Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.
Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.
O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
a Copa da Liberdade.
Publicado no Jornal do Brasil de 24 de Junho de 1978
Carlos Drummond de Andrade escreveu este poema em 1978. Nesse ano, na Argentina, o Brasil, depois de vencer a Itália, ficou em 3.º lugar no campeonato do mundo (curiosamente, a Alemanha, na fase de grupos desse campeonato, tinha dado 6-0 ao México). Os militares que impunham um brutal regime de ditadura no país anfitrião viram a sua selecção vencer a Holanda na final.
Os campeonatos do mundo de futebol continuarão. Quanto ao povo que, no Brasil, sentia também, em 1978, os efeitos de um regime ditatorial, está agora, felizmente, num outro patamar. Mas ganhar a “Copa da Liberdade” é ainda, por enquanto, um desejo poético demasiado ambicioso. Por outro lado, poderão os desejos poéticos ser demasiado ambiciosos?

Faço votos que o Brasil acorde devagar e calmo para a sua realidade quando acabar o Mundial. O tempo, afinal, não é um grande impulsionador de mudanças. O poema de Carlos Drummond de Andrade, se fosse escrito ontem, não reflectiria melhor a actualidade.
Apesar de tudo, pensei que o resultado do jogo pudesse ter resultados imediatos bem mais graves… Claro que, após o Mundial, a vida do país voltará ao que era (ou ao que é) mas nessa altura sem a atenção mediática dos últimos tempos.