Depois de ver o post do jaa apeteceu-me falar da “minha ironia”. É que hoje também foi um dia bastante produtivo. Fiquei a trabalhar em casa e o dia até rendeu bastante, mesmo descontando o tempo em que tive que interromper para fazer de mãe e “dona de casa” uma vez que as minhas filhas, como não tiveram escola por causa da greve, estavam comigo.
Por contingências pessoais, esta funcionária pública que sou viu-se, este ano, a ganhar menos e a trabalhar mais por ter decidido mudar de local de trabalho abraçando um novo desafio, que só com muita força de vontade se leva a bom porto. E um relatório a entregar segunda-feira obriga-me a um esforço extra. Sabia, portanto, que não poderia perder um dia de trabalho nesta altura.
Mas vamos lá à ironia: a primeira coisa que fiz de manhã foi telefonar para o sítio onde trabalho a avisar que faria greve para registarem a respectiva falta. Pois é. Já ouvi e li os argumentos que demonstram que não serve de nada, que prejudica mais o país que outra coisa. Compreendo e respeito os que não fizeram greve. Muitos assim decidiram porque o dinheiro lhes faz falta ou porque sabem que é um ponto negativo a mais que o patrão invocará em caso de contas de deve e haver. Foi com muitas dúvidas que decidi aderir, tal como o tinha feito há um ano atrás. Podem argumentar que assim não vale. Fazer greve e trabalhar não é verdadeiramente greve. As minhas filhas também não compreenderam. Na realidade não só não prejudiquei como beneficiei o Estado pois além do dinheiro que poupou, nem a água e a luz consumi.
Mas digo-vos: o dinheiro perdido é compensado por este sentimento de que, mesmo no meio das contradições e desconhecendo quais os números reais, estou no lado certo das estatísticas.

Ambas noctívagas, Ana… 🙂 Mas aqui vai:”Muitos assim decidiram porque o dinheiro lhes faz falta ou porque sabem que é um ponto negativo a mais que o patrão invocará em caso de contas de deve e haver. ” -Sabes? Isso é do mais redutor que há acerca dos motivos que levam um trabalhador da administração pública (ou da privada) a não aderir a uma greve. Em suma, entendes que só por motivos de constrangimento é que não se adere a uma paralisação . Pois estás muito enganada, asseguro-te… Muita gente não faz greve por convicção. Com o mesmo espírito de ‘manifesto’ e de afrontamento do que os que a fazem, sem estarem propriamente em rota de colisão com esses. E porque também os têm no sítio.
Não quis, de todo, ser redutora, Laura. Eu utilizei a palavra muitos, não todos. Sei perfeitamente, e conheço também muitas pessoas que têm razões válidas para não fazerem greve. Aliás, em alguns meios não fazer greve é um acto de mais coragem até do que fazê-la (se é que isto tem alguma coisa a ver com coragem). Só quis deixar aqui o outro lado porque sei, de facto, de um número significativo de pessoas que não fizeram greve pelos motivos de que falei.
Apetece-me ser mauzinho (é sempre o meu primeiro instinto, trata-se de uma doença terrível) e dizer que deviam ser todos como tu.
Pois, acredito. Há muito quem defenda a ideia da oferta, de vez em quando, de um dia de trabalho. 🙂
Já escrevi porque não fiz greve! Não acredito nos sindicatos nem nos seus dirigentes. Não acredito que um dia de greve geral (ou não) vá alterar substancialmente a visão governativa da nossa sociedade ponto
Antes de mais é necessário mudar as mentalidades. Estamos num país pobre, sem recursos naturais a não ser este sol e o mar (que não sabemos aproveitar!!!) que nos vai invadindo, mas pretendemos viver como se fossemos árabes petrolíferos…
Temos de trabalhar muuuuuuuuuuuito mais e melhor. Não se pode chegar ao trabalho e só se começar a laborar por volta das onze da manhã.
Isto sim é que é greve… Gastam-se os recursos e produz-se pouco!
Concordo, claro, com a necessidade de trabalhar mais e melhor. É óbvio que muitos trabalhadores fazem greve todos os dias, por chegarem tarde, por fingirem que trabalham… Não é um dia de greve que mudará muita coisa. Também tem razão. Se assim fosse a adesão seria estrondosa.
Quanto aos dirigentes dos sindicatos, tal como noutros meios, existe de tudo. Os que acreditam na causa que defendem e representam bem os associados e os que não o fazem. Já os sindicatos eu acho que são importantes. Pode-se discutir a sua colagem tão directa a partidos políticos ou a sua linguagem, por exemplo. Mas, muitas vezes, em determinados meios, são a única força perante arbitrariedades que se cometem.
Compreendo e aprecio muito a sua posição, Ana, e entendo também o ponto de vista da Laura. Enquanto trabalhava para a função pública estive, em diferentes momentos e conforme as circunstâncias de cada um, dos dois lados da barreira e cheguei a fazer também exactamente aquilo que aqui nos veio relatar. E se é verdade, tal como diz, que «fazer greve e trabalhar não é verdadeiramente greve», bem pior e profundamente lamentável é o chico-espertismo daqueles que vão trabalhar, não por convicção, mas apenas porque o dinheirinho lhes faz falta, (como se os outros andassem a trabalhar apenas por desporto) sob o insuportável argumento de que, se algum benefício advier da greve, ele será extensivo a todos e não apenas só àqueles que a ela aderiram. Senti isto na pele por mais de uma vez, e sempre achei esta atitude pura e simplesmente miserável. Respeito todas as opções que cada um, dentro da sua disponibilidade de escolha, entenda dever tomar. Porém, nunca suportei chicos-espertos.
Bem, Luís, por vezes, ou quase sempre, desconhecemos as razões pelas quais as pessoas têm determinadas atitudes. Mas outras vezes sabemos quais são e deixam-nos tristes para não dizer outra coisa. Respeitar as opções quando elas são válidas é obviamente, quanto a mim, a atitude mais correcta.
Ana, estás no lado certo das estatísticas por outra razão também, e muito básica: porque ainda tens trabalho. Muitos fizeram “greve” forçada simplesmente porque não o têm, e outros ainda por não terem transporte para ir trabalhar. Nada disto me parece justo, porque o direito a não aderir à greve é tão válido e respeitável como qualquer outro. O que não impede que eu admire a tua honestíssima e louvável posição. E útil, porque a deixaste bem marcada sem interromper a tua produtividade. Parabéns.
Sim, Ana, eu sei que ter trabalho é um bem fundamental. E essa palavra “ainda” importa reforçar cada vez mais. Sei que já há quem o considere assim mas tratar alguém como privilegiado porque tem trabalho é um sinal, de facto, que as coisas vão mal. O direito de fazer greve não deve ser nunca posto em causa mas deve ser sempre alvo de reflexão individual.
Sem dúvida. O trabalho é um direito, não um privilégio. E quando esse conceito é distorcido é porque as coisas vão mesmo mal.