigos. Podemos lê-la em revistas ou no livro, É quase noite, publicado pela Averno, em 2013. 

Mas há alguns anos que os seus textos poéticos são publicados em blogues da sua autoria. Aquele que é o mais recente foi o que escolhi para o primeiro blogue da semana deste ano. Percam-se por lá: ao longe todos são pedras de Beatriz Hierro Lopes.

…e, já agora, não me fale de filósofos, dirão alguns…


Ana Lima,

Na minha leitura diária dos posts do Delito detive-me neste da Patrícia. E pensei logo nesta entrevista que li hoje. É um facto que as ideias não são novas. Mas é bom que, nestes tempos em que a Economia e a sua linguagem imperam, possamos encontrar quem chame a atenção para outras formas de ver. E que lucidez, a deste autor!

Livros de cabeceira (21)


Ana Lima,

 

Tenho dois pontos prévios a referir antes de vos falar acerca destes meus livros de cabeceira: é que nem são “livros”, nem são “de cabeceira”.

Começando pela questão da cabeceira: acho que não leio na cama desde, pelo menos, o nascimento da minha primeira filha. Esse hábito teve o seu auge na adolescência, altura em, sempre que podia, ficava manhãs inteiras deitada a ler. Actualmente na minha mesa de cabeceira raramente há livros. Esta foto foi portanto “encenada”.

Por outro lado, padecendo eu de um certo distúrbio obsessivo-compulsivo (não diagnosticado e, creio eu, de pouca monta) raramente leio mais que um livro em simultâneo. 

No entanto, actualmente, por motivos profissionais, estou a ler esta obra de 1968, de Henri Lefebvre dedicada às questões da cidade e do urbano que só o ano passado foi publicada em Portugal. Já tinha lido excertos noutras circunstâncias mas nunca todo o texto que é um clássico para quem trabalha na área.

Nesta fotografia está também o pequeno livro que me tem acompanhado nos últimos dias. As suas folhas amareladas não recomendam sequer a sua permanência junto ao local onde se dorme. Comprei-o (numa daquelas vendas de livros nas estações de metro) por três razões. A primeira prende-se com a minha memória. O único livro que li deste autor (não sei qual, confesso), era eu adolescente, foi na mesma altura em que li “As Vinhas da Ira” do seu contemporâneo Steinbeck. Mal vi este “Um rapaz da georgia” apeteceu-me recordar aquela escrita e aquelas personagens tão marcadas pela dura vida no sul dos EUA, na primeira metade do séc. XX.

A segunda razão tem a ver com o objecto em si: um pequeno livro, uma edição de 1954, com muitas ilustrações de Birger Lundquist, que trabalhou sobretudo em jornais; desenhos de traços finos que acompanham as cenas facilitando muito a entrada nos ambientes descritos. 

A terceira razão de que queria falar tem a ver com o facto de a tradução e o prefácio serem da autoria de Jorge de Sena. 

Deixo-vos uns excertos desse prefácio: “… a ternura comovida e o riso poderoso das cenas ridículas, que são o estofo das suas páginas, deixam um travo amargo e um aumentado amor da liberdade, da justiça, da dignidade humana, noções cuja autenticidade as suas personagens mesquinhas e empobrecidas só caricaturalmente atingem… Neste caso de Georgia boy, publicado em 1943, o apelo toma a forma de uma voz de criança perdida na noite e implorando a toda a humanidade (de que o leitor rindo-se dele, da família dele e dos que o rodeiam, faz parte integrante) que o deixe ser livre e conscientemente um homem. Ainda quando não concordemos com a afinação da voz, ou ela nos não pareça portentosa, é uma voz humanizada. 

E se não é para assim nos ouvirmos uns aos outros que por aqui andamos, não se percebe muito bem porque seremos tantos e teremos voz.”

E jackpot, há?


Ana Lima,

Maria Luís Albuquerque está a ser contactada pelas várias televisões que querem transmitir em directo os sorteios e que pretendem que seja a titular da pasta das finanças a apresentadora. Liliana Campos já se ofereceu para dar umas dicas quanto à indumentária a usar. A ministra, no entanto, já revelou que prefere o estilo de Serenella Andrade, enquanto aguarda ainda que a troika se pronuncie sobre o assunto.

Santana Lopes, na qualidade de Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, entidade gestora dos jogos sociais concedidos pelo Estado, disse a propósito que seria interessante ter uma piscina cheia de facturas onde pudessem mergulhar algumas beldades. Isto para tornar ainda mais apetecível o combate à evasão fiscal.

Apesar do interesse inicial, as administrações das televisões já mostraram a sua preocupação em relação às audiências. É que muitos funcionários públicos, mesmo desconhecendo a fundo as leis das probabilidades, têm-se mostrado pouco entusiasmados dado o reduzido número de facturas que inevitavelmente virão a pedir. 

O ministro da Economia veio, entretanto, dizer que está também a lutar pela criação de um sorteio semelhante para os estabelecimentos que passam as facturas. O prémio, neste caso, poderia ser uma descida no valor do IVA a cobrar no sortudo estabelecimento. “Ao menos um”, terá desabafado. 

O que estou a ler (14)


Ana Lima,

Nem sei bem porquê mas a verdade é que nunca tinha lido, até agora, uma obra de Agustina Bessa-Luís. Talvez tenha sido o ano passado ou no ano anterior que, na Feira do Livro, resolvi comprar os Contos Impopulares. As duas palavras despertaram-me a atenção. Eram contos, género que, se não é o meu preferido, está entre os meus preferidos, e eram impopulares o que, à partida, os afastava das histórias mais clássicas com um final ligado a alguma moral. É desta que vou ler Agustina, pensei.

 

Afinal algum tempo passou. Mas este Verão peguei no livro. Percebi, então, que se tratava de uma das primeiras obras da escritora, publicada no início dos anos 50 do século passado. Os diferentes ambientes e personagens são de uma enorme riqueza, desde os contos mais extensos aos mais pequenos. E a língua portuguesa! Que prazer ler palavras que vamos esquecendo! E que bom que é sentir a necessidade de ir ao dicionário consultar outras que andam tão arredadas do nosso quotidiano!

Não resisto a deixar aqui o mais pequeno destes contos que diz tanto, mas tanto…

 

O CORTEJO

– Quando passará? – perguntava a si próprio. Em vão arredava a fímbria da cortina, e olhava. A vidraça, onde aderiam as pequenas moscas dos estábulos, era baça, como que porosa e penetrada de bolhas de ar. E a rua era excêntrica, isolada, poeirenta, com margens de terrenos baldios onde cresciam, como abetos ponteagudos em miniatura, arbustos calcinados; as múltiplas flores bravias rompiam das valas, fulgurantes e apenas perceptíveis. Quando passará, quando virá o cortejo? – perguntava. Ali estava desde a madrugada, procurando divisar o cortejo que desceria das bandas da cidade, com as suas flâmulas brilhando e voando, enchendo o horizonte de cores inesperadas e palpitantes. Alongou-se o dia, as sombras mudaram de lugar; os cães de pastor trotavam circundando os campos, vigiando os rebanhos. A rua, deserta, com as suas velhas paredes que se desmoronam, mantidas ainda pelas garras das heras e a aglomeração dos silvados. «Quando virá o cortejo, quando será?» Cansado, ele inclina um momento a cabeça sobre o parapeito, e adormece. Não por muito tempo, não por muitas horas. Quando volta a arredar a orla da cortina, a olhar pela janela a rua desamparada que se perde na distância entre arbustos calcinados e flores apenas perceptíveis, ainda que fulgurantes, ele, perplexo e inquieto, indaga de si próprio: «Já teria passado o cortejo, quando teria passado?!» Abre a janela, e os vidros, mal seguros pelo betume ressequido, caem no chão, sem ruído, sobre a poeira. Todo o sol parece revolto, e um rasto de pegadas como que ondula e se entrecruza e se perde, por fim, varrido nos turbilhões de pó. Ele experimenta na boca, ao respirar, o sabor áspero e absurdo desse pó. Depois, fecha a janela, e, por detrás das vidraças partidas, continua a esperar.

 

in, Agustina Bessa-Luís, Contos Impopulares, Guimarães Editores, 2004, pág. 25-26

 

E agora que vou iniciar as Últimas Entrevistas a Roberto Bolaño gostava de saber o que andas tu a ler, Ana Vidal?

 

 

Meninos e meninas: nós aqui, elas lá


Ana Lima,

Nada tenho contra os antigos alunos do Colégio Militar, nem contra os actuais ou os futuros, nem mesmo contra a instituição em si. Não conheço bem as razões do protesto, para além do que se tem sabido através da comunicação social (por exemplo, aqui). Suponho até que a “acção de luto” poderá ter sido bem pensada e, com os meios de que dispõem, chegará a muitas pessoas (eu própria contribuo para tal com este post). 

Mas a verdade é que não gostei de ver isto:

 

(por baixo da faixa preta está o nome de António Sérgio, que pensou tanto a questão da educação e que, por coincidência, nasceu no dia 3 de Setembro, há exactamente 130 anos). 

Blogue da Semana


Ana Lima,

O ano passado deixou-nos tristes quando anunciou que, porque o tempo nunca chega, o blogue iria fechar.

Para felicidade nossa tratou-se apenas de uma interrupção e podemos contar novamente com os seus textos que gosto sempre de ler e nos quais aprendemos sempre algo de novo (mesmo que o soubéssemos já).

O “Patrão da Barca” é  J. Rentes de Carvalho. Tempo Contado é o blogue desta semana.

Por correio postal


Ana Lima,

A primeira tarefa dos assessores jurídicos no “processo de privatização em curso” nos CTT será, certamente, acompanhar a desafiante tarefa de notificar cidadãos eleitores cuja situação eleitoral venha a ser alterada com a aprovação do novo mapa das freguesias.  Depois da generalização do uso dos meios electrónicos, nunca uma operação desta envergadura tinha sido posta em marcha. A comissão de trabalhadores alertou já para a necessidade de providenciar bebidas frescas. É que parece que vai ser preciso lamber muito selo…

Há notícias perturbadoras


Ana Lima,

Esta é uma delas. E não é pela eutanásia em si, com a qual tendo a concordar, mas pelo facto de se admitir que uma situação que só acontecerá no futuro é motivo suficiente para alguém se encontrar, já hoje, num estado de “sofrimento insuportável” e agir, conscientemente, no sentido de acabar com esse sofrimento que ainda não se materializou. Não falando no lado mais poético da questão (se é que se pode utilizar a palavra poético neste caso), associado às razões invocadas: a impossibilidade futura de comunicar com aqueles que lhes eram mais queridos; fica-nos uma sensação estranha, que é a de assistirmos a uma espécie de eutanásia preventiva, susceptível de ser questionada a fundo. Se Marc e Eddy estavam felizes com a perspectiva de morrer porque não gozaram mais algum tempo essa perspectiva? E porque não foram eles a escolher o dia em que morreriam? Será que se escolhessem um domingo não iria ser possível por causa dos dias e horários de funcionamento do serviço onde se ministra a injecção letal? Não sei, tudo isto é tão estranho…

Ficção ou Realidade?


Ana Lima,

Confesso que quando vi este vídeo pensei: é a Samsung a experimentar uma via alternativa de publicidade. Assim como quem diz: isto vai correr pelas redes sociais que nem água a jorrar de uma represa em período de cheia (se assim for, este post, mostra que a estratégia foi bem sucedida). Mas, pensando melhor, pode ser uma jogada muito arriscada. É que poderá haver quem não queira ter um equipamento de uma marca associada a um vídeo deste calibre.

Também pode acontecer tratar-se de uma actriz paga para fazer uma rábula e, nesse caso, há que dar os parabéns porque nos põe realmente bem dispostos.

Mas já me passou pela cabeça, num pensamento que tento afastar a todo o custo, que esta rapariga existe mesmo, que tem “uma voz”; que acabou, com alívio, a sua tese faz agora um ano; que está a trabalhar o que, coitada, lhe rouba algum tempo mas que lhe permite juntar dinheiro para concretizar um dos seus grandes desejos para 2013: “ter uma daquelas malas clássicas que ficam bem com tudo” e que são “uma conquista”. Não pensemos, no entanto, que os desejos desta jovem são todos deste grau de importância. Não. Para equilibrar, também estão na lista a felicidade e o amor o que a ajudará a “fazer mais coisas… ter mais experiências”.

À medida que escrevo penso: mas afinal, com tantos exemplos de pessoas, naquele grupo de idade, que lutam diariamente para sobreviver no nosso país qual é o problema de existirem jovens, como esta, que irradiam bem estar, sucesso e auto-estima? É verdade que outros há que, com o seu esforço, atingem metas importantes, pessoais ou que se reflectem positivamente na vida de outros. Estarei a ser preconceituosa? Talvez. Mas a verdade é que, neste caso concreto, estou desejosa que me digam que o guião foi escrito por alguém das Produções Fictícias e que a Filipa não existe mesmo. Não existe, pois não?

 

Blogue da Semana


Ana Lima,

Um “blogue a quatro mãos que pretende dar a conhecer as colecções de cerâmica portuguesa e estrangeira dos seus autores, sobretudo Art Déco e Modernista, com incursões à Arte Nova e até à década de 1950” é o que vos proponho esta semana. Para quem gosta do tema e ainda não conhece o blogue impõe-se uma visita ao Moderna uma outra nem tanto. Mas não precisam ser entendidos no assunto que as explicações são sempre claras e interessantes, com fotografias cuidadas a acompanhar. Vão até lá e confirmem.