O Metro do nosso descontentamento


Ana Lima,

Por muitas razões, das quais não vou agora falar, sou uma defensora da utilização dos transportes públicos. Apesar de gostar muito de andar a pé em Lisboa, utilizo, entre outros, o metro, com alguma frequência. É inegável o esforço que tem sido feito para melhorar a qualidade da sua utilização. A rede tem sido aumentada, as estações renovadas e, à excepção de algumas alturas do dia, as viagens não são desconfortáveis.

No entanto, nos últimos dias…

Provavelmente por contenção de custos, a circulação na linha verde faz-se agora (ainda não percebi se durante todo o dia, se apenas a algumas horas), apenas com três carruagens. Algumas das consequências deste facto são:

– as correrias nas plataformas de quem está desatento aos avisos ou simplesmente não consegue ler à distância em que o painel informativo se encontra. Esta situação é agravada no caso de pessoas idosas;

– a rápida saturação do espaço nas carruagens (hoje alguns casais estrangeiros, com crianças e carrinhos, não conseguiram entrar numa das estações, não apenas por não haver lugares sentados mas porque não conseguiam mesmo entrar – e isto à hora de almoço);

– a acumulação com o descontentamento já existente, face ao aumento do preço das viagens e a situações, que espero pontuais, mas que acontecem cada vez mais, como o não funcionamento de elevadores e escadas rolantes (pelo menos na estação do Cais do Sodré);

– o stress de uma viagem em que, não bastando a situação de irmos colados a vários desconhecidos, ainda temos que ouvir todas as lamentações e vociferações de quem se sente tão mal servido.

Sabemos que a aplicação de medidas de racionalização e emagrecimento é um imperativo inevitável mas impõe-se que ela seja feita criteriosamente para não se retroceder demasiado no tempo e para que não se afastem as pessoas dos transportes públicos, o que é contrário a tudo o que se deseja para uma cidade moderna.

Não sei se esta medida está em vigor ou se se encontra prevista para outras linhas. Sei, no entanto, que os investimentos que têm sido feitos na melhoria das estações, no seu alargamento, a oferta de actividades culturais, não fazem qualquer sentido se as carruagens não servirem para transportar os utentes com um mínimo de qualidade. E transformar o dia inteiro numa hora de ponta contínua diminui-a substancialmente.

Mesmo adoptando apenas um ponto de vista economicista, estas medidas não servirão certamente para fortalecer a empresa. Muito provavelmente diminuirão os custos mas, a médio e longo prazo, diminuirão também os ganhos.

Por enquanto nós já estamos a perder.

Nome emprestado e a prazo


Ana Lima,

Depois das estações de metro, os teatros. É certo que as obras de manutenção de um edifício como o Teatro Tivoli, dados os custos envolvidos, provavelmente, só desta forma poderiam acontecer. O pai adoptivo UAU e o padrinho BBVA estão, com certeza, muito satisfeitos. Mas acrescentar um apelido destes soa tão estranho… E ainda bem que optaram pela sigla. Teatro Tivoli Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, embora certamente mais imponente, seria ridículo. Eu não dei pela cerimónia de aspersão mas deve ter sido muito discreta.

Um domingo de Inverno na cidade


Ana Lima,

Hoje levantei-me cedo. Fui à procura da cidade. Daquela que nos outros dias está escondida atrás de autocarros e automóveis, de sons fortes, de gente apressada. Também gosto dela assim. Mas hoje quis vê-la mais livre. E foi dessa forma que a encontrei. Com as esplanadas vazias, que os clientes preferiam o interior dos cafés para fugir ao frio que cortava, com as ruas que pareciam grandes, por nelas tão poucos carros circularem, com as pessoas encolhidas fugindo das sombras dos edifícios, comigo a procurá-la e a senti-la de muito poucos, sabendo que amanhã já será de muitos. Contrastando com o vento que soprava sem encontrar obstáculos pelas avenidas, a Lisboa de hoje era feita de um lento vagar. Eu deixei-me ir. E se sua cúmplice me senti foi porque amanhã, quando voltar, ambas saberemos que ela também pode ser assim, capaz de nos acolher, mesmo quando ela própria descansa. 

Feriado é quando um homem quiser. Sim, mas…


Ana Lima,

Têm razão muitos dos que dizem que os feriados servem apenas como dias de descanso e não constituem, de uma forma geral, dias especiais em que recordamos e comemoramos um determinado acontecimento, seja ele historicamente ou religiosamente relevante. Quantos de nós não ouvimos dizer, nesses dias: “mas afinal o que é isso do Corpo de Deus?”. Ou então: “o que é que aconteceu a 1 de Dezembro”? É verdade que na festa do Corpo de Deus muitos católicos aproveitam o dia para ir à praia e que a restauração da independência é um acontecimento a que já poucos atribuem importância, servindo o dia apenas para antecipar as compras de Natal. Para os que querem continuar a comemorar estas e outras datas não é o facto de terem que trabalhar que os impedirá. O dia do nosso aniversário é um dia normalmente especial para nós e, a menos que tenhamos a sorte de termos nascido num dia feriado, ou seja fim de semana, temos que fazer férias ou comemorar fora do horário de trabalho. Isto faz sentido, sim.

No entanto, sabendo nós a fraca consciência histórica que temos, não posso deixar de pensar que, deixando de assinalar determinadas datas, torna-se muito mais difícil manter, na consciência colectiva, referências fundamentais para a nossa identidade enquanto país. Poderão argumentar que isso já está fora de moda. Ou que, se há valor que temos em abundância, é a identidade enquanto país com tão antigas fronteiras e História; pelo que não é acabando com os feriados que ela será posta em causa. Mas a verdade é que, nas escolas, é, muitas vezes, o facto de haver um feriado que constitui um pretexto para se aprofundarem episódios importantes da nossa História. E é em cima do acontecimento que as perguntas das crianças sobre este ou aquele dia em particular surgem e que as respectivas explicações são melhor ouvidas e incorporadas, de facto, no seu processo de socialização.

Desta forma, as crianças deixarão de ter esse pretexto para questionarem os adultos e, daqui a algum tempo, a restauração da independência ou a implantação da república serão esquecidas para serem apenas mais umas datas nos manuais. E a culpa será de uma conjuntura económica particular, de três organizações exteriores e de um governo que certamente, à semelhança de outros, não ficará para a História.

E não são só avançados…


Ana Lima,

Do futebol no Brasil já se conhece o suficiente sendo que o movimento continua a fazer-se sobretudo de lá para cá… Já na Rússia parece ser ao contrário. Na China temos como treinador do ano o grande “Pa Qie Ke”. E agora, deixando os países que taxas de rating atiram para o lixo, jogadores e ex-jogadores de futebol europeus (e outros também para ser correcta) rumam à Índia, uns com um espírito mais mercantil, como Robert Pires, outros com preocupações mais altruístas, como Fernando Couto. As perspectivas económicas para estes países apontam para um crescimento tal que rapidamente suplantarão as economias dos países mais ricos actualmente. Será isto visão de jogo? Não sei para que lado atacarão estes craques mas a escolha do campo está feita. Parece que por terras de BRIC’s o futebol dói menos.

A verdade do rosto


Ana Lima,

O filme vem aí. Mas não é esse o assunto agora. Esta é a capa da última edição da Revista M do jornal francês Le Monde. O fotógrafo é Martin Schoeller, que durante anos foi assistente de Annie Liebovitz.
Clint Eastwood tem 81 anos e não precisa de Photoshop. Não são as suas rugas que nos mostram a sua grande sabedoria. Mas elas aí estão para nos lembrar que já é longa a história de uma vida que nos tem dado tanto. E ninguém discordará que é assim que nós o queremos ver!

Um verdadeiro dilema


Ana Lima,

Ontem de manhã, por ter de esperar a minha vez num consultório, dei por mim a ver um programa de televisão (vi agora numa pesquisa que se chama “Cartas da Maya – O Dilema”) no qual a taróloga Maya respondia às dúvidas de uma senhora que tinha ligado para o canal através de um número de telefone começado por 760. Segundo se dizia são consultas de orientação pessoal ao vivo e em directo. Para lá da importância que se atribui à tarologia, numerologia ou astrologia a forma como as previsões ou conselhos são interpretadas por cada um também varia. Mas confesso que fiquei verdadeiramente boquiaberta quando, perante queixas de dores nas costas, por parte da tal senhora, ouvi, num tom de voz peremptório, expressões como: “é um problema muscular, não é grave, não é operável, passa com anti-inflamatórios”. E, pelos vistos, há várias “consultas” deste género por programa.

Podemos pensar, claro, que ninguém confia, mais que um tanto, nestes conselhos. Quando muito considera-os complementares. No entanto só a existência da dúvida numa matéria deste tipo parece-me bastante grave. Tanto investimento na formação de médicos e em meios de diagnóstico e depois, em segundos, as cartas que saem de um baralho dão, de uma penada, o diagnóstico e a terapêutica?

O dilema é portanto optar entre ir consultar um médico e pagar as novas taxas moderadoras ou fazer uma chamada telefónica o que, mesmo que seja para um número de valor acrescentado, sempre ficará mais barato. E daí…

O que ando a ler (16)


Ana Lima,

A primeira vez que li um livro de Dulce Maria Cardoso, “Campo de Sangue”, o primeiro romance que publicou, tive uma estranha sensação. Senti que aquele livro poderia ter sido escrito por mim, ou melhor, mesmo que o tema fosse outro, aquele seria, pelo estilo, pela  construção das frases, o livro que eu escreveria se soubesse e pudesse escrever. Os outros livros que li da mesma autora não tiveram o mesmo impacto em mim mas deixaram-me a certeza que ela é uma escritora que nunca deixarei de acompanhar. Foi por isso que comprei este “O Retorno” mal ele foi publicado. Acabei de o ler na sexta-feira. 

 

Através de “O Retorno” regressamos ao ano de 1975 para acompanharmos o Rui, adolescente, desde os últimos dias em Luanda, quando se vê obrigado a deixar a sua casa, onde a mãe colocou, pela última vez, na mesa da cozinha uma toalha com dálias bordadas, até ao dia em que a sua família se muda para uma casa “com janelas coladas ao tecto”, já na metrópole, onde ele pensava existirem, com abundância, cerejas e raparigas bonitas. 

É um tempo de crescimento, de aprendizagem, um tempo em que, a viver num hotel de 5 estrelas, no Estoril, transformado pelo IARN em residência temporária de famílias sem habitação, Rui descobre o lado de cá de um império que tentava aprender, naqueles dias, a sobreviver reduzido ao seu espaço mais pequeno. Do seu quarto acanhado só a vista para um mar imenso lhe permitia sonhar com a América para onde levaria a sua mãe e a sua irmã. Não foi para a América. O seu corpo aprendeu a habituar-se à água fria deste mar, mas não se habituou ao lugar que as professoras lhe reservavam no fundo da sala por ser retornado. 

Nunca estive em África. Podia ter estado. Se os meus pais não tivessem optado pela migração interna, quando quiseram afastar-se da pobreza que os tolhia. De ambas as famílias foram os únicos. Todos os meus tios saíram de Portugal. Os mais velhos, primeiro, para o Brasil. Os outros depois para Moçambique. Estes últimos “vieram com o Rui”. Eu era demasiado pequena para compreender a revolta, a tristeza, a estranheza perante uma terra que alguns tinham deixado jurando que a ela só voltariam quando pudessem enfrentá-la com a certeza de que ela já não voltaria a rir-se deles; e que os mais novos só conheciam de fotografias. Mas não era assim tão pequena que não me tivesse ficado na memória aquele quarto de pensão em Setúbal onde as camas estavam a um palmo do fogão. Era ali que os meus primos mudavam as fraldas às bebés nascidas havia apenas alguns meses. E era ali, certamente, que eles recordavam a vida que deixaram para trás. Este livro fez-me compreendê-los melhor. 

Há dois retornos presentes nesta obra: a vinda para Portugal dos que residiam nestes territórios que passaram a constituir países independentes; e a tomada de consciência de que o sonho que se tinha ficou pelo caminho e que se está preso a uma realidade que se conhece mal mas que é preciso absorver para que se possa renascer para uma nova vida. Muitos dos que retornaram terão feito os dois. Outros terão ficado pelo retorno físico. A nenhuns a história do Rui será estranha. E nem aos que não viveram este retorno mas que sabem que a vida também se desenha em círculos e não apenas em linhas rectas.

 

E tu, Ana Margarida, queres falar-nos do livro que andas a ler?

As minhas férias nos Açores


Ana Lima,
Foi a primeira vez que andei de avião. As quatro horas de voo, feito em avião militar até à Terceira, foram passadas entre a excitação da viagem e a ansiedade de rever o meu pai, em comissão de serviço há cerca de um ano. O passeio em Angra, nesse dia calmo e cheio de sol, não fazia imaginar o tremor da terra três meses depois. Ao fim do dia a viagem para o Faial num avião já com assentos e hospedeiras a servir sumo. Chegada à ilha onde iria passar um mês a surpresa das cores, do bulício do porto e da calma no resto de uma cidade pequena e grande ao mesmo tempo. Da Horta recordo sobretudo a sensação de que estava num mundo à parte. Um mundo com um monte vulcânico em frente que nos acompanhava onde quer que fôssemos. Talvez por isso nunca me perdi. 

De manhã, sozinha, ia à praia. Sempre pelo mesmo caminho. Já conhecia de cor as casas brancas até chegar a Porto Pim. Porto Pim, Porto Pim… É extraordinária a musicalidade deste nome. A praia, com a sua areia escura, esperava-me. A mim e a poucos mais. Nessa altura do ano já fazia algum frio e as águas-vivas abundavam afastando os banhistas. 

À tarde lá vinha ela. A chuva. Estávamos em Setembro e chovia todos os dias. Recordo o cheiro intenso daquela terra molhada como se ele ali fosse diferente. E mesmo não tendo voltado àquelas ilhas tenho a certeza que a memória não me atraiçoa e ele é mesmo diferente. A casa onde passei aquele mês tinha um jardim e o jardim tinha um baloiço. Nunca mais “vivi” numa casa com jardim e com baloiço. Era lá que eu esperava a chuva. Com um livro nas mãos e o rádio ali ao lado. Às vezes a miúda da casa do lado, que tinha mais quatro anos que eu, vinha fazer-me companhia. Trazia um leitor de cassetes. Não sei se tinha mais mas eu só me lembro de uma dos Beatles. A sua favorita era “Hey Jude”. Ainda é hoje uma das que mais gosto. Quando a chuva começava a cair corríamos, ora para uma casa ora para outra. E lá ficávamos a ver, da janela, a chuva com o Pico ao fundo. 

Para lá dos passeios na ilha são estes os dias que mais recordo das minhas férias nos Açores. Não tenho uma única fotografia. O rolo tinha ficado mal posto e só em Lisboa percebemos isso. Eu tinha 11 anos. Acho que posso dizer que foram as melhores férias da minha vida.

(Lembrei-me de tudo isto ao ler este post do João Carvalho)

Um texto para ler no dia de hoje


Ana Lima,

Em dia de dérbi (ou derby) aí vai uma contribuição para todos os adeptos das duas equipas (e de outras): trata-se de um texto publicado numa revista que se publicou entre Março de 1926 e Março de 1927, de seu nome “Ordem Nova”, e que tinha como objectivo a mobilização para a luta política a favor da ditadura, promovendo as suas ideias e propostas.

Ribeiro da Silva, o autor do artigo, explicava então, como via o foot-ball, “o mais nefasto jogo de quantos se teem popularizado ùltimamente no nosso país”.

Num tempo em que os jogadores e treinadores são estrelas mediáticas é interessante ver como, em alguns meios, era entendido este desporto, numa altura em que as duas equipas conquistavam os seus primeiros títulos nacionais.

 

 

Este e todos os textos desta publicação (e muitos outros, claro) podem ser consultados na Hemeroteca Digital.

A minha ironia


Ana Lima,

Depois de ver o post do jaa apeteceu-me falar da “minha ironia”. É que hoje também foi um dia bastante produtivo. Fiquei a trabalhar em casa e o dia até rendeu bastante, mesmo descontando o tempo em que tive que interromper para fazer de mãe e “dona de casa” uma vez que as minhas filhas, como não tiveram escola por causa da greve, estavam comigo. 

Por contingências pessoais, esta funcionária pública que sou viu-se, este ano, a ganhar menos e a trabalhar mais por ter decidido mudar de local de trabalho abraçando um novo desafio, que só com muita força de vontade se leva a bom porto. E um relatório a entregar segunda-feira obriga-me a um esforço extra. Sabia, portanto, que não poderia perder um dia de trabalho nesta altura. 

Mas vamos lá à ironia: a primeira coisa que fiz de manhã foi telefonar para o sítio onde trabalho a avisar que faria greve para registarem a respectiva falta. Pois é. Já ouvi e li os argumentos que demonstram que não serve de nada, que prejudica mais o país que outra coisa. Compreendo e respeito os que não fizeram greve. Muitos assim decidiram porque o dinheiro lhes faz falta ou porque sabem que é um ponto negativo a mais que o patrão invocará em caso de contas de deve e haver. Foi com muitas dúvidas que decidi aderir, tal como o tinha feito há um ano atrás. Podem argumentar que assim não vale. Fazer greve e trabalhar não é verdadeiramente greve. As minhas filhas também não compreenderam. Na realidade não só não prejudiquei como beneficiei o Estado pois além do dinheiro que poupou, nem a água e a luz consumi.

Mas digo-vos: o dinheiro perdido é compensado por este sentimento de que, mesmo no meio das contradições e desconhecendo quais os números reais, estou no lado certo das estatísticas. 

Um discurso disparatado faz milagres


Ana Lima,

Segundo esta notícia, nos próximos dias reunirá o “Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa” (Noutros locais informa-se que o encontro decorreu a semana passada). Diz Geraldo Martins, especialista sénior em educação do Banco Mundial, que, em época de crise, as universidades deverão “encontrar as melhores opções para maximizar os recursos disponíveis, isto é, alcançar melhores resultados com os mesmos recursos. Isso exigirá muita criatividade”. Ora, fazendo eco deste apelo o Instituto Politécnico de Bragança já deu o exemplo. Com efeito, com palestrantes deste gabarito para quê esperar por mestrados, doutoramentos, provas para associados, para agregação, até chegarmos a ter professores catedráticos?