A minha ironia


Ana Lima,

Depois de ver o post do jaa apeteceu-me falar da “minha ironia”. É que hoje também foi um dia bastante produtivo. Fiquei a trabalhar em casa e o dia até rendeu bastante, mesmo descontando o tempo em que tive que interromper para fazer de mãe e “dona de casa” uma vez que as minhas filhas, como não tiveram escola por causa da greve, estavam comigo. 

Por contingências pessoais, esta funcionária pública que sou viu-se, este ano, a ganhar menos e a trabalhar mais por ter decidido mudar de local de trabalho abraçando um novo desafio, que só com muita força de vontade se leva a bom porto. E um relatório a entregar segunda-feira obriga-me a um esforço extra. Sabia, portanto, que não poderia perder um dia de trabalho nesta altura. 

Mas vamos lá à ironia: a primeira coisa que fiz de manhã foi telefonar para o sítio onde trabalho a avisar que faria greve para registarem a respectiva falta. Pois é. Já ouvi e li os argumentos que demonstram que não serve de nada, que prejudica mais o país que outra coisa. Compreendo e respeito os que não fizeram greve. Muitos assim decidiram porque o dinheiro lhes faz falta ou porque sabem que é um ponto negativo a mais que o patrão invocará em caso de contas de deve e haver. Foi com muitas dúvidas que decidi aderir, tal como o tinha feito há um ano atrás. Podem argumentar que assim não vale. Fazer greve e trabalhar não é verdadeiramente greve. As minhas filhas também não compreenderam. Na realidade não só não prejudiquei como beneficiei o Estado pois além do dinheiro que poupou, nem a água e a luz consumi.

Mas digo-vos: o dinheiro perdido é compensado por este sentimento de que, mesmo no meio das contradições e desconhecendo quais os números reais, estou no lado certo das estatísticas. 

11 comentários em “A minha ironia”

  1. Ambas noctívagas, Ana… 🙂 Mas aqui vai:”Muitos assim decidiram porque o dinheiro lhes faz falta ou porque sabem que é um ponto negativo a mais que o patrão invocará em caso de contas de deve e haver. ” -Sabes? Isso é do mais redutor que há acerca dos motivos que levam um trabalhador da administração pública (ou da privada) a não aderir a uma greve. Em suma, entendes que só por motivos de constrangimento é que não se adere a uma paralisação . Pois estás muito enganada, asseguro-te… Muita gente não faz greve por convicção. Com o mesmo espírito de ‘manifesto’ e de afrontamento do que os que a fazem, sem estarem propriamente em rota de colisão com esses. E porque também os têm no sítio.

    1. Não quis, de todo, ser redutora, Laura. Eu utilizei a palavra muitos, não todos. Sei perfeitamente, e conheço também muitas pessoas que têm razões válidas para não fazerem greve. Aliás, em alguns meios não fazer greve é um acto de mais coragem até do que fazê-la (se é que isto tem alguma coisa a ver com coragem). Só quis deixar aqui o outro lado porque sei, de facto, de um número significativo de pessoas que não fizeram greve pelos motivos de que falei.

  2. Já escrevi porque não fiz greve! Não acredito nos sindicatos nem nos seus dirigentes. Não acredito que um dia de greve geral (ou não) vá alterar substancialmente a visão governativa da nossa sociedade ponto
    Antes de mais é necessário mudar as mentalidades. Estamos num país pobre, sem recursos naturais a não ser este sol e o mar (que não sabemos aproveitar!!!) que nos vai invadindo, mas pretendemos viver como se fossemos árabes petrolíferos…
    Temos de trabalhar muuuuuuuuuuuito mais e melhor. Não se pode chegar ao trabalho e só se começar a laborar por volta das onze da manhã.
    Isto sim é que é greve… Gastam-se os recursos e produz-se pouco!

    1. Concordo, claro, com a necessidade de trabalhar mais e melhor. É óbvio que muitos trabalhadores fazem greve todos os dias, por chegarem tarde, por fingirem que trabalham… Não é um dia de greve que mudará muita coisa. Também tem razão. Se assim fosse a adesão seria estrondosa.
      Quanto aos dirigentes dos sindicatos, tal como noutros meios, existe de tudo. Os que acreditam na causa que defendem e representam bem os associados e os que não o fazem. Já os sindicatos eu acho que são importantes. Pode-se discutir a sua colagem tão directa a partidos políticos ou a sua linguagem, por exemplo. Mas, muitas vezes, em determinados meios, são a única força perante arbitrariedades que se cometem.

  3. Compreendo e aprecio muito a sua posição, Ana, e entendo também o ponto de vista da Laura. Enquanto trabalhava para a função pública estive, em diferentes momentos e conforme as circunstâncias de cada um, dos dois lados da barreira e cheguei a fazer também exactamente aquilo que aqui nos veio relatar. E se é verdade, tal como diz, que «fazer greve e trabalhar não é verdadeiramente greve», bem pior e profundamente lamentável é o chico-espertismo daqueles que vão trabalhar, não por convicção, mas apenas porque o dinheirinho lhes faz falta, (como se os outros andassem a trabalhar apenas por desporto) sob o insuportável argumento de que, se algum benefício advier da greve, ele será extensivo a todos e não apenas só àqueles que a ela aderiram. Senti isto na pele por mais de uma vez, e sempre achei esta atitude pura e simplesmente miserável. Respeito todas as opções que cada um, dentro da sua disponibilidade de escolha, entenda dever tomar. Porém, nunca suportei chicos-espertos.

    1. Bem, Luís, por vezes, ou quase sempre, desconhecemos as razões pelas quais as pessoas têm determinadas atitudes. Mas outras vezes sabemos quais são e deixam-nos tristes para não dizer outra coisa. Respeitar as opções quando elas são válidas é obviamente, quanto a mim, a atitude mais correcta.

  4. Ana, estás no lado certo das estatísticas por outra razão também, e muito básica: porque ainda tens trabalho. Muitos fizeram “greve” forçada simplesmente porque não o têm, e outros ainda por não terem transporte para ir trabalhar. Nada disto me parece justo, porque o direito a não aderir à greve é tão válido e respeitável como qualquer outro. O que não impede que eu admire a tua honestíssima e louvável posição. E útil, porque a deixaste bem marcada sem interromper a tua produtividade. Parabéns.

    1. Sim, Ana, eu sei que ter trabalho é um bem fundamental. E essa palavra “ainda” importa reforçar cada vez mais. Sei que já há quem o considere assim mas tratar alguém como privilegiado porque tem trabalho é um sinal, de facto, que as coisas vão mal. O direito de fazer greve não deve ser nunca posto em causa mas deve ser sempre alvo de reflexão individual.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *