Uma porta que se abre para um corredor completamente vazio onde as paredes já tiveram cor mas que agora se limitam a acentuar a escuridão.
Portas fechadas que dão para divisões que afinal são casas, onde as camas são os quartos e os fogões as cozinhas.
Um espaço comum, ao fundo, despido de tudo, com um só banco.
Um homem sentado nesse banco segurando um prato numa mão e um garfo na outra.
A solidão desse homem que faz a sua refeição pensando talvez em algum sítio muito, muito longe.

A expectativa é a pior das desilusões. Imigrar é procurar expectativas. O melhor é não sonhar muito, ou sonhar apenas.
Sempre admirei imenso os imigrantes/emigrantes. E muita dessa admiração tem a ver exactamente com a capacidade de sonhar que alguém demonstra quando procura, fora do seu horizonte conhecido, uma vida que não consegue ter. Para muitos as expectativas nunca serão alcançadas. Para outros só o serão em parte. Mas as desilusões também fazem parte do processo. Mesmo assim, “sonhar apenas” é fundamental.
Muito bem, Ana. Excelente texto.
Obrigada, Pedro. Ele corresponde a uma das situações concretas com que me deparo de vez em quando e que são sempre momentos de aprendizagem.
“divisões que afinal são casas, onde as camas são os quartos e os fogões as cozinhas.” É isso mesmo, Ana, um espaço tão apertado como os corações dos seus ocupantes, que ficaram muito longe. Gostei muito do texto.
Obrigada, Ana. E deve ser tão difícil, naquelas condições, dar ao coração, ainda assim, condições para sonhar, como disse o João Guilhoto acima.