P. S. Mas, como seria de esperar, isso já aconteceu.
Quando ouvi falar desta iniciativa pareceu-me bastante interessante. Agora, que sabemos que um dos responsáveis tem tanta dificuldade em conjugar o verbo dar, sobretudo na primeira pessoa do singular, fiquei com algumas dúvidas. Parece que a grande contribuição do senhor para a plataforma nacional de doação de objectos reutilizáveis não são bem objectos. Ou as dívidas também entram nessa categoria?
Diz-nos a mitologia (grega, pois claro!) que, após ter sido raptada por Zeus, Europa nunca mais foi encontrada pela sua família, que a procurou por todo o continente. O rei, seu pai, gritou por ela, desesperado, mas Europa não apareceu.
“O mundo já pouco tem para nos oferecer, parece muitas vezes constituir-se de pouco mais do que barulho e receio, mas o certo é que a erva e as árvores continuam a crescer. Quando um dia a terra estiver completamente coberta de caixotes de betão, as nuvens continuarão a correr no céu e adquirir sempre novas formas e aqui e ali as pessoas, por intermédio da arte, precisarão de manter uma porta aberta para o divino.”
in Hermann Hesse, Elogio da Velhice, Algés, Difel, 2003, p. 108
Os resultados destes estudos são para ser lidos à luz dos critérios utilizados e têm de ser contextualizados a vários níveis. Mas não deixam de ser interessantes.
E há algumas boas notícias: a primeira é que Portugal está no “Top Forty”; a segunda é que temos muitos amigos; a terceira é que, sem dúvida, o tempo por cá é bem melhor que na Dinamarca.
Agora a sério, podemos ir directamente à fonte. E até analisar mais em pormenor os dados sobre o nosso país.
Em Janeiro do próximo ano passarão 17 anos sobre a data em que jurei, por minha honra, cumprir com lealdade as funções que me seriam confiadas. Não o fiz por não ter qualquer outra hipótese de fazer outro trabalho, nem por pensar que, deste modo, iria ter uma vida descansada e em segurança para o resto dos meus dias. É certo que havia um certo alívio, depois de ter estado 6 anos em situações precárias de contratos a prazo e de avenças. (Aliás, actualmente, já nem estamos “nos quadros”. Temos sim um contrato de trabalho em funções públicas.) Mas voltando atrás, a razão era a mesma que me tinha levado a não aceitar trabalhar em empresas que, à partida, me assegurariam mais dinheiro ao final do mês mas menos certezas que o meu trabalho contribuiria para o bem comum.
Pois é, sou uma daquelas idealistas que acham que o Estado tem uma função indispensável e importantíssima a desempenhar em sectores que os privados, porque não têm essa vocação, não conseguem abarcar ou, pelo menos, levar a cabo com os mesmos pressupostos.
A actividade do Estado pode dar lucros. Mas a sua função é, acima de tudo, assegurar um conjunto de bases de funcionamento da sociedade. E todos nós sabemos que o cumprimento desse papel, não tem tido os resultados que se desejariam. Ao longo das últimas décadas, o Estado português (sem esquecer que também os privados e a União Europeia têm a sua quota parte de responsabilidade) não soube (ou não conseguiu) criar as condições para que houvesse um efectivo desenvolvimento, nomeadamente através da valorização do tecido produtivo. Conseguiu isso sim ser olhado como o culpado de uma situação que o ultrapassa em muito. Mas é para isso que ele também serve. Para ser um bode expiatório de uma sociedade que, não raramente, espera dele o que ele não pode dar.
Ao longo dos 22 anos que trabalhei na Função Pública assisti a muitos sucessos mas também a muitas situações que me desencantaram. Nunca deixei, no entanto, de sentir orgulho em ser uma servidora do estado, fórmula em desuso e que acarreta uma carga demasiado pesada para a maior parte dos que, como eu, não têm propriamente uma fé inabalável seja no que for. Nunca tive cargos dirigentes e duvido que alguma vez os tenha. O meu perfil é, ao mesmo tempo, pouco ambicioso e demasiado livre para tal. Mas gosto de cumprir o meu papel estando sempre ao serviço do interesse público. E este interesse público é o de todos. Todos os que são funcionários públicos e todos os que não são.
É talvez por isso que passarei a receber menos dois vencimentos por ano (até quando não sabemos pois à dependência da troika não vislumbramos o fim). Esta medida afectará todos, obviamente de forma diferente, consoante a situação de cada um. A mim vai custar-me muito. E o sentimento, associado a este, da incompreensão de tantos que, não só não estão solidários, como ainda pensam: é bem feito!, também não ajuda nada. E ainda existe um outro sentimento que se prende com o facto de perceber que esta incompreensão deriva da incapacidade dos próprios funcionários públicos alterarem essa visão que engloba, no mesmo conjunto, pessoas e atitudes profissionais completamente distintas.
As notícias de ontem deram conta desta situação (o despacho é este).
Com tantos considerandos e atendendo à “imprescindível utilidade pública deste empreendimento” certamente a questão legal fica assegurada. E as outras?
Lembram-se daqueles livros que, há alguns anos, toda a gente lia, do género “As Brumas de Avalon”? Pois foi exactamente naqueles ambientes que pensei ao visitar, no Inverno passado, esta quinta onde as árvores (pinheiros, carvalhos e castanheiros) se misturam com grandes penedos. A beleza do local, digo-vos, é imensa. O mesmo devem ter achado os habitantes da região que, há muito tempo, ali encontraram abrigos naturais. De facto, através de algumas sondagens arqueológicas, concluiu-se que aquele sítio teve ocupações humanas desde o início do Neolítico.
Não, não é um local turístico. Nem os proprietários desta quinta, que fica no concelho de Fornos de Algodres, o quererão transformar em nada de semelhante. E, no entanto, a natureza ali, ao mesmo tempo que nos remete para o passado, deixa-nos felizes por a podermos contemplar no presente.
Há uns dias falou-se bastante, por aqui, do acordo ortográfico. Pondo de parte, agora, a questão básica da existência do acordo (em relação à qual tenho muitas dúvidas, embora tenda a considerá-lo mais negativo do que positivo), tenho pensado bastante, nos últimos tempos, com o início do ano escolar, na forma como a sociedade em geral e a escola em particular irão lidar com a situação inédita, para muitos de nós, da coexistência simultânea de duas grafias e do surgimento constante de dúvidas concretas na aplicação do acordo.
E se na comunicação social o novo acordo tem penetrado paulatinamente, nas escolas não entendi ainda como será operacionalizada a sua introdução. Os programas, os manuais das diversas disciplinas, a formação dos professores que alterações terão que introduzir?
E em casa? O que vamos nós fazer? Os nossos filhos passarão a escrever de uma maneira e nós, mais avessos à mudança, deliberadamente ou não, de outra? Já são tantas as coisas que nos afastam e agora até a forma como escrevemos?
E os avós, que dão uma ajudinha e para quem, ao longo da vida, não têm visto grandes alterações a este nível? Será que se conseguirão habituar?
Cá para mim já será bom se os miúdos, perante as duas hipóteses, não optarem por uma terceira: a das grafias abreviadas das escritas de mensagens via telemóvel e redes informáticas.
Estas vão ganhando terreno e entraram já na linguagem verbal. As minhas filhas, por vezes, dizem já: obg, em vez de obrigada; MG em vez de My God; e pior ainda, já não riem, limitando-se a dizer Lol.
Claro que todas estas angústias serão ultrapassadas daqui a algum tempo. Mas, por enquanto, não deixam de me preocupar.
Isto de só ter tempo para os blogues tarde e a más horas é o que dá. Corro o risco de vir já um pouco fora de contexto (agora que a discussão está praticamente encerrada). Mas porque este é um tema que me interessa e sobre o qual já estudei algumas coisas pensei que poderia meter a minha colher.
Terão razão os dois “Luíses”. Cada um, dentro de uma perspectiva diferente. Eu concordo com o Luís Menezes Leitão em alguns aspectos e com o Luís M. Jorge noutros. E, ponto prévio, gosto, de uma forma geral, de graffiti.
Há quem considere as pinturas e gravuras rupestres a primeira forma de graffiti, confundindo-se, assim, com a primeira forma de arte. Mesmo não indo tão longe é unanimemente aceite que o graffiti se tornou fundamental na civilização romana uma vez que não havia parede que não fosse aproveitada para inscrever, a carvão (daí o nome), os protestos, as ordens, os acontecimentos públicos, aquilo que se queria dizer a alguém sem se denunciar a autoria. (Se se lembrarem da série “Roma” era assim que as paredes apareciam e os historiadores dizem que é um retrato fiel daquela altura). Ao longo dos séculos nunca deixou de se escrever e desenhar nas paredes. Passando para um tempo bem mais perto de nós, quando, em Maio de 68, os muros serviram de suporte das mensagens era a transgressão que contava. Foi essa transgressão que levou muitos a adoptarem os muros e os comboios das cidades norte americanas, nos anos 60 e 70 do século passado, como as telas onde eram desenhadas imagens e mensagens de protesto, utilizando já não o carvão mas materiais mais recentes como eram as tintas em spray. Foi esse movimento que se estendeu a todo o mundo, tornando-se uma forma de arte urbana. O muro de Berlim foi durante anos estudado, os artistas mais emblemáticos (Jean-Michel Basquiat, por exemplo, ou mais recentemente Banksy) foram alvos de teses. Também os grandes museus do mundo fazem exposições de obras de graffiters. Em Portugal o Museu Efémero foi uma iniciativa interessante no Bairro Alto, em Lisboa. Ainda agora, de vez em quando, aparecem, naquele bairro, obras de artistas “consagrados” no meio. E a exposição do ano passado, no museu do CCB, dos “Gémeos” brasileiros estava muito bem conseguida.
E os “Gémeos” trazem-me à actualidade. São eles os autores dos graffiti que a Câmara de Lisboa autorizou nos edifícios da Av. Fontes Pereira de Melo. Neste momento vale a pena dizer que a terminologia associada a esta arte urbana é imensa e que distingue vários tipos de inscricões e vários tipos de graffiters. Mas mesmo não falando dessa questão aqui, não se pode deixar de distinguir o que é a complexidade de um graffiti, de um conjunto sem nexo de tags, as malfadadas assinaturas, que aparecem na primeira fotografia do Luís Menezes Leitão (na R. Diário de Notícias, parece-me) e que são, normalmente, feitas apenas para marcar um território ou meramente com a intenção deliberada de sujar. (Em Portugal não se utiliza tanto mas no Brasil distingue-se completamente entre graffiti e pichação). Nem podemos pensar que qualquer parede poderá servir de suporte aos graffiti. Os “verdadeiros graffiters” normalmente seleccionam criteriosamente esses suportes.
Então o que podem ou devem fazer as câmaras? Não é por nunca terem pensado no assunto que ele não é resolvido. Algumas autarquias reprimem, pura e simplesmente o que, até agora, não se tem revelado eficaz. Os graffiters são transgressores e o risco de ser apanhado faz parte das condições de realização dos trabalhos. O principal debate está em saber se se deve dar um enquadramento legal, disponibilizando espaços onde os artistas possam desenhar com o compromisso de o fazerem apenas nesses locais. A Galeria de Arte Urbana, em Lisboa, ou as pinturas de viadutos e túneis no município de Oeiras são disso exemplo. Mas, dentro da comunidade de graffiters, muitas são as vozes que entendem que essa situação é uma subversão completa do espírito do graffiti que inclui sempre o elemento transgressor e que a sua institucionalização não faz qualquer sentido.
No Porto não sei se já foi feita alguma coisa neste âmbito mas em Lisboa optou-se por uma situação mista. Ao mesmo tempo que se põem à disposição espaços próprios (os painéis na Calçada da Glória, por exemplo), avançam-se acções de limpeza de fachadas. Quem conhece o Bairro Alto sabe que, de há uns meses a esta parte, tem sido feita uma campanha de remoção de graffiti, limpeza e repintura de paredes que, em algumas ruas, tem feito uma enorme diferença. A ideia da autarquia era estender a acção a outros bairros. Mas o contrato com a empresa acabará e a fiscalização, que hoje em dia é diária e tem corrigido as situações que todas as manhãs surgem, não poderá ser feita eternamente. A fiscalização policial também existe mas, tal como em tantos outros casos, não é, nem nunca será, suficiente. Falou-se nas câmaras de vigilância que podiam ajudar a esse controle mas também não chegaram a ser instaladas. Os moradores estão satisfeitos com o esforço mas as verbas para o efeito são limitadas e para a câmara é um verdadeiro trabalho de Penélope.
Elas não podem mostrar o rosto em público. Elas não podem conduzir sozinhas. Elas não podem falar directamente com o seu professor. Elas não podem viajar sozinhas para o estrangeiro. Elas não podem ir ao médico por sua livre vontade. Elas não podem entrar e sair pelas mesmas portas que os homens nos locais públicos. Elas não são contratadas pela maior parte das empresas. Elas não podem falar em direitos sem que sejam castigadas. Ontem ficámos a saber que, daqui a quatro anos, já poderão votar e concorrer nas eleições municipais. Não posso, no entanto, deixar de pensar que em quatro anos muitas coisas poderão acontecer. Esperemos que, entretanto, outros passos sejam dados por forma a alterar a forma como a mulher é encarada naquele país. E que os conservadores e ultraconservadores não aproveitem este tempo para lançarem novas “fatwas” que tornem a medida, anunciada hoje pelo rei, absolutamente esvaziada de conteúdo.
Os cientistas sociais há muito que estudam os fenómenos ligados às transformações que têm ocorrido, nas últimas décadas, na composição das famílias, bem como as implicações dessas transformações na forma como a sociedade se reorganiza. Mas situações como estas, que passam da mera pressão suave para a acção judicial, é que muitos não antecipariam. Mais uma vez, a dinâmica social nos vai surpreendendo.
… parece-me boa ideia relembrar o que disse António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, numa entrevista ao JL/Educação em 2005. Questionado sobre o papel da escola e sobre as exigências que a sociedade lhe faz, dizia: “À escola cumpriria salvar o mundo e reparar todos os males. Perante isto eu faço uma provocação aos outros (e até a mim próprio), defendendo uma escola retraída, mais modesta e mais concentrada nas tarefas da aprendizagem.”
Má notícia para quem acha que o mundo gira todo à sua volta.
(E advirto desde já que não ponho em causa a parte do grande futebolista. E pensando bem a do rico…)
Chamamos-lhe 11 de Setembro. O ano não é mencionado pois sabemos que seja ele qual for continuaremos a estremecer perante a menção desta data e perante a recordação do que estávamos nós a fazer enquanto, em directo de Nova Iorque, as televisões nos mostravam que é sempre possível ir mais além no horror, mergulhar mais fundo na incapacidade de compreender o outro, reconhecer as nossas limitações enquanto seres humanos. Cada um de nós lembra-se desse dia com uma memória precisa pois não nos basta rever as imagens dessa terça-feira que passaram vezes sem conta. Torna-se necessário voltarmos a nós, à nossa escala, para encontrarmos algo que faça sentido. O mal, quando nos ultrapassa, pela sua dimensão, deixa-nos longe das razões, das certezas. Tudo é abalado. Regressamos então a nós, como se convocássemos o nosso instinto de sobrevivência e nos quiséssemos salvar frente a uma crueldade que nos atinge a todos, em cheio. Pensamos então que há datas que era bom podermos esquecer. Mesmo que saibamos que nunca o faremos. Esta é uma delas. Chamamos-lhe 11 de Setembro.
Eu sei que o tempo, este que é o nosso, nos puxa para aquilo que é mais terreno e que a realidade que nos cerca nos limita os pensamentos, que parecem concentrados em temas mais prosaicos.
Mas é exactamente nestas alturas que não nos devemos esquecer da poesia e do facto de serem os poetas a dizerem as coisas mais importantes, aquelas que permanecem.
É por isso que o blogue que escolhi como blogue da semana é o As Folhas Ardem. Nele o seu autor, que também escreve, sugere-nos, com regularidade, a leitura de poesia, acompanhada sempre de imagens escolhidas a preceito. Muitos autores consagrados e sobretudo muitos autores mais jovens cabem ali, lembrando-nos que a poesia, a boa poesia, não tem idade.
A primeira vez que estive na Festa do Avante foi no primeiro ou segundo ano em que se realizou na Quinta da Atalaia, pela mão de um namorado, que, pertencendo à JCP, nela trabalhou arduamente. Depois disso, poucas vezes lá fui. Este ano (ontem) foi uma delas.
Podia falar da boa organização; da enorme quantidade de gente que vi por lá; da alegria que, apesar da crise, li nos rostos; da mistura de gerações que nos faz ver velhos nos concertos de música mais alternativa e jovens nas actuações dos grupos de folclore; das excelentes pataniscas de bacalhau comidas no pavilhão de Viana do Castelo; dos quadros horrorosos que se vendiam no balcão do Partido dos Trabalhadores da Coreia (do Norte), talvez reproduções de alguns pintados pelo “grande líder”; do concerto dos Trovante do qual, apesar de ser um grupo que há já muitos anos deixou de me entusiasmar, gostei muito; ou de questões, mais de fundo, como o facto de, a par da evolução, a muitos níveis, se sentir também a vetustez de algumas teorias expressas em debates que mais parecem conferências de um só orador.
Mas falo antes das t-shirts que os visitantes vestiam e que exibiam recados ou demonstravam preferências. Nestas, o desenho baseado na foto tirada por Alberto Korda, de Che Guevara, continua a ser largamente predominante. Variava a cor, o tamanho, mas aquele rosto com a bóina lá estava. No meio de muitas t-shirts com o mesmo motivo, uma me chamou mais a atenção. Num dos lados, por cima da imagem de Che estava, não uma frase revolucionária, mas o logotipo e o nome de um dos maiores bancos portugueses.
Associada a momentos importantes da nossa História, sobretudo do séc. XX (desde o regicídio ao 25 de Abril de 74), vem-lhe o nome do Arsenal da Marinha, ali construído no século XVIII. Mas desse lado do passeio quase não vemos ninguém.
É do outro lado que tudo se passa. Aqui é a palavra Portugal que mais se nos impõe. As lojas vendem-na impressa em sacos, t-shirts, isqueiros, reproduções de chaminés, artesanato que oscila entre aquele que é real e o que se produz em massa para alimentar a sede dos turistas que querem levar, para as suas terras, algo que lhes lembre que aqui estiveram. E é exactamente a palavra Portugal que distingue aquela t-shirt das iguaizinhas que foram compradas em Madrid ou Paris…
Ao lado, as mercearias que, essas sim, têm produtos portugueses, vendidos da mesma forma há décadas (manda a tradição familiar que sejam aqui comprados os frutos secos no Natal. E acreditem que não há melhores!).
O bacalhau, exposto em bancas junto à rua, dá-lhe aquele cheiro característico que todos lhe reconhecem. A este junta-se o dos gases que saem dos tubos de escape dos autocarros que param e arrancam e de onde saem pessoas que caminham, quase sempre com dificuldade, por aquele passeio estreito onde se cruza tanta gente.
Mesmo assim ainda há lugar para o mendigo que, quase todos os dias, ali se encontra. Uma escolha acertada, que poderia ser fruto de um estudo apurado de marketing que tivesse estudado o número de pessoas que por ele passam diariamente.
Fintando os autocarros, as crianças brincam junto ao passeio e circulam nas suas bicicletas, enquanto os pais, lojistas, as observam e conversam, numa língua que não identifico, com quem trabalha na loja ao lado, até que um cliente resolve perguntar o preço de um dedal decorado com a Torre de Belém.
Pelo meio, uma loja de jogos onde os apostadores deixam as suas esperanças depositadas até à semana seguinte ou até ao próximo sorteio.
Parece uma rua só com um lado. Mas aqui não há lados certos ou errados.
José Augusto Mourão morreu em Maio deste ano. Era dominicano, director do Instituto São Tomás de Aquino e professor na Universidade Nova de Lisboa, na área da Semiótica e da Linguística. Questões religiosas à parte, o que escreveu sobre comunicação deveria ser lido por todos os que se interessam pelo tema. O seu último livro, deste ano, editado pela “Pedra Angular” (que não li todo infelizmente) é “Quem vigia o vento não semeia”. Nele escreve: “Os verdadeiros trapaceiros nunca avançam mascarados. A visibilidade de «mostrar tudo» é hoje o seu reino. Os totalitarismos mostram o Tudo e dissimulam o Nada. O visível e o invisível são indissociavelmente os seus instrumentos. A gestão da imagem pode dizer uma coisa e o seu contrário. Não é o que se vê que é a fonte do que o visível faz entender.”