“Some things in life are bad, They can really make you mad”


Ana Lima,

Esta noite estive a ver o Câmara Clara. No canto superior esquerdo, por baixo de RTP2, estava escrito “Último”. Nesta edição especial sucederam-se, em imagens bem escolhidas, escritores, poetas, arquitectos, ensaístas, dramaturgos, actores, realizadores, encenadores, bailarinos, historiadores… Eram pequenos excertos das interessantes entrevistas que pudemos ver ao longo de anos de produção de um programa que nos dizem que era caro. Alguns dos que passaram por lá faleceram entretanto: Manuel António Pina, Fernando Lopes, entre outros. 

A inteligência dos autores ficou bem marcada ao demonstrarem-nos o erro que é acabar com este programa. Foi uma espécie de: “estão a ver? É isto que vão deixar de poder ver, diária e semanalmente”.

Aquilo a que chamamos cultura, mas a que podíamos chamar vida, vai continuar a acontecer. Mas já não vamos ter o Câmara Clara para a mostrar, para nos despertar para uma exposição, um livro, uma música. Para isso continuamos a ter os jornais, as revistas, outros meios, dirão. Sim, mas a televisão, a tal que ainda é pública e que é, para muitos, o único meio disponível, fica bem mais pobre. 

Parece-me não ter sido por acaso que, para terminar o programa, e em jeito de despedida, foi escolhido o tema musical da última cena de Life of Brian. Entre o absurdo de certas decisões e o absurdo dos Monty Python nós preferimos este último. 

Paisagens estranhas


Ana Lima,

 

A placa diz “Proibida a passagem a pessoas estranhas”. E é como pessoas estranhas que se  devem sentir os habitantes destas terras. Porque as paisagens que conheceram desapareceram… E as novas paisagens que observam são inacabadas, dificilmente lhes dirão alguma coisa.

Percorremos parte do IP8. Talvez por ser fim de semana, poucos automóveis se encontram. Temos dificuldade em perceber porque não se apostou no alargamento, em alguns troços, desta via e se optou pela construção de uma auto-estrada. Mas o facto é que foi essa a decisão. Estudos, certamente cientificamente válidos, concluíram que se deveria avançar para essa solução que uniria uma cidade com porto (Sines) a uma cidade com aeroporto (Beja).

Terrenos, alguns integrados na Reserva Agrícola Nacional, foram expropriados. Empreitadas e subempreitadas foram preparadas, favorecendo a sustentabilidade e o emprego na região. E as obras começaram. As máquinas abriram caminho, as propriedades foram cortadas ao meio, os viadutos e pontes começaram a despontar, os arqueólogos, nas suas escavações, depararam-se com estruturas interessantes…

E as obras pararam (prevendo-se, apenas, a conclusão de troços entre Sines e Santo André e entre Sines e Santiago do Cacém). A justificação é a de que o tráfego previsto não justifica a construção da auto-estrada, que o aeroporto tem bons acessos (e mais que suficientes para a utilização que tem) e que, desta maneira, se evitam gastos maiores podendo beneficiar-se a conservação e requalificação do IP8. Dada a situação em que se encontra a nossa economia estes são argumentos de peso.

Mas e agora? É que não estamos a falar de projectos no papel. Falamos de milhões de euros gastos. Falamos de quilómetros e quilómetros de paisagem arruinada; de área verde destruída; de terrenos agrícolas, alguns com grande potencial, esventrados; de infra-estruturas iniciadas que, à mercê dos fenómenos meteorológicos, ficarão impróprias para qualquer uso futuro. Falamos de escavações arqueológicas que, ao ficarem a meio, prejudicam as empresas envolvidas e não poderão contribuir para aprofundarmos o conhecimento de um valioso património. Falamos de empresas que viram na auto-estrada uma oportunidade de sobrevivência e que agora pensam no despedimento de trabalhadores. Falamos de aldeias onde os agricultores não poderão estar descansados com medo que o seu gado se perca ao cair em valas; onde os pais terão medo que os seus filhos brinquem nas redondezas, pois o perigo espreita, indiferente a avisos escritos. Falamos de uma área do país que tem visto alguns projectos criarem grandes expectativas que depois não são satisfeitas (Alqueva concretizou apenas uma pequena parte do impacto positivo previsto) deixando a população, cada vez mais, descrente da justeza das decisões que se tomam em nome do desenvolvimento.

Passear nesta bela região, assim tão maltratada, é observarmos um retrato da nossa pobreza, da nossa incompetência, da nossa incapacidade de planearmos, com rigor, intervenções que acabam por ter resultados desastrosos.

O Alentejo merecia melhor.

 

Um novo nicho de mercado para as empresas de “Team Building”


Ana Lima,

O PSD e o CDS revelaram que a primeira tarefa do conselho de coordenação da coligação vai ser a consulta a empresas que desenvolvem actividades de Team Building. Sendo o objectivo fundamental melhorar as relações interpessoais e fomentar o espírito de pertença a uma equipa, serão privilegiados os exercícios clássicos que incidem nas questões de liderança, gestão de conflitos, superação de obstáculos, comunicação e coordenação de grupos. De acordo com as nossas fontes, Passos Coelho não dispensará o clássico torneio de tiro com arco e alvo à escolha. Provas de Orientação, tipo rally paper, são as preferidas de Paulo Portas. Ambos concordam que a stand up comedy e o karaoke não devem faltar. 

O Vale do Futebol?


Ana Lima,

Nas décadas de 70 e 80 do século passado, o Estádio Nacional, que compreendia, não só o estádio em si, mas todos os espaços desportivos e terrenos à volta, era um local cheio de vida onde se realizavam competições muito participadas, onde se praticava desporto e onde os menos dados à actividade física mais intensa aproveitavam para passear ou fazer piqueniques. Praticamente todas as áreas eram acessíveis. Ali se instalaram, provisoriamente (mas durante muitos anos) famílias que vieram de África e de Timor após a descolonização. 

Porque vivia ali perto, o Estádio Nacional faz parte da minha história. Com o meu pai ia assistir aos campeonatos de atletismo, ver o ténis, passear; os parques de estacionamento eram sítios ideais para os pais ensinarem os filhos a conduzir e, tantas vezes, ao domingo, após a praia, estavam cheios de famílias que ali comiam e ficavam a dormir a sesta, a ler, a jogar. Sei que essas utilizações são discutíveis e, ao longo dos anos, o complexo do Jamor foi-se dedicando, cada vez mais, estritamente, ao desporto.

Mesmo que tenha sido ali que me tiraram as primeiras fotografias, que brinquei, brinquei, brinquei, que aprendi a identificar algumas árvores e pássaros, que andei em baloiços improvisados com vista para o rio, que rebentei com os joelhos, compreendo que, até por questões de segurança, tivesse que se limitar o acesso a algumas áreas. 

Desportivamente falando, fizeram-se alguns investimentos importantes como foi, por exemplo, o das piscinas e as melhorias em campos de jogos e ténis. No entanto, de uma forma geral, o uso do espaço é agora muito mais limitado. Com a colocação das vedações a área passou a ter cada vez menos vida. E, ao longo dos anos, muitos foram os projectos que contribuíram para afastar a população de muitos locais. O Campo de Golfe é um exemplo.

Mas a questão é que continua a olhar-se para o Estádio Nacional e a pensar só em alguns. Falo das Urbanizações que em determinada altura estiveram previstas e agora da chamada “Cidade do Futebol”. Eu gosto de futebol. E até percebo que a crise na construção terá que ser combatida também pelo Estado. Mas o investimento pensado para um mini-estádio, 5 campos de treino, um pavilhão multi-usos, um complexo de ténis (para receber o Estoril Open) e duas unidades hoteleiras terá como resultado a redução do espaço verde e aberto, em favor do betão e de infra-estruturas que, à semelhança de outras, rapidamente poderão deixar de ter uso. Isto se alguma vez o projecto se concretizar. Para isso muitos jogos particulares a selecção nacional A terá que fazer… 

Acepções, interpretações, significações…


Ana Lima,

 

 

 A palavra piada pode ter muitas. Freud estudou algumas e analisou o que faz com que uma determinada brincadeira ou piada nos leve ao riso e quais os elementos principais que lhe conferem essa capacidade (a técnica utilizada para a compor ou o pensamento nela contido, por exemplo). Miguel Pais do Amaral acabou de criar uma nova categoria. Que pena Freud já não estar cá para a analisar…


Uma dúvida, uma certeza e um desejo


Ana Lima,

Ora, vejamos o que esta notícia me suscita:

 

uma dúvida: qual a faceta que lhe vai ser mais útil para suceder a Isaltino? A de inspector da Polícia Judiciária; a de comentador de casos de polícia ou a de escritor de obras de ficção?

uma certeza: não gastará tanto tempo e dinheiro em deslocações uma vez que os estúdios da SIC ficarão muito mais perto;

um desejo: que traga para Oeiras um dos meus restaurantes favoritos.

“E aí está o xis”. Ou pelo menos um deles…


Ana Lima,

Quando regressava hoje a casa, no final de um mês em que, em anos anteriores, a minha conta bancária estava um pouco mais aliviada, ouvi uma notícia extraordinária. Pois parece que o governo teve que alargar o prazo para os contribuintes portugueses, com contas no estrangeiro não declaradas em Portugal, regularizarem a sua situação tributária. Isto porque, a “corrida” ao RERT (Regime Excepcional de Regularização Tributária) registou uma afluência tal nos últimos dias que os próprios serviços “entupiram”.

Ora sendo o RERT um regime especial de incentivo à regularização de dívidas fiscais relativas a contas e participações financeiras não declaradas por contribuintes portugueses, sedeadas fora da União Europeia (paraísos fiscais incluídos), ele permite também a “Exclusão da responsabilidade por infracções tributárias que resultem de condutas ilícitas que tenham lugar por ocultação ou alteração de factos ou valores que devam constar de livros de contabilidade ou escrituração, de declarações apresentadas ou prestadas à administração fiscal ou que a esta devam ser revelados, desde que conexionadas com aqueles elementos ou rendimentos”, ou seja uma espécie de amnistia fiscal aos contribuintes com património não declarado no estrangeiro. O regime impõe uma taxa única de imposto de 7,5% sobre os valores, não faz qualquer pergunta sobre a sua origem e não implica o seu repatriamento.

O que eu considero extraordinário nem é o facto deste regime existir. Ele é mais favorável ao Estado que o anterior, que previa uma taxa de apenas 5%, e o valor do imposto pago até agora, segundo as Finanças, supera já os 150,1 milhões de euros, sendo a receita superior à acumulada nos dois regimes de regularização anteriores. Boas notícias para os cofres do estado, portanto.

Mas o que não deixa de me espantar é a existência de tanto dinheiro nesta situação. Se 150,1 milhões de euros são 7,5% há, por esse mundo fora, muito dinheiro que, se tributado cá, seria certamente uma grande ajuda. E estes milhões dizem apenas respeito aos pagamentos de quem quis regularizar a situação. Imaginemos os outros…

Não pude deixar de me lembrar desta canção da Gal Costa que deixo aqui. Outro país, outros tempos. É verdade, mas, não estamos assim tão longe e, tal como na canção, assim não se pode (mesmo) ser feliz.

 

Dificuldades de comunicação


Ana Lima,

Perante esta imagem duas hipóteses se colocam: ou, numa tentativa de tornar mais compreensível a linguagem hermética das explicações dos homens de Bruxelas, Durão Barroso tem aproveitado o seu tempo para aprender língua gestual (tendo começado pela LGA, a alemã) e, a partir de agora, nas conferências de imprensa, enquanto Van Rompuy se exprime verbalmente, o presidente da Comissão Europeia acompanha-o, utilizando este outro sistema de comunicação; ou, por analogia com a publicidade a uma marca de iogurtes destinados ao público infantil, e num assomo de optimismo, embora desmentido pela sua expressão, mostra que “falta um bocadinho assim” para que se chegue a um acordo exequível.
Seja como for, nem com esta ajuda extra parece possível, ao cidadão comum, entender como vai este pacto contribuir para o crescimento e o emprego.

  

imagem aqui

Uma história como tantas outras


Ana Lima,

Depois de tantas dúvidas, simulações neste e naquele banco, contas e mais contas, lá se decidiram a comprar a casa. Não era a ideal mas era a possível. Não tinha vista para o mar mas até conseguiam ver a auto-estrada passar lá ao fundo. Teriam preferido ficar mais perto dos pais mas os preços ali sempre eram mais baixos. O prédio tinha 9 andares e em cada um deles havia 5 casas. Habituados aos pequenos prédios onde tinham crescido, ao princípio estranharam. Mas, ao longo dos anos, aprenderam a reconhecer as caras dos vizinhos com quem se cruzavam nos elevadores. Entretanto vieram os filhos. Ao fim de algum tempo esta era a sua casa. 

Mas eis que as dificuldades económicas chegaram. Alguns dos vizinhos venderam as casas, outros arrendaram-nas. Começaram as faltas de pagamento dos valores acordados por todos. Por serem mais graves, algumas deram origem a processos no tribunal que aguardam resolução. A gestão do condomínio tornou-se mais difícil. Por isso ninguém estranhou muito quando um dos dois elevadores avariou e deixou de funcionar. O outro lá ia cumprindo a sua função. Mas, há umas semanas atrás, também esse teve uma avaria e, sem solução à vista, as escadas são a única solução. Com humor, dizem aos amigos que, agora sim, fazem exercício a valer e que se morassem no nono andar seria pior. Sabem que para os vizinhos com filhos pequeninos é bem mais difícil. Mas custa-lhes aceitar que os colegas dos miúdos já não vão brincar lá a casa quando saem da escola. E os seus pais deixaram de os visitar pois subir ao sétimo andar não é fácil na sua idade.

E não é o facto de terem de subir e descer aquelas escadas que os atormenta mas o facto de estarem presos numa situação que não tem fim à vista. Agora quando pensam na sua casa vêem-na como uma ilha difícil de alcançar e, ao mesmo tempo, impossível de deixar.

O elevador fora de serviço é, afinal, uma boa metáfora.

Bodes expiatórios


Ana Lima,

Por motivos que agora não interessam, mas que basicamente se prendem com a minha incapacidade de me integrar em muitos dos pressupostos da economia capitalista, sou a feliz proprietária de um automóvel que fará, em Março do próximo ano, 20 anos desde que foi matriculado. Sempre esteve na minha mão. Foi o meu primeiro e único carro até ao presente. Só duas vezes me deixou ficar mal (ambas porque a bateria não colaborou). O que eu espero dele, ele tem-me dado. É certo que o seu aspecto já demonstra a sua idade mas não sinto qualquer vergonha quando, nos semáforos ou  em filas de trânsito, fica lado a lado com modelos novos em folha, ou quando tenho que fechar manualmente portas e vidros; ou ainda quando, nas manobras, a inexistência de direcção assistida me obriga a fazer mais movimentos que os outros condutores.

A perspectiva de uma avaria que o impeça de circular assusta-me porque me faz falta no meu dia a dia e porque sei que não tenho hipóteses de comprar outro; mas também porque gosto genuinamente dele.

Por ser uma defensora do uso dos transportes públicos só utilizo o meu automóvel quando preciso dele, nas deslocações em que as alternativas são más ou não existem. Não é o caso do centro da cidade de Lisboa, onde trabalho. Comboio, metro, autocarro são meios de transporte que nos levam a praticamente todo o lado e não é preciso fazer grandes testes “à la Top Gear” para perceber que, quase sempre, um percurso feito por estes meios nos permite ganhar mais tempo e diminuir a irritação das filas de automóveis a certas horas.

Mas, até há algumas semanas atrás, eu tinha a opção de preferir os transportes públicos. Agora, caso queira circular, em determinados dias e determinadas horas em determinadas vias, não o posso fazer sem correr o risco de ser multada. Dizem que é para restringir a circulação de veículos poluentes.  Ora eu sei que existem estudos que levaram a este tipo de medidas em alguns países europeus mas eles não provam uma relação absoluta de causa-efeito entre o número de anos que tem um automóvel e a emissão de gases poluentes.  Não sei se a carta, referida, por ex., aqui, obteve resposta, mas as questões nela colocadas parecem-me pertinentes.

Eu não quero alterar os meus hábitos e por isso continuarei a utilizar os transportes públicos. Aliás os proprietários de carros mais velhos, tratando-se de carros únicos (não falo de quem colecciona automóveis antigos ou tem vários), não têm normalmente capacidade económica para se deslocarem diariamente, para o trabalho, de carro. Entre outras, a dificuldade em pagar a gasolina deve-se, não ao receio de que ela se liberte em excesso, para a atmosfera, sob a forma de gases tóxicos, mas ao seu preço, que teima, esse sim, em se manter bem lá em cima.

A necessidade de diminuir os níveis de poluição em Lisboa parece-me inquestionável. Mas que seja à custa destes bodes expiatórios, tão fracos no seu poder, quanto na sua efectiva responsabilidade no problema, parece-me a forma mais fácil, pois não toca os que, tendo mais poder, poderiam levantar questões de forma mais comprometedora; mas a que menos resultados poderá alcançar. Até porque, num país em que trocar tantas vezes de carro, só porque sim (nem que para isso a família, a empresa, o organismo público tenha que se endividar) é uma prática tão comum, a percentagem de veículos abrangidos não é significativa.

Primeiro foram os veículos anteriores a 1992. Agora são os anteriores a 1996. Qualquer dia só os últimos modelos circularão no centro da cidade. E aí sim, teremos uma cidade moderna, com ruas cheias de reflexos nos metais brilhantes e a cheirar a plástico novo. Já menos poluída, duvido.

“A” maternidade desde 1932


Ana Lima,

Na noite em que eu nasci os vizinhos que levaram a minha mãe para o hospital resolveram virar à direita na marginal e não à esquerda. Foi assim que eu fui nascer a Oeiras e não a Lisboa. Durante muitos anos eu era um caso raro entre os meus amigos e conhecidos, cuja naturalidade era, invariavelmente, São Sebastião da Pedreira. Esta era, de longe, a freguesia que mais constava no bilhete de identidade daqueles cujos pais residiam em Lisboa e arredores. Depois passou a poder apresentar-se como naturalidade a localidade de residência da mãe. E aí tudo começou a mudar. Felizmente para todos nós outros hospitais começaram a ter as necessárias condições à realização de partos seguros. Mas a Maternidade Alfredo da Costa nunca deixou de ser uma referência, sobretudo para as situações mais complexas. E, para tal, contribuíram, sobretudo, os profissionais, as equipas, constituídas por elementos de várias áreas, cuja experiência é, de há muito, elogiada. 

Recentemente, terão sido feitos investimentos significativos que melhoraram os serviços prestados.

Dizem os responsáveis que o encerramento desta maternidade é apenas um dos cenários possíveis. Pois. Mas isto de discutir cenários já sabemos que é um exercício que, por vezes, dá um resultado errado. Sobretudo porque nunca são previstas todas as consequências. Esperemos que não seja o caso. Não pelos que nasceram na Alfredo da Costa. Mas pelos que, possivelmente, deixarão de beneficiar do saber acumulado dentro daquele edifício, projectado por Ventura Terra, e que não chegou a ser visto pelo médico que lhe emprestou o nome e que tanto por ele se bateu.

Uma reflexão de Pessoa


Ana Lima,

Fernando Pessoa assistiu ontem, impávido, não sei se sereno, sentado na sua cadeira, ao que acontecia à sua volta. Habituado a tardes calmas e turistas que se fazem fotografar na sua mesa, viu pessoas descontentes. Umas vestiam-se à civil. Outras tinham uniformes de polícias. Uns estavam ali porque decidiram fazer greve ou, não estando nessa situação, quiseram manifestar-se contra o que já todos sabemos e que é uma das piores situações económicas de que esta geração tem memória. Outros, sofrendo igualmente os efeitos dessa mesma crise, estavam ali em trabalho, tentando manter a segurança de uma manifestação dos que estão tão descontentes quanto eles.

Humanos uns e outros, portanto. Excessos terá havido de ambas as partes. Os polícias, com responsabilidades acrescidas, é certo, não souberam estar à altura dos acontecimentos. Os objectivos dos manifestantes que, segundo percebi, terão começado a arremessar objectos, também não são claros. Pelo meio, jornalistas, em trabalho, são apanhados por uma fúria cujas consequências só não são iguais porque os bastões estão de um dos lados.

Mas, nesta situação, será que há lados? Ou melhor, será isso o mais importante? 

Dizia Pessoa: “nisto de manifestações populares o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.1”

 

(1)“Ideias Políticas” in Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa, organização de Paulo Neves da Silva, Lisboa, Casa das Letras, 2009, pág. 117

Num dia que também é da árvore, da floresta, do sono…


Ana Lima,

… um poema que é também um retrato actual da nossa condição, uma reflexão sobre o papel da religião e um apelo ao regresso à agricultura…

 

Falhei na Vida. Zut! Ideais caídos!

Torres por terra! As árvores sem ramos!

Ó meus amigos! todos nós falhamos…

Nada nos resta. Somos uns perdidos.

 

Choremos, abracemo-nos, unidos!

Que fazer? Porque não nos suicidamos?

Jesus! Jesus! Resignação… Formamos

No Mundo, o Claustro-Pleno dos Vencidos.

 

Troquemos o burel por esta capa!

Ao longe, os sinos místicos da Trapa

Clamam por nós, convidam-nos a entrar:

 

Vamos semear o pão, podar as uvas,

Pegai na enxada, descalçai as luvas, 

Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar!

 

Coimbra, 1889

 

in António Nobre, Só, Lisboa, Editora Ulisseia e Editorial Verbo, 2005, p. 237

 

E não me venham dizer que a poesia é coisa sem préstimo e que os poetas clássicos já eram…

Por dentro


Ana Lima,

É como se estivéssemos no interior de um teatro, de uma igreja. De um espaço desenhado ao milímetro por um arquitecto que, sem saber como, teria atingido a forma perfeita. Sentimo-nos bem. Talvez porque a luz que chega até nós contém em si uma serenidade feita de tardes de sol sem preocupações. Podemos até imaginar que fechamos os olhos e ouvimos um instrumento musical, afinado pelas mãos de um verdadeiro mestre. O som acompanha-nos enquanto percorremos salas vazias mas tão cheias de significado. Subitamente centramos a nossa atenção nas letras escritas num papel autocolante. É esse o pormenor que nos lembra que estamos apenas sentados aqui, a olhar para estas fotografias. Mas, na realidade, não estamos apenas aqui, a olhar para estas fotografias. E é por isso que elas são tão belas.

Um resumo da “coisa” para inglês ler (e já agora nós também)


Ana Lima,

“Ask Portuguese politicians who they are these days and you will get a sharp and predictable reply: “Not Greek!” Ask a Spaniard or an Italian and they’ll say they are neither Greek nor Portuguese. A German will say he’s a German, a French might answer he’s a German too. And a British prime minister may repeat that he’s not sure if he’s a European.(Well, these days, who is?)”

 

Pedro Santos Guerreiro ontem no The Guardian

 

(Ler o artigo todo aqui)