Sophia e Sena: o dever de ver (II)


Pedro Correia,

Um dos méritos maiores desta Correspondência é iluminar alguns dos melhores ciclos existenciais de Sophia – inclundo a descoberta do mar algarvio, tão marcante na sua obra, e sobretudo as suas primeiras viagens à Grécia, que a conduziram a novos trilhos poéticos. O seu entusiasmo pelas viagens é, de resto, uma constante nas espaçadas confidências que ia trocando com Sena, confessando-se maravilhada com Delfos, Corinto, Roma e o Rio de Janeiro. E com As Meninas, de Velásquez, no Museu do Prado. Existe no ser humano – e no poeta em particular – o “dever de ver”, como ela sublinhava noutra carta reveladora, escrita no México em Novembro de 1971.

 

Sophia preferia falar ao telefone em vez de manter uma correspondência activa, chegando a escrever cartas a Sena que este jamais leria. O incómodo de “ir à Baixa”, para despachá-las por correio, desencorajava-a com frequência. Sena, pelo contrário, era de escrita mais copiosa e regular. Mas as marcas do exílio – primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos – tornaram-no num ser amargurado, que ressumava azedume em relação às letras portuguesas, à “comunistada honorária” que ditava regras à esquerda e ao próprio país onde não conseguiu garantir o sustento da sua família numerosa antes e depois da Revolução dos Cravos. “Como essa pátria, tirando o povo e uns raros, é vil, canalha e mesquinha”, desabafava numa carta de Janeiro de 1968.

 

Sena e Sophia nasceram no mesmo ano (1919), na mesma cidade (o Porto) e partilharam traços identitários, com destaque para a formação católica. A pulsão para o activismo político, por imperativo ético, também uniu estes dois escritores que só aos 50 anos, na sequência de uma breve deslocação de Sena a Portugal (já Marcelo Caetano substituíra Salazar) começam a tratar-se por “tu”. Este é, aliás, um dos aspectos documentalmente mais interessantes da Correspondência. De lamentar, além da perda de algumas cartas de Sena apreeendidas pela PIDE na casa de Sophia e jamais recuperadas, é a omissão total de correspondência no biénio 1974-75, tão decisivo para Portugal. Sena faleceu em 1978, sem se reconciliar com a pátria-mãe. Sophia viveu mais um quarto de século, fiel a um lema que tão bem expressou num dos seus poemas: “Meu signo é o da morte porém trago / uma balança interior, uma aliança / da solidão com as coisas exteriores.”

Correspondência. Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena. Edição Guerra & Paz, Lisboa, 2006. 158 páginas.
Classificação ***



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