Por motivos que agora não interessam, mas que basicamente se prendem com a minha incapacidade de me integrar em muitos dos pressupostos da economia capitalista, sou a feliz proprietária de um automóvel que fará, em Março do próximo ano, 20 anos desde que foi matriculado. Sempre esteve na minha mão. Foi o meu primeiro e único carro até ao presente. Só duas vezes me deixou ficar mal (ambas porque a bateria não colaborou). O que eu espero dele, ele tem-me dado. É certo que o seu aspecto já demonstra a sua idade mas não sinto qualquer vergonha quando, nos semáforos ou em filas de trânsito, fica lado a lado com modelos novos em folha, ou quando tenho que fechar manualmente portas e vidros; ou ainda quando, nas manobras, a inexistência de direcção assistida me obriga a fazer mais movimentos que os outros condutores.
A perspectiva de uma avaria que o impeça de circular assusta-me porque me faz falta no meu dia a dia e porque sei que não tenho hipóteses de comprar outro; mas também porque gosto genuinamente dele.
Por ser uma defensora do uso dos transportes públicos só utilizo o meu automóvel quando preciso dele, nas deslocações em que as alternativas são más ou não existem. Não é o caso do centro da cidade de Lisboa, onde trabalho. Comboio, metro, autocarro são meios de transporte que nos levam a praticamente todo o lado e não é preciso fazer grandes testes “à la Top Gear” para perceber que, quase sempre, um percurso feito por estes meios nos permite ganhar mais tempo e diminuir a irritação das filas de automóveis a certas horas.
Mas, até há algumas semanas atrás, eu tinha a opção de preferir os transportes públicos. Agora, caso queira circular, em determinados dias e determinadas horas em determinadas vias, não o posso fazer sem correr o risco de ser multada. Dizem que é para restringir a circulação de veículos poluentes. Ora eu sei que existem estudos que levaram a este tipo de medidas em alguns países europeus mas eles não provam uma relação absoluta de causa-efeito entre o número de anos que tem um automóvel e a emissão de gases poluentes. Não sei se a carta, referida, por ex., aqui, obteve resposta, mas as questões nela colocadas parecem-me pertinentes.
Eu não quero alterar os meus hábitos e por isso continuarei a utilizar os transportes públicos. Aliás os proprietários de carros mais velhos, tratando-se de carros únicos (não falo de quem colecciona automóveis antigos ou tem vários), não têm normalmente capacidade económica para se deslocarem diariamente, para o trabalho, de carro. Entre outras, a dificuldade em pagar a gasolina deve-se, não ao receio de que ela se liberte em excesso, para a atmosfera, sob a forma de gases tóxicos, mas ao seu preço, que teima, esse sim, em se manter bem lá em cima.
A necessidade de diminuir os níveis de poluição em Lisboa parece-me inquestionável. Mas que seja à custa destes bodes expiatórios, tão fracos no seu poder, quanto na sua efectiva responsabilidade no problema, parece-me a forma mais fácil, pois não toca os que, tendo mais poder, poderiam levantar questões de forma mais comprometedora; mas a que menos resultados poderá alcançar. Até porque, num país em que trocar tantas vezes de carro, só porque sim (nem que para isso a família, a empresa, o organismo público tenha que se endividar) é uma prática tão comum, a percentagem de veículos abrangidos não é significativa.
Primeiro foram os veículos anteriores a 1992. Agora são os anteriores a 1996. Qualquer dia só os últimos modelos circularão no centro da cidade. E aí sim, teremos uma cidade moderna, com ruas cheias de reflexos nos metais brilhantes e a cheirar a plástico novo. Já menos poluída, duvido.

Mil por ceno de acordo.
Só pergunto: Então para que serve a inspeção anual obrigatória? —
Inspecção (que entre outros itens), mede a emissão de gases.
Neste caso, a Câmara tem mais força e autoridade do que o IMTT que o aprovou!
Será legal?
A carta lincada padece, ao que me parece, de grave ignorância.
As g/km indicadas nessa carta são gramas de dióxido de carbono (CO2). Esse gás provoca efeitod e estufa, mas não é poluente.
Poluentes são as partículas emitidas por motores diesel (a gasóleo), os óxidos de azoto, etc.
Para evitar os poluentes os carros têm que estar equipados de filtros de partículas (no caso dos motores diesel) e catalisadores. É isso que os carros mais velhos não têm.
Os carros mais modernos podem emitir montes de CO2, mas emitem menos poluentes.
Prezado Senhor
Desculpe a ignorância… do “macaco”…
A questão que se coloca é a seguinte : — Terá a Câmara poder para anular a aprovação da viatura passada pelo IMTT ? independentemente da qualidade dos “peidos” que a mesma emita?
“Peidos” homologados pelos ministérios correspondentes: Ambiente e Transportes.
Eu não sei que poderes a Câmara tem ou deixa de ter.
Não foi sobre isso que me pronunciei no meu comentário. Nele eu apenas disse que a carta lincada padecia de erros, na medida em que confundia dióxido de carbono com poluentes. Um carro pode emitir muito dióxido de carbono e nem por isso ser muito poluente. Ou vice-versa: pode ser muito poluente apesar de emitir pouco dióxido de carbono.
Não pretendo defender a medida imposta pela Câmara, apenas apontar um erro a alguns dos que a contestam.
Moro fora do País, num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, confirmo a visão do poeta. Podem dizer, mas que beleza…! Não no que diz respeito a políticos criadores de leis absurdas como essa. Deduzo o seguinte: interesses escusos para beneficiar o comércio de catalisadores (peças de custo elevado) compraram o vereador para apresentar essa lei para ser aprovada por mais outros vereadores comunados com o lobby dos cata/valores!
Quer dizer que um veículo antigo, poluidor por falta de manutenção deixa de o ser se for colocado um catalisador?!!! O vereador é um pândego, sua esperteza trai o seu hipotético QI .
Esta é uma discussão muito interessante, Ana. Por causa da ecologia (e eu não nego os efeitos nocivos do trânsito automóvel), fecham-se as cidades aos cidadãos com menor poder económico. Ou melhor: estes são obrigados a usar os transportes públicos, quer queiram, quer não. Já as pessoas com dinheiro poderão pagar as taxas, entrar com os seus carros recentes e até agradecerão o descongestionamento das ruas.
Cara Ana, a carta que refere no seu texto é um autêntico disparate pois confunde alhos (CO2 – alterações climáticas) com bogalhos (poluição atmosférica – partículas inaláveis, NO2, CO etc). Pode ver os comentários a este post no 31 da Armada, que são muito esclarecedores. E confirmo-lhe: as emissões do escape são efectivamente relacionadas com a idade do veículo.
http://31daarmada.blogs.sapo.pt/5525820.h tml
Esta é uma medida fascistoide, que privilegia os ricos. Posto de um modo muito simples, um topo de gama com 300 cv, polui muito mais do que o seu carrinho. A não ser que seja uma opção estética, é uma medida ineficaz e discriminatória.
Governo de Proxenetas – resultados:
Um país de auto estradas sem trânsito;
Cidades sem automóveis da plebe.
Cuidado, que eles não param.
Alguns, até emigram para luxos como Bruxelas ou Paris.
Fujam de Lisboa, é a cidade dos totalitários.
Não queiram nada com ela, no máximo passem por ela, mas nunca contem com ela para nada que tenha de durar.
Há sempre um burocrata ou um político à espreita esperando justificar o crescimento futuro do departamento com mais uma regra, uma lei, uma taxa, uma proibição. Fujam, Fujam!
Medida completamente ridícula! Basta pensar que se dois amigos decidirem ir a um sítio, cada um no seu carro se última geração, hão de poluir mais que se forem só num.
Agradeço os comentários e os links que permitem esclarecer as questões mais técnicas que, de facto, muitos desconhecem. Eu acredito que quando se tomam medidas há sempre, por trás, motivos suficientemente fortes. Terá sido também esta a situação.
Mas a verdade é que em 1993 (ano do meu carro) os catalisadores já eram usados.
Provavelmente, para a definição de uma medida anti-poluição, seria mais difícil entrar em linha de conta com outras variáveis, como a efectiva circulação de determinados veículos no centro da cidade ou o estado dos componentes que influenciam a emissão de gases nocivos.
Eu só quis levantar questões que, mesmo sem essa componente mais técnica, me parecem relevantes. A penalização real de quem não contribui para a poluição na cidade parece-me muito injusta.