Sentimentos e contradições


Ana Lima,

Em Janeiro do próximo ano passarão 17 anos sobre a data em que jurei, por minha honra, cumprir com lealdade as funções que me seriam confiadas. Não o fiz por não ter qualquer outra hipótese de fazer outro trabalho, nem por pensar que, deste modo, iria ter uma vida descansada e em segurança para o resto dos meus dias. É certo que havia um certo alívio, depois de ter estado 6 anos em situações precárias de contratos a prazo e de avenças. (Aliás, actualmente, já nem estamos “nos quadros”. Temos sim um contrato de trabalho em funções públicas.) Mas voltando atrás, a razão era a mesma que me tinha levado a não aceitar trabalhar em empresas que, à partida, me assegurariam mais dinheiro ao final do mês mas menos certezas que o meu trabalho contribuiria para o bem comum.

Pois é, sou uma daquelas idealistas que acham que o Estado tem uma função indispensável e importantíssima a desempenhar em sectores que os privados, porque não têm essa vocação, não conseguem abarcar ou, pelo menos, levar a cabo com os mesmos pressupostos.

A actividade do Estado pode dar lucros. Mas a sua função é, acima de tudo, assegurar um conjunto de bases de funcionamento da sociedade. E todos nós sabemos que o cumprimento desse papel, não tem tido os resultados que se desejariam. Ao longo das últimas décadas, o Estado português (sem esquecer que também os privados e a União Europeia têm a sua quota parte de responsabilidade) não soube (ou não conseguiu) criar as condições para que houvesse um efectivo desenvolvimento, nomeadamente através da valorização do tecido produtivo. Conseguiu isso sim ser olhado como o culpado de uma situação que o ultrapassa em muito. Mas é para isso que ele também serve. Para ser um bode expiatório de uma sociedade que, não raramente, espera dele o que ele não pode dar. 

Ao longo dos 22 anos que trabalhei na Função Pública assisti a muitos sucessos mas também a muitas situações que me desencantaram. Nunca deixei, no entanto, de sentir orgulho em ser uma servidora do estado, fórmula em desuso e que acarreta uma carga demasiado pesada para a maior parte dos que, como eu, não têm propriamente uma fé inabalável seja no que for. Nunca tive cargos dirigentes e duvido que alguma vez os tenha. O meu perfil é, ao mesmo tempo, pouco ambicioso e demasiado livre para tal. Mas gosto de cumprir o meu papel estando sempre ao serviço do interesse público. E este interesse público é o de todos. Todos os que são funcionários públicos e todos os que não são.

É talvez por isso que passarei a receber menos dois vencimentos por ano (até quando não sabemos pois à dependência da troika não vislumbramos o fim). Esta medida afectará todos, obviamente de forma diferente, consoante a situação de cada um. A mim vai custar-me muito. E o sentimento, associado a este, da incompreensão de tantos que, não só não estão solidários, como ainda pensam: é bem feito!, também  não ajuda nada. E ainda existe um outro sentimento que se prende com o facto de perceber que esta incompreensão deriva da incapacidade dos próprios funcionários públicos alterarem essa visão que engloba, no mesmo conjunto, pessoas e atitudes profissionais completamente distintas.

6 comentários em “Sentimentos e contradições”

  1. ‘E o sentimento, associado a este, da incompreensão de tantos que, não só não estão solidários, como ainda pensam: é bem feito!, também não ajuda nada.’ – Exactamente o que sinto. Além de tudo o que nos roubam ainda nos esfregam na cara ufanos que é bem feito.

    1. A fama de sermos demasiado bem pagos para aquilo que fazemos acompanha-nos. Por esta má razão há muita inveja. Pena que não seja por outros motivos, Leonor…

  2. *
    Ontem, Jerónimo de Sousa dizia “não sabe o que é a vida”, ao que Passos Coelho respondeu “eu sei o que é a vida. Eu sei.”
    Um saído do Sindicato dos Metalúrgicos, funcionário do PCP, outro uma sombrita no PSD, na jotinha respectiva, fizeram as suas vidinhas. Um luta por ideal, e ao que muitos morreram (algo de bom, é certo), outro num partido que ainda não se sabe liberal ou social-qualquer-coisa-da-treta e que só Sá Carneiro e Mota Pinto legitimamente sabiam.

    Ambos encostados à vida partidária. Directa ou Indirectamente não eram esquecidos. O último é Primeiro-Ministro de Portugal e já se percebeu que mesmo na Oposição não estudava, não percebia do que se estava a passar, só sabendo os “clichés” que qualquer jornalista o saberia, e já mentiu uma dezena de vezes.

    Vieram falar de “vida”. Sim, das “vidinhas” que têm, com ar de sobranceria, aparentemente muito cerimoniosos. Como se as deles tivessem a ver com as nossas, numa conversa que se assemelhava mais àquela que se diz num vão de escada ou num café, de ar revoltado ou com pura inveja. Todos temos uma vida. Mas há umas que responsabilizam mais. A deles. E o que se vê, é a mais completa ignorância. Diária. Confrangedor.

    Percebo a Ana.
    Muito portugueses que trabalham no Estado, dia após dia, vão desempenhando tarefas que os privados não podem, ou não devem abarcar. Juram fidelidade ao serviço. São serviços de missão. Só os mendigos trabalham por dinheiro.

    Altos Quadros do Estado que não têm filiação partidária, nem estão por “cunha”, alunos reconhecidos ou pessoas reconhecidas pela sua personalidade de liderança, foram assistindo “ao fazer obra” do tiranete local, aos arrufos do boçal cidadão (que os há e não são poucos) que em face da contrariedade à norma injuriava com “com quanto isto se resolve?”, aos desfiles das vaidades do mundo mas o cumprimento do “fisco” não era com eles e até pagavam a advogados metade do que pilharam e que é nosso, aos elogios da “fuga” ao dever do anónimo local perante a coima, aos desabafos do cidadão honesto, cumpridor e carregado de razão…que felizmente também havia e vinha sendo raro.

    Ontem acordaram e puderam reflectir sobre o que estavam a fazer no Estado e na sua tarefa.
    Muitos tiveram esse pensamento pela primeira vez.

    Muitos Quadros do Estado vão ponderar nos próximos meses sair. Não se pense que estão no Estado porque nada mais havia na altura e o objectivo era um emprego. Não. E os privados sabem. Os mais competentes porque mais habilitados e capazes, sabem quem são.

    Mas esses Quadros perderão o que mais se orgulhavam para si próprios: serem ministros, isto é, servidores do bem comum e em face de contrariedades diárias.
    Esses Quadros não eram despesa, realce-se.

    O Estado ficará com menos massa cinzenta.

    Virão uns com Bolonha no certificado. Com manias adquiridas à sombra, não da disciplina, mas do desrespeito permanente à hierarquia porque assim eram com os pais e professores. Virão uns que não percebem o que é jurar o cumprimento de funções, nem sabem que o horário no Estado é indicativo, e nunca imaginaram trabalhar com isenção de horário. Poucos saberão, o que é ter espírito de missão.

    Retomando, aqueles, aqueles têm a vida deles, mas pouco serviram, um por falta de oportunidade, apesar da sua bonomia, outro porque não estudou, como já se percebeu (e podia-se perceber há meses). Não estudou.

    Não é a mesma coisa para quem se dedicou…receber o corte daquilo que já ia para o seguro do carro ou da casa, ida aos saldos, ou para tirar uma viagem merecida, ou até uma colecção de livros a propósito da actividade que exercem e que nunca são pagos pelo Estado. Não é a mesma coisa quando já tinha sido expropriado sem justa indemnização. Não é.

    Não vai ser a mesma coisa. Não vai. E como bem percebo a Ana e centenas de Portugueses que não se puseram durante anos a fio no rosário das lamentações.

    Esta sociedade não é pontual, não cumpre ponto por ponto, e não é verdadeira. Têm os políticos à sua imagem, e …às suas vidas. Até elegem um Tribunal Constitucional que os desculpa com um estado de emergência que falsamente diz que não há outras alternativas- A alternativa era o Estudo quando estão na Oposição ou quando estão no Governo!

    Não podiam falar sobre o que é a vida. BEM HAJA, ANA

    1. Obrigada pelo seu comentário. Levanta aqui algumas questões pertinentes que raramente são referidas. A dificuldade em entender a situação dos que estão no exterior do que é a nossa vida mais restrita é um handicap ” que só se resolverá com uma vontade férrea de o fazer porque raramente quem está no poder utiliza a empatia como uma ferramenta que lhe permitiria chegar mais facilmente a decisões adequadas.
      Quanto à saída de técnicos qualificados do estado é um risco que se corre. Com salários baixos é provável que quem tenha possibilidades de ter um emprego melhor remunerado o faça. Mesmo contrariando alguns princípios. Princípios esses que, lembra bem, deveriam estar presentes na vida de todos, políticos incluídos. E continuamos tão longe…

  3. Ana, a vida de cada funcionario publico é hoje um drama. Uma pessoa está a olhar para a tv e de repente percebe que os seus rendimentos vão baixar em 15 ou 20%.
    P problema dos funcionarios publicos é que são demais. E a solução era entre despedir mais de cem mil, ou baixar os vencimentos de todos. Entre uma solução e outra, não lhe sei dizer qual é a menos má. Mas sei que uma delas teria que ser adoptada.
    Para acabar, digo-lhe que a minha mulher tambem vai sofrer esses cortes. porque trabalha na admnistração publica. Sei bem do que está a falar.

    1. Como em muitas outras situações há, de facto, funcionários públicos a mais. Mas também os há a menos dependendo das áreas profissionais. Fazer uma boa gestão de recursos humanos na AP não é nada fácil. Mas é prioritário.

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