Uma reflexão de Pessoa


Ana Lima,

Fernando Pessoa assistiu ontem, impávido, não sei se sereno, sentado na sua cadeira, ao que acontecia à sua volta. Habituado a tardes calmas e turistas que se fazem fotografar na sua mesa, viu pessoas descontentes. Umas vestiam-se à civil. Outras tinham uniformes de polícias. Uns estavam ali porque decidiram fazer greve ou, não estando nessa situação, quiseram manifestar-se contra o que já todos sabemos e que é uma das piores situações económicas de que esta geração tem memória. Outros, sofrendo igualmente os efeitos dessa mesma crise, estavam ali em trabalho, tentando manter a segurança de uma manifestação dos que estão tão descontentes quanto eles.

Humanos uns e outros, portanto. Excessos terá havido de ambas as partes. Os polícias, com responsabilidades acrescidas, é certo, não souberam estar à altura dos acontecimentos. Os objectivos dos manifestantes que, segundo percebi, terão começado a arremessar objectos, também não são claros. Pelo meio, jornalistas, em trabalho, são apanhados por uma fúria cujas consequências só não são iguais porque os bastões estão de um dos lados.

Mas, nesta situação, será que há lados? Ou melhor, será isso o mais importante? 

Dizia Pessoa: “nisto de manifestações populares o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica.1”

 

(1)“Ideias Políticas” in Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa, organização de Paulo Neves da Silva, Lisboa, Casa das Letras, 2009, pág. 117

2 comentários em “Uma reflexão de Pessoa”

  1. Bom texto, Ana!

    É verdade que vemos o mundo através dos nossos olhos. Somos sempre subjectivos. Li, num livro sobre escrita criativa, do americano Sol Stein, algo como isto: quer escrever bons diálogos? Então, ponha na cabeça de cada personagem um guião diferente.
    Porque é isso mesmo que acontece, na vida real: temos todos guiões diferentes na cabeça.

    1. Pois. É que mesmo que isso não possa servir de desculpa para nada se fazer, é bom não nos esquecermos que há sempre visões múltiplas que devem ser tidas em conta. De qualquer forma é uma pena que uma greve, expressão justa de um direito, fique associada a estas situações.

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