Gelados pela crise


Ana Lima,

Para quem, como eu, por razões pessoais e de conjuntura económica, se vê constrangida a umas férias em que a palavra de ordem é poupar, os passeios a locais não muito distantes do local de residência acabam por ser um recurso interessante e têm proporcionado momentos bem agradáveis.

Ora ontem, sabendo que, após obras de conservação e valorização, o local tinha reaberto ao público,  resolvi levar o pessoal mais novo cá de casa ao cimo da Serra de Montejunto visitar a Real Fábrica do Gelo, classificada, desde 1997, como Monumento Nacional. Eu já o visitei e sabia que o sucesso estaria garantido à partida pois perceber como se fazia a produção de gelo no cimo de uma serra e imaginar o seu transporte, até Lisboa, nos séculos XVIII e XIX, para satisfazer  os novos gostos da corte e não só, é uma lição bem animada de História.

Cheguei por volta das 16 horas. Pois não é que, mesmo sendo sábado, o sítio estava encerrado? Abria à tarde, de facto, mas havia apenas duas visitas guiadas, às 14 e às 15.30. As hipóteses de visitar o local ficam por aí pois a entrada só se pode fazer nesse contexto. Não vou dizer que fiquei gelada pois, nesta altura do ano, mesmo no meio do fantástico souto que se atravessa, a temperatura era bem agradável.

Eu já sei que, dada a situação actual, não é fácil pagar a funcionários que garantam que todos os locais estejam acessíveis ao público, em horário razoável. Mas pensar no investimento que foi feito e que a reinauguração aconteceu em Março deste ano…

E este é apenas um exemplo dos que ainda se mantêm. Muitos museus e centros interpretativos por esse país fora, alguns criados de raiz, encontram-se puramente encerrados por não terem sido acautelados, aquando da sua construção, os custos de manutenção, de programação, etc., que teriam que ser pensados para que pudéssemos usufruir, para lá de um futuro imediato, do nosso património. Aguardemos por melhores dias. Entretanto há que tomar por certo que os congelamentos afectam não só o nosso presente e o nosso futuro mas também chegam, em sentido inverso, ao nosso passado.

Um museu a visitar


Ana Lima,

Não há descrições da região do Douro que não falem da dureza do trabalho que teve que ser levado a cabo para construir uma paisagem como a que vemos quando percorremos as margens do rio. Miguel Torga escrevia, num dos textos mais conhecidos: “No Portugal telúrico e fluvial não conheço outro drama assim, feito de carne e de sangue…”. Não que seja sequer comparável mas, até para percorrermos os caminhos, feitos de subidas  e descidas, curvas e curvas e mais curvas precisamos de travar uma batalha, nós que estamos agora habituados às auto-estradas e vias rápidas. Mas, chegados ao nosso destino, sentimos que naquela batalha não houve vencidos pois se é o rio que impõe o seu ritmo ao viajante é este que se sente como se fizesse já parte daquela paisagem.

  

 

Foi essa sensação de pertença àquele lugar que, tenho a certeza, os arquitectos do museu do Côa (Tiago Pimentel e Camilo Rebelo) sentiram quando visitaram o lugar onde se construiria depois o edifício que actualmente se ergue não muito longe da foz do rio com o mesmo nome. A interferência humana na paisagem está ali bem presente mas é respeitadora  da organização que a natureza impôs e, no seu exterior, é possível observá-la em toda a sua beleza.

 

 

E depois há o interior onde podemos aprender muito sobre a ocupação do vale ao longo da história; sobre as gravuras; ver materiais recolhidos e réplicas magníficas; perceber as fundamentações das várias teorias; conhecer os aspectos mais técnicos do trabalho desenvolvido até agora.

 

 

Por todas estas razões é um local a não perder antes ou depois da visita aos núcleos das gravuras propriamente ditas. E nem é preciso estar de férias. Um fim de semana é suficiente. Além disso é uma oportunidade para percebermos que valeu a pena preservar aquele património que, desde 1998, é de toda a humanidade.

É sábado… Feira da Ladra


Ana Lima,

Há quase 20 anos que não ia à Feira da Ladra. Fui num dos últimos sábados. Continua a ser um local cheio de novidades apesar das coisas velhas que se vendem, sejam elas antiguidades, velharias ou apenas trastes.

Os sapatos usados e já sem forma, os discos que alguém ouviu, as cartas endereçadas com uma letra bonita, as chaves sem fechadura, as fechaduras sem chaves, as bonecas sem pernas ou sem olhos, os olhos sem bonecas.

Admiro quem se levanta cedo para ficar num bom lugar e estende um cobertor onde espalha os objectos mais estranhos, para quem não imagina de onde vieram, e depois volta a recolher quase tudo, vendida que foi apenas uma ou outra peça.  

Da minha única experiência como feirante, já lá vão tantos anos, recordo apenas o frio que passei, sobretudo nas primeiras horas daquele dia de Inverno, e a assunção de que o comércio não era, de facto, o meu forte. Mas não foi frustração que senti, antes um alívio por trazer de volta o que afinal não queria vender.

Naquela altura, os que espalhavam as suas coisas pelo chão pareciam-me todos novos,  jovens que aproveitavam para fazer uns trocos. Agora tive a sensação que há muitos velhos que, talvez por necessidade ou apenas para passarem o tempo ganhando algum dinheiro, ali ficam, tentando falar inglês com alguns turistas que parecem ser os mais interessados em velhas molduras com fotografias ou alfinetes de ama enferrujados.

– Esse modelo não tenho, responde um vendedor a alguém que queria um carregador para um telemóvel. – Mas ali, daquele lado, talvez arranje, diz, apontando. A solidariedade é substituída mais à frente por uma forte discussão entre dois homens, com muitos palavrões e ameaças à mistura.

Num dos cobertores estendidos encontramos, lado a lado, um livro sobre jardinagem e uma algália.

Alguns passos à frente um russo vende peças que, juntas, já foram fardas militares. Lá estão os chapéus, os casacos… Restos duma União Soviética que já só existe nos filmes. E, com olho para o negócio, mesmo que não venda sempre ganha algum dinheiro emprestando a farda a quem se quiser vestir e tirar uma fotografia.

Não comprei nada. Mas, de graça, trouxe o que queria trazer.

“Sims” de carne e osso


Ana Lima,

Reparei, na folha que acompanha a última factura de televisão, numa referência a um novo reality show que, de acordo com o que se diz, “é o espectador que controla a vida dos concorrentes e decide tudo o que se vai passar”.Terá início em Setembro no cabo e na internet.

Não discuto o impacto que este tipo de programas tem tido na luta pelas audiências.  A possibilidade de influenciar a vida de alguém, através de um simples telefonema; a sensação de controle que se poderá ter ao poder, a qualquer momento,  observar aquelas pessoas que até há dias atrás não conhecíamos mas sobre as quais sabemos agora tanta coisa… é, surpreendentemente, algo a que se adere com a maior das facilidades.

Mas há que alimentar as audiências, dando-lhes produtos cada vez mais sofisticados, aumentando mais e mais esse controle. Neste novo programa não é o comportamento dos concorrentes que é observado. Aqui ele é determinado de fora, conferindo a quem está do outro lado, sentado em casa, o poder de mandar. A definição de espectador não servirá mais para designar este novo conceito.

De um ponto de vista teórico, a questão parece-me interessante.

Mas, na prática, quando ontem vi o vídeo de apresentação do dito programa, não pude deixar de pensar no sentido de tudo isto. E até agora ainda não consegui perceber o que levará alguém a inscrever-se num programa que o transforma num boneco. Nem o que levará alguém a querer jogar um jogo com sims de carne e osso.

Imigração é…


Ana Lima,

Uma porta que se abre para um corredor completamente vazio onde as paredes já tiveram cor mas que agora se limitam a acentuar a escuridão.

Portas fechadas que dão para divisões que afinal são casas, onde as camas são os quartos e os fogões as cozinhas.

Um espaço comum, ao fundo, despido de tudo, com um só banco.

Um homem sentado nesse banco segurando um prato numa mão e um garfo na outra.

A solidão desse homem que faz a sua refeição pensando talvez em algum sítio muito, muito longe.

Notícias do reino da demografia


Ana Lima,

Já há alguns resultados preliminares dos Censos de 2011. Os números não são animadores (veja-se, por exemplo, aqui). E estes não representam taxas de juro, cotações em bolsa, impostos, valores do PIB ou PNB ou outros. Mas reflectem-se neles necessariamente. E porque esses números representam pessoas, representam-nos a nós, devem ser analisados com toda a atenção para que possam ser tidos em conta em futuras tomadas de decisão. Entretanto os técnicos do INE têm muito trabalho pela frente com o tratamento das respostas às questões colocadas nos inquéritos. A divulgação dos dados definitivos aguarda-se para o próximo ano.  

Duas opiniões actuais e um texto antigo


Ana Lima,

Numa altura em que o actual presidente e um ex-presidente comentaram a situação da Grécia recorda-se, sem qualquer intenção de concordância ou discordância, o que dizia Eça de Queiroz em 1872:

“Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão.
Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa –citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte.”

Eça de Queiroz, in ‘Farpas (1872)

Eu quero poder tomar café sentada!


Ana Lima,

Não ligo nada ao facebook. Mas até apetece criar um daqueles grupos que por lá se vêem para registar o protesto e ver o que dá.

É que não sei o que se passa nas outras cidades mas, em Lisboa, depois de, nos últimos tempos, a coisa ter melhorado, voltou-se à mania de, em muitos cafés e pastelarias, a determinadas horas, limitar a hipótese de ocupação das mesas aos que querem fazer uma refeição, deixando a quem quer beber um café a alternativa do balcão. Eu disse bem: cafés e pastelarias.

Ora para quem, como eu, gosta de tomar café com um grupo de colegas, fazendo uma pequena “tertúlia” diária após o almoço, não tem a vida facilitada. É que se já é questionável esta prática de transformar cafés e pastelarias em restaurantes temporários, fazê-lo proibindo outra utilização para a qual, à partida, o estabelecimento está mais vocacionado, parece-me um abuso que não deveria ser permitido. E é ver, quer nas esplanadas, quer no interior, mesas postas sem ninguém enquanto o letreiro informa que café na mesa só no final da refeição completa.

Onde está o espírito tradicional do café, como local em que se pode conversar bebendo calmamente… um café? Pelos vistos só se pode manifestar a certas horas. Talvez nas happy hours, agora tão na moda…

As provocações de Pessoa ao Delito


Ana Lima,

No dia em que passam 123 anos sobre o nascimento de Fernando Pessoa ficam aqui umas citações provocatórias:

 

“Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta.”

“Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor das tuas opiniões. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.”

“Uma opinião é uma grosseria, mesmo quando não é sincera.”

“Ter opiniões é a melhor prova da incapacidade de as ter.”

 

in PESSOA, Fernando / Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Lisboa, Relógio d’Água, 2008, págs. 184, 237, 252, 337

 

 

Socorro, tantas festas!


Ana Lima,

 

Estamos no mês, por excelência, das festas de Lisboa. Misto de sagrado e profano, todos os anos estas festas enchem ruas, praças, becos, sobretudo no que se convencionou chamar bairros populares que, nesta altura, se tornam locais de “romaria”.

No entanto há muito que estas festas se tornaram num pretexto para encher toda a cidade de actividades culturais que, sem querer parecer bota-de-elástico, não são só uma forma de romper com o ritmo normal do quotidiano, mas tornam-se numa parafernália de acontecimentos que,  para os nossos olhos, ouvidos e até para a forma como nos deslocamos no espaço, constituem constrangimentos e ruído a mais no dia a dia de quem frequenta a cidade. Assim, para além dos concertos, exposições  e arraiais populares temos, este ano, a roda gigante, provas de atletismo, arraial latino americano, arraial pride, festas do fado, regatas, cinema ao ar livre, fado nos eléctricos, jazz nas praças, performances musicais nas ruas, micro bailes, festivais de bandas, teatro nos comboios, e os “quase já outra vez tradicionais” casamentos. Isto tudo misturado com os fogareiros das sardinhas a assar e os grupos de turistas precedidos por um guia com uma flor espetada numa qualquer haste fazem-nos querer passar rapidamente esta época tão, tão festiva.

E agora, que já desabafei, vou-me preparar para ir até lá que este fim de semana as festas estão ao rubro!

Só um acrónimo infeliz…?


Ana Lima,

O VIII Congresso Europeu de Tribunais de Contas decorreu a semana passada em Lisboa. Os cartazes ainda se encontram em alguns mupis na cidade.

Eu sei que o nome da organização é mesmo assim: European Organisation of Supreme Audit Institutions. Mas há alturas em que mais vale substituir as siglas pelo extenso. Ou será que nos estão a querer dizer alguma coisa? 

 

As promessas dos políticos: o exemplo que vem de Itália


Ana Lima,

Berlusconi sabe que, por enquanto, face à falta de alternativas bem organizadas, por parte da oposição, ainda tem mais algum tempo para se manter à tona. Mas o discurso ameaçador não lhe fica nada bem.

Não sei se em Itália é conhecida a expressão “Pela boca morre o peixe” mas o seu significado deve ser bem claro, neste momento,  para Clemente Mastella e Umberto Bossi . 

Para quem não viu a notícia e está menos familiarizado com a língua italiana Clemente Mastella, líder de um partido, deputado europeu e antigo ministro num dos governos de Berlusconi, concorreu em Nápoles, nas eleições locais e regionais de domingo passado, e prometeu suicidar-se se perdesse para o adversário.  Mas esta promessa peregrina não tem a ver com os calores do Sul. Também o mais conhecido Umberto Bossi, líder da Liga do Norte, prometeu cortar os “tintins” caso não fosse o vencedor em Milão. 

Ora o facto é que ambos perderam e entretanto foram criados grupos no Facebook, com quase 45 mil apoiantes, no caso do primeiro, e 20 mil, no caso do segundo, que lhes relembram as promessas feitas. Claro que todos estes italianos já devem saber que as promessas dos políticos não devem ser levadas muito a sério. Mesmo assim, os políticos em causa, sobretudo Bossi, devem estar a pensar: – “Bolas!”… “Para a próxima, prometo só depilar as pernas”… E será que haverá próxima? Algo me diz que sim porque a dimensão da vergonha, face ao incumprimento das promessas, fica sempre muito aquém da facilidade e predisposição para as fazer .

Depois da morte, o ciberespaço


Ana Lima,

Os provérbios populares, como “Mortos à cova, vivos à fogaça” correm, hoje em dia, graves riscos de se tornarem obsoletos.  A ideia de prolongar a vida, no mundo virtual, para lá da morte parece que está a ganhar adeptos. Parece-me concorrência desleal ao espiritismo. Basta um computador com acesso à internet para que mortos e vivos possam encontrar-se agora num limbo onde os que já estiveram vivos podem, por exemplo, divulgar segredos a todos os que continuam vivos, sem que tal acto os possa prejudicar. Em termos pessoais e familiares isso pode ter consequências complicadas. Agora imaginem à escala de um país ou das relações entre países!

Elas também foram à Guerra


Ana Lima,

A estreia nas salas de cinema será só em Junho. Mas o novo filme/documentário de Marta Pessoa foi já apresentado no Indie Lisboa’11. Na plateia, as protagonistas viram-se, pela primeira vez, no grande ecrã e a emoção que se percebia na ansiedade antes do início, nas reacções durante a projecção e depois da ficha técnica acabar de passar, demonstra que o assunto está ainda muito presente nas suas vidas. E o assunto é a guerra, aquela que, entre 1961 e 1974, tocou tantas famílias portuguesas.

Num cenário que vai mudando consoante a narradora, as mulheres daquela guerra vão dando o seu testemunho, enquadrando-o na sociedade da altura e mostrando-nos que nem só as enfermeiras pára-quedistas (que estiveram em cenário de conflito) têm histórias para contar.

As que, por amor, por conveniência, ou simples acaso, acompanharam os maridos numa viagem que as marcou para sempre e aquelas que, tendo ficado, sofreram a separação, que para algumas foi definitiva, dão-nos  uma perspectiva muito interessante da vivência de uma guerra distante mas que se fez muito próxima.

E há ainda as que, após o regresso dos maridos, travaram batalhas sucessivas contra o que elas nem sabiam inicialmente que se chamava stress pós traumático e que prolongou aquela guerra muito para lá da data oficial.

Embora peque, na minha opinião, por ser demasiado longo, “Quem vai à Guerra” é um filme que nos informa; que nos diverte, através de olhares de quem, apesar de tudo, sabe usar o humor; e sobretudo que nos lembra que à guerra ninguém escapa, que da guerra, mesmo que passem 50 anos, ninguém se esquece.

 

Professores e Mestres


Ana Lima,

Professor Mamadu, Professor Suare,  Professor Kara,  Professor Salimo, Professor Biai, Professor Falo, Professor Keba, Professor Diakhaby, Professor Mestre Abibu,  Professor Mestre Cote, Professor Mestre Soare, Mestre Kubakela, Mestre Cissé, Mestre Adama, Mestre Kuba, Mestre Alanso Dado, Mestre Djana, Mestre Dabo Vicente, Mestre Lassana Cissé, Mestre Fati, Mestre Abdurádri, Mestre Ture,  Mestre Cassama, Mestre Bá, Mestre Sire, Mestre Lamine, Mestre Kadjali, Grande Mestre Juwara, Mestre Vidente Lcomane, Mestre Vidente Omar…

Basta abrir algumas páginas de alguns jornais e lá estão eles. E à saída do comboio ou do metro, impressos em cartões, mais ou menos rígidos, que os próprios ou outros entregam em mão. Os seus nomes lembram, quase sempre, as origens africanas que alguns fazem questão de explicar dando a conhecer os ascendentes familiares ligados a poderes de magias negras e brancas. Em muitos casos é referido o dom hereditário. São sempre homens.

Os serviços oferecidos, com algumas variações, são do domínio do oculto. E os problemas em que se assumem como especialistas vão dos mais prosaicos aos que tocam a complexidade mais absoluta. O amor, a saúde, a falta de dinheiro, os negócios, insucessos escolares, depressão, sorte ao jogo, harmonia matrimonial e a clássica impotência sexual estão entre eles. Mas há quem tenha influência no emagrecimento, na dificuldade em engravidar, nos problemas com a justiça, nos vícios do álcool ou da droga, nas casas assombradas. Chega-se a especificar certas doenças como a incontinência urinária, a diabetes ou a hepatite B. E há os que arranjam e mantêm emprego. E ainda os que garantem bons resultados no futebol.

Promete-se a resolução dos casos mais difíceis e desesperados. Sempre com sigilo absoluto. Muitos referem a rapidez, honestidade e eficácia como princípios a seguir sempre. O trabalho à distância, por carta ou pelo telefone, são também uma constante. E o pagamento é sempre  feito depois do resultado.   

Este é um fenómeno que me fascina. Nos meios rurais os “bruxos” sempre estiveram presentes. Em meio urbano, como é o caso destes de que falei (todos com morada em Lisboa), multiplica-se a oferta a cada dia que passa. Sinal de que a procura aumenta? É comum, de facto, tal acontecer em situações de crise e perante a falta de perspectivas de melhoria. Acreditar que é possível mudar a vida pagando a alguém para, de uma forma sobrenatural, intervir sobre o que nos preocupa pode parecer estranho a muitos. Mas, acreditem, fazem-no os mais insuspeitos.

Museus


Ana Lima,

Nesta quarta-feira, dia 18, comemorou-se o Dia Internacional dos Museus. Quase todos, gratuitamente, permitiram a entrada nas suas exposições. Apesar de este ano não ter aproveitado esta situação partilho aqui algumas reflexões acerca da função e actualidade dos museus.

Partindo de uma atitude de simples acumulação de objectos os museus nasceram com o objectivo de classificar esses mesmos objectos dando-lhes uma ordem, protegendo-os e valorizando-os. Mas só após a Revolução Francesa e o desenvolvimento dos nacionalismos se passa da ideia de colecção à de património contribuindo para reforçar as identidades colectivas em formação (não podemos esquecer as campanhas de Napoleão que encheram os museus franceses de peças “do império”). Mas, apesar dessa vocação democrática, de abertura ao povo, os museus apresentam-se em grandes palácios com escadarias monumentais que impressionam e restringem o acesso. Só bem mais tarde, já no séc. XX, se abandona a noção do museu como um templo ou um instrumento de educação e cultura ao serviço do poder instituído para se pôr ao serviço da sociedade, através, por exemplo, da participação da comunidade mais próxima, abrindo-o a exposições temporárias que reflectem a visão de determinados grupos unidos por questões profissionais, de idade, de interesses.

O museu, hoje em dia, já não é o local onde se vai em dias de chuva, quando não há nada mais interessante para fazer, espreitar para vitrines cheias de pó e onde não se pode tocar, falar, rir; mas um espaço apelativo que oferece múltiplas escolhas e que está ao serviço do público.

Mas para que esta situação seja real, o que vemos num museu tem que ser apresentado de modo claro e não hermético, articulando os objectos uns com os outros e com os contextos que os tornam perceptíveis.

Mas, sendo assim, quais os critérios para a escolha dos objectos que são dignos de serem conservados e expostos? Sobretudo numa altura em que a noção de património se alargou a quase tudo, da obra de arte reconhecida até aos objectos do quotidiano doméstico, até às memórias pessoais. E as formas podem ir da pintura e escultura clássicas ao património musical, às tradições orais de determinada comunidade, do material ao imaterial. Ora se tudo é património onde se poderá conservá-lo, exibi-lo? Numa altura em que o número de museus continua a aumentar a discussão de questões como estas parece importante. Não se estará com este alargamento a contribuir para o desaparecimento dos próprios museus, pelo menos da forma como têm sido entendidos até aqui?  

Esta coisa dos blogues


Ana Lima,

Foi no final de Maio de 2009 que entrei  neste universo dos blogues.  Fi-lo com um misto de curiosidade em relação a um mundo que tinha acabado de conhecer e  de vontade de registar algumas das ideias que, de vez em quando, me passam pela cabeça. Não é um diário que esses são feitos para guardar em gavetas e serem lidos apenas quando o seu autor deixa de transportar consigo a chave . A consciência de que o que escrevemos poderá ser lido por pessoas com quem nunca nos cruzámos faz aumentar a nossa ansiedade mas também o nosso prazer.  Passado este tempo os dias, os meus e os de todos nós, continuam imperfeitos. Faz, por isso, sentido, pelo menos para mim, continuar o registo das coisas que vão fazendo parte desses dias.

Entretanto surge o convite para a participação no 2711. Um blogue colectivo tem, necessariamente,  regras um pouco diferentes. A principal será talvez o respeito pelas opiniões, mesmo divergentes, de todos os membros. E nesse sentido, a equipa simpática que ali encontrei desde sempre me fez sentir em casa.

E agora o Delito de Opinião. Também aqui, tantas, mas tantas vezes, aquilo que leio está longe do que penso sobre algumas questões (aliás um dos meus primeiros comentários, se não o primeiro – sobre o Herman José -, deu origem a uma troca de argumentos com o João Carvalho). Mas tal nunca me impediu de voltar sempre aqui e não me impediu de aceitar, neste momento, o convite para fazer parte deste grupo a cujos membros aproveito para agradecer o facto de me acolherem.