Feriado é quando um homem quiser. Sim, mas…


Ana Lima,

Têm razão muitos dos que dizem que os feriados servem apenas como dias de descanso e não constituem, de uma forma geral, dias especiais em que recordamos e comemoramos um determinado acontecimento, seja ele historicamente ou religiosamente relevante. Quantos de nós não ouvimos dizer, nesses dias: “mas afinal o que é isso do Corpo de Deus?”. Ou então: “o que é que aconteceu a 1 de Dezembro”? É verdade que na festa do Corpo de Deus muitos católicos aproveitam o dia para ir à praia e que a restauração da independência é um acontecimento a que já poucos atribuem importância, servindo o dia apenas para antecipar as compras de Natal. Para os que querem continuar a comemorar estas e outras datas não é o facto de terem que trabalhar que os impedirá. O dia do nosso aniversário é um dia normalmente especial para nós e, a menos que tenhamos a sorte de termos nascido num dia feriado, ou seja fim de semana, temos que fazer férias ou comemorar fora do horário de trabalho. Isto faz sentido, sim.

No entanto, sabendo nós a fraca consciência histórica que temos, não posso deixar de pensar que, deixando de assinalar determinadas datas, torna-se muito mais difícil manter, na consciência colectiva, referências fundamentais para a nossa identidade enquanto país. Poderão argumentar que isso já está fora de moda. Ou que, se há valor que temos em abundância, é a identidade enquanto país com tão antigas fronteiras e História; pelo que não é acabando com os feriados que ela será posta em causa. Mas a verdade é que, nas escolas, é, muitas vezes, o facto de haver um feriado que constitui um pretexto para se aprofundarem episódios importantes da nossa História. E é em cima do acontecimento que as perguntas das crianças sobre este ou aquele dia em particular surgem e que as respectivas explicações são melhor ouvidas e incorporadas, de facto, no seu processo de socialização.

Desta forma, as crianças deixarão de ter esse pretexto para questionarem os adultos e, daqui a algum tempo, a restauração da independência ou a implantação da república serão esquecidas para serem apenas mais umas datas nos manuais. E a culpa será de uma conjuntura económica particular, de três organizações exteriores e de um governo que certamente, à semelhança de outros, não ficará para a História.

4 comentários em “Feriado é quando um homem quiser. Sim, mas…”

  1. Eu acho um disparate acabar com os feriados mas tenho lido textos com um tom como se esse fim fosse definitivo. Nas próximas eleições o meu voto irá para oartidos que se proponham restabelecer os feriados que este governo extinguir.

    1. Tem razão. Quando escrevi o post também achei que estava a partir do princípio que esta seria uma situação definitiva quando sabemos que outro (ou mesmo este governo :)) poderão alterá-la. Aliás podemos imaginar uma campanha eleitoral em que os diferentes partidos se digladiem pelos dias mais emblemáticos do calendário, de acordo com o seu ponto de vista. Seria até interessante.

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