Do princípio ao fim (19)


Ana Lima,

É uma terra sombria. Não tem mais do que uma fábrica de algodão, casas de duas assoalhadas onde vivem os operários, alguns pessegueiros, a igreja com duas janelas de vitral e uma rua principal, feia, com apenas cem jardas de comprido. Aos sábados, os rendeiros das quintas em redor vão até lá para um dia de conversa e compras. Nos outros dias, está vazia e triste, como todos os lugares perdidos e distantes do mundo. O apeadeiro de comboio mais próximo é em Society City e as carreiras de camionetas Greyhound e White passam na estrada de Fork Falls, a três milhas de distância. Os invernos são curtos e ásperos, os verões resplandecentes e de um calor atroz.

A Balada do café triste, The Ballad of the sad café,

Carson MCCullers,  1951,

edição da Relógio D’Água, tradução de José M. Guardado Moreira

 

Eu nunca fui à América, forma de designar um país que tomou para si o nome de todo um continente.

Conheço-o, no entanto, dos filmes e dos livros, como conhecemos, através deles, tantos lugares onde nunca estivemos ou viremos a estar.

E de entre os autores americanos que li alguns são responsáveis pelas primeiras imagens que me vêm à cabeça, se fecho os olhos e penso nele. Não são as metrópoles ou os locais cosmopolitas que surgem em primeiro lugar, mas as grandes extensões vazias e as cidades pequenas demais para elas.

John Steinbeck, com As Vinhas da Ira, lido na adolescência, é um dos responsáveis.

Carson MCCullers, lida mais tarde, é outra. Este A Balada do café triste, é um livro de personagens. São elas, mais que a história, que são a sua força. Mas antes de as conhecermos tomamos contacto com a terra e percebemos que ela pode ter um papel importante na forma como aquelas se comportam. Uma escrita cinematográfica, no sentido em que facilmente a transformamos em imagens.

O primeiro parágrafo deste conto, que sugere todo o seu tom, coloca-nos imediatamente naquele lugar. É como se voássemos por cima das ruas. Podemos até sentir o frio e o calor, a imediata solidão, uma certa claustrofobia sentida num espaço longe de tudo, a forma como o tempo parece custar a passar. 

E tudo isto em frases claras e certeiras pontuadas por alguns adjectivos que nos dão a ideia do ambiente que ali se vive.

A partir dessa descrição da terra acercamo-nos da casa e do café que ali existia para depois nos irmos aproximando das personagens, num movimento cada vez mais para o interior até que quase conseguimos compreendê-las, mesmo que aparentemente estejam tão longe de nós, nas margens de uma sociedade que as afasta.

Apesar de estarmos, no tempo e no espaço, a uma longa distância da realidade retratada, Carson MCCullers consegue fazer com que os habitantes e visitantes daquela terra não nos sejam indiferentes e quando fechamos o livro percebemos que afinal também nós já estivemos naquele lugar perdido e distante do mundo. Provavelmente sentados à mesa do café.

 

Blogue da semana


Ana Lima,

Quando a Teresa me chamou a atenção para o facto de ser eu a escolher o blogue da semana fiquei sem saber o que escolher. Não tenho andado propriamente muito atenta aos blogues mas fui dar uma vista de olhos aos últimos que visitei e saltaram-me à vista alguns ligados a livrarias. Ora aí está, pensei…

As livrarias, como as outras lojas, têm, hoje em dia, blogues, facebook, twitter, enfim, todas as formas de chegar ao público. Umas limitam-se a divulgar as obras que têm à venda. Outras falam também de outras iniciativas. Outras ainda partilham algumas das situações do dia a dia.

É um pouco destas várias situações que encontramos no blogue duma das livrarias mais simpáticas de Lisboa. Nela encontramos edições novas e outras menos (às vezes boas surpresas). Uma visita a fazer, quer por leitores vorazes como o Pedro, quer por quem é mais comedido. Já o blogue pode ser visitado mesmo por quem é alérgico ao pó… 

Fora de série (17)


Ana Lima,

Se referir o seu nome – Angus -, poucos saberão de quem estou a falar. Mas se vos lembrar que pedaços de chocolate, clipes, cartões, pastilhas elásticas, moedas, relógios, elásticos de cabelo, brincos ou qualquer objecto que possa estar à nossa mão podem servir para provocar explosões, abrir algemas, recarregar baterias ou até desarmar mísseis; tenho a certeza que todos saberão a quem me refiro: Macgyver, pois claro!

Esta série, realizada por Lee David Zlotoff, acompanhava um ex-agente das Forças Armadas, especialista em conseguir resolver problemas (e alguns eram tramados) utilizando, para tal, objectos simples do dia a dia. O sucesso foi enorme em muitos países. Por cá não foi excepção. A sua capacidade para resolver grandes conflitos sem usar armas (o mais próximo era o seu inseparável canivete suiço), deixava-nos presos ao ecrã, por mais inverosímeis que fossem as situações. Os conhecimentos de física e química, a inteligência e capacidade de observação do protagonista, que o levavam a vencer os inimigos, faziam dele um herói diferente, numa desconstrução dos heróis típicos, e isso só fazia crescer a nossa admiração. E o esperado momento em que as preocupações eram ultrapassadas e no rosto aparecia aquele sorriso era mágico.

A música do genérico era também um elemento marcante e mal a ouvíamos aí estávamos nós a deixar as tarefas que tínhamos em mãos para correr para a frente do televisor: “Agora não posso, mãe. Está a começar o MacGyver”…

 

Na altura em que a série estreou nos EUA (1985) a guerra do Vietnam tinha terminado há apenas 10 anos e as suas consequências na sociedade americana ainda se faziam sentir com intensidade. Por outro lado, Ronald Reagan, presidente na altura, levava a cabo uma política de intensificação da guerra fria e de intervenção em vários locais no mundo, que muitos apelidavam de imperialista e belicista. Não sei se estes factos se podem ou não ligar com esta ideia de um herói que atinge os seus objectivos sem as armas tradicionais (defendidas tão abertamente, na altura, pela América e pelo seu presidente), mas podemos pensar que sim.

Podemos também, analisando o sucesso por cá, lembrar que a facilidade em lidar com o improviso também diz muito aos portugueses, habituados que estão a serem (ou pelo menos a dizerem que são) engenhosos e desenrascados. Ora ali tinham um exemplo que demonstrava que, mesmo sem meios à disposição, se podem atingir os nossos fins.

Coincidência ou não parece que o regresso deste herói está marcado para breve. Claro que Richard Dean Anderson já não fará o papel do homem que dá nome à série. O mesmo acontecerá com os restantes actores. E provavelmenente o velho casaco também não será o mesmo. Aliás parece que, nesta nova versão, se pretende voltar atrás no tempo, ao estilo “prequela”, como se diz agora. Mas haverá certamente um Murdoc (a luta entre os bons e os maus continua a fazer sentido) e alguma tensão romântica entre o novo MacGyver e uma ou mais raparigas que com ele se cruzem nas suas aventuras (um outro elemento clássico).

Boa ou má a nova série não se poderá comparar com a que vimos há umas décadas atrás. Para além da série em si as circunstâncias não são as mesmas. E nós também não somos os mesmos.

O pavilhão do nosso descontentamento


Ana Lima,

Um dos carrinhos de supermercado estava cheio. O outro ainda podia levar mais algumas coisas. Para além desses dois carrinhos os pertences eram um conjunto de mantas e cartões dispostos de forma a tornar mais confortável aquele vão de porta. Num vão ao lado repetia-se o cenário. Sem carrinhos de supermercado desta vez. Eram dois homens. Pareciam ser eles os únicos ocupantes  do edifício (se é que se pode chamar ocupante de um edifício a quem só ocupa o vão de uma porta).

Saberão eles que aquele é por quase todos considerado um óptimo exemplar de boa arquitectura e boa engenharia em Portugal? Que depois da Expo 98 várias utilizações esporádicas se foram sucedendo? Que a Câmara Municipal de Lisboa já o considerou o espaço ideal para aí instalar um equipamento cultural? Que a Parque Expo, ao ser extinta, transferiu o edifício para o Estado? Que o Governo o transferiu para a Universidade de Lisboa que supostamente o transformará  num espaço dedicado à promoção cultural e científica? Que o próprio arquitecto Álvaro Siza Vieira, há uns anos atrás, chegou a dizer: “a solução mais lógica, depois de tantos anos passados, é demoli-lo”?

Saibam ou não provavelmente continuarão a dormir naqueles vãos. Pelo menos até que alguma das ideias que foram surgindo passem à prática. Quanto aos que passeiam sob a famosa estrutura continuarão a pensar que, pelo menos, no Verão, é muito agradável ter ali uma sombra. E isso, apetece dizer como no espaço de humor da TSF, já não é mau!

A relevância da fraternidade


Ana Lima,

Rezava assim, esta tarde, na introdução a esta notícia, a página de Facebook do Público: “Mais pormenores sobre o caso que levou à detenção de José Veiga e do irmão de Santana Lopes.” 

Portanto, neste caso, as figuras importantes são um indivíduo de nome José Veiga e um indivíduo que tem um irmão de nome Santana Lopes. A minha dúvida é: José Veiga será filho único?

 

Uma casa para Giacinto


Ana Lima,

Nesta torrente de desaparecimentos de figuras públicas em que este mês de Janeiro de 2016 tem sido fértil quis o acaso que, com poucas horas de diferença, tivessem falecido duas figuras que, de uma forma indirecta, se cruzaram na minha vivência: Ettore Scola e o Arquitecto Nuno Teotónio Pereira.

Quando, em 1989, iniciei a minha vida profissional Oeiras era ainda um concelho com bairros degradados, alguns com uma dimensão significativa. Ao longo de 6 anos, tive contacto com quase todos e em muitos conheci aprofundadamente um grande número de famílias. Nessa altura algumas pessoas, em jeito de brincadeira, referiam “Feios, Porcos e Maus”, o filme de Ettore Scola, como o cenário onde eu passava os meus dias. Na verdade nunca me cruzei com uma família como a de Giacinto. Mas, se algumas das imagens apresentadas na estética grotesca do realizador italiano estavam acentuadas, outras havia que ficavam aquém de algumas situações com que me deparei e que aconteciam mesmo ao lado da minha porta, das portas de todos nós. O lado amoral e sórdido de algumas vivências (certamente presentes, também hoje em dia, em muitos locais) aproximavam, de facto, aquela Roma dos anos 70 dos subúrbios de Lisboa de finais dos anos 80. O filme de Ettore Scola, aliás, reflecte uma certa miséria humana presente em todas as sociedades ocidentais que se dizem ricas e modernas e se o humor predomina, o desencanto constante no filme perturba-nos.

A par do conhecimento dos “bairros de barracas” o trabalho da equipa na qual eu me integrava passava pelas acções de realojamento, materialização da política de habitação da autarquia. Foi nesse âmbito que me cruzei com o Arquitecto Nuno Teotónio Pereira que, com o Arquitecto Pedro Botelho, projectou, numa terra onde já tinha estado preso, um conjunto habitacional que mereceu o primeiro lugar no Concurso – Prémio INH de 1992.

Eu era uma miúda recém-licenciada mas não mais esqueci a sua figura calma e segura que sabia respeitar aqueles que com ele não teriam muitas afinidades (e para quem muitas vezes os especialistas nos assuntos não têm o que designam por paciência). Para além das reuniões com os técnicos, para as quais estava sempre disponível, recordo sobretudo o prazer com que, em assembleias muito participadas, com centenas de pessoas, nos barracões do refeitório da obra, explicava aos futuros moradores porque tinha desenhado o bairro e as casas assim e não de outra maneira, porque tinha escolhido aqueles materiais e não outros. Mas era sobretudo a atenção com que ouvia os futuros utilizadores daquelas casas, dos espaços que tinha criado, que me fascinava. Aquelas pessoas que lhe colocavam as questões mais óbvias ou as mais estranhas mereciam-lhe sempre uma reflexão e uma resposta clara.

Provavelmente os que participavam nessas reuniões não se apercebiam do privilégio de o ter ali à mão, pronto a responder-lhes a todas as questões, com a humildade de quem só sabe mais algumas coisas sobre o assunto.

Foi a ele que ouvi uma frase que ainda hoje por vezes cito e que dizia, mais ou menos assim: o principal problema dos arquitectos são as pessoas. Significava ela que ao projectarem determinado edifício, mesmo que se trate de uma encomenda para alguém em particular, a obra, que pode ficar perfeita, deixará de o ser quando for habitada, quando o uso deturpar a harmonia inicial do conjunto, introduzindo imperfeições mais ou menos relevantes. E no entanto é a vivência de um espaço que lhe confere o valor maior, o mais significativo, que lhe atribui a sua alma. Nuno Teotónio Pereira sabia disso. Por isso o respeito. Por isso o devemos respeitar.

Dei por mim a imaginar que o Arquitecto que hoje nos deixou talvez conseguisse projectar uma casa para a família Mazzatella. Pensando bem, tenho a certeza que sim.

 

Parte do texto foi recuperado daqui.

Blogue da semana


Ana Lima,

Entrevistas. Daquelas em que gostamos tanto das respostas quanto das perguntas. Saber fazer as que revelam do entrevistado mais do que aquilo que estaríamos à espera e que, aparentemente, até aos próprios permitem descobrir novos modos de se verem, é algo que não está ao alcance de todos. Anabela Mota Ribeiro consegue fazê-lo.

Essas entrevistas podem ser lidas em alguns jornais ou no blogue que tem o seu nome.

A verdade é que, como diz a autora, todas as pessoas são extraordinárias à sua maneira. Parece um lugar comum. Mas demonstrá-lo é uma arte.

Blogue da semana


Ana Lima,

O seu autor é professor de Filosofia. Certamente por isso, em quase todos os posts se encontram referências a filósofos e às suas obras. Partindo de questões relacionadas com a vida de todos os dias, os textos e as ideias que neles estão presentes apresentam-nos sempre perspectivas que enriquecem o nosso modo de olhar as coisas. Por isso o blogue que escolho para blogue da semana é Ponteiros Parados.

As novas estatísticas


Ana Lima,

Que a evolução tecnológica alterou as nossas vidas é já um dado adquirido. Que as técnicas utilizadas pelas ciências que estudam a vida humana, de um ponto de vista físico ou social, também evoluíram exponencialmente é outra verdade.

O vídeo que aqui partilho é um exemplo interessante da utilização de dados recolhidos por operadores de redes móveis para a construção de mapas detalhados que facilitam o estudo da distribuição de grupos populacionais no espaço e no tempo. Nota-se a preocupação em referir que a privacidade dos utilizadores de telefones está assegurada. O estudo pode ser consultado aqui.

 

 

O que as estatísticas dizem sobre nós


Ana Lima,

A mim, que ando diariamente de transportes públicos e que, a partir de Janeiro do próximo ano, não poderei sequer levar as minhas filhas ao médico de carro porque, de acordo com as novas regras de circulação na Zona de Emissões Reduzidas em Lisboa, ele é velho de mais para circular no percurso entre a minha casa e o consultório, há determinadas notícias que me conseguem surpreender. E não é inveja que sinto (pronto, talvez um bocadinho). É mesmo incredulidade.

E cito: “o crescimento do mercado é liderado essencialmente pelos países que passaram por uma situação de resgate financeiro”. É como se os portugueses, numa tentativa, frustrada, na minha opinião, de fazerem humor, mostrassem aos seus financiadores externos que estão numa fase de franca recuperação. Mas não é isso mesmo que esses países, produtores dos bens que nós insistimos em comprar, querem que aconteça?

Muitas coisas estão em jogo, sabemos, nomeadamente o facto das empresas portuguesas que vendem para a indústria automóvel também beneficiarem com esta situação. Numa economia global é claro que, num mesmo território, há sempre quem ganhe e quem perca com os comportamentos económicos dos consumidores. 

Mas, perante esta liderança nas vendas de um bem como o automóvel e a situação da maioria das famílias portuguesas, não posso deixar de pensar que é a um espelho que o Zé Povinho faz o seu gesto. No fundo é a chamada re…

Zé Povinho.jpg

 Imagem copiada da net

 

Da falta de bom senso ao consenso


Ana Lima,

Quando, aqui há uns anos, Lili Caneças pronunciou a frase “estar vivo é o contrário de estar morto”, não houve quem não gozasse com tal tirada. Afinal, vemos agora que, para alguns, essa distinção não é assim tão clara. Mas depois de os profissionais do Hospital de Aveiro, durante algum tempo, não saberem se deveriam dar alta, dar baixa ou dar em doidos, parece que o assunto lá se resolveu… 

 

(apesar do post escrito em tom jocoso, esta situação seria tudo menos divertida e, mesmo com as justificações dadas, não se compreende como é que se pode criar uma norma daquelas)

Os luxos alemães


Ana Lima,

António Costa já tinha tido uma ideia semelhante para Lisboa mas, inspirado no seu estilo de vida espartano, a sua proposta ia no sentido de oferecer trabalho em troca de um copinho de ginjinha, mortalhas e alguns filtros. Quanto à remuneração, estudava-se a hipótese de pagar despesas de representação (umas t-shirts ou uns bonés das novas juntas de freguesia, por exemplo).

Blogue da semana


Ana Lima,

O prazer proporcionado pela leitura de um poema é sempre algo de muito pessoal. Ao publicá-lo num blogue partilhamos com outros as nossas escolhas e acontece, por vezes, que essa partilha dá a conhecer novos poetas ou divulga outros junto de quem, por vários motivos, não os conhecia. Por estes dias os poemas têm andado por aqui. Mas como a poesia nunca é demais escolhi para blogue da semana o “da luz & da sombra“. 

De há 36 anos atrás… um poema para este dia


Ana Lima,

Foi-se a Copa? Não faz mal.

Adeus chutes e sistemas.

A gente pode, afinal,

cuidar de nossos problemas.

 

Faltou inflação de pontos?

Perdura a inflação de fato.

Deixaremos de ser tontos

se chutarmos no alvo exato.

 

O povo, noutro torneio,

havendo tenacidade,

ganhará, rijo, e de cheio,

a Copa da Liberdade.

 

Publicado no Jornal do Brasil de 24 de Junho de 1978

 

Carlos Drummond de Andrade escreveu este poema em 1978. Nesse ano, na Argentina, o Brasil, depois de vencer a Itália, ficou em 3.º lugar no campeonato do mundo (curiosamente, a Alemanha, na fase de grupos desse campeonato, tinha dado 6-0 ao México). Os militares que impunham um brutal regime de ditadura no país anfitrião viram a sua selecção vencer a Holanda na final.

Os campeonatos do mundo de futebol continuarão. Quanto ao povo que, no Brasil, sentia também, em 1978, os efeitos de um regime ditatorial, está agora, felizmente, num outro patamar. Mas ganhar a “Copa da Liberdade” é ainda, por enquanto, um desejo poético demasiado ambicioso. Por outro lado, poderão os desejos poéticos ser demasiado ambiciosos?