Paisagens estranhas


Ana Lima,

 

A placa diz “Proibida a passagem a pessoas estranhas”. E é como pessoas estranhas que se  devem sentir os habitantes destas terras. Porque as paisagens que conheceram desapareceram… E as novas paisagens que observam são inacabadas, dificilmente lhes dirão alguma coisa.

Percorremos parte do IP8. Talvez por ser fim de semana, poucos automóveis se encontram. Temos dificuldade em perceber porque não se apostou no alargamento, em alguns troços, desta via e se optou pela construção de uma auto-estrada. Mas o facto é que foi essa a decisão. Estudos, certamente cientificamente válidos, concluíram que se deveria avançar para essa solução que uniria uma cidade com porto (Sines) a uma cidade com aeroporto (Beja).

Terrenos, alguns integrados na Reserva Agrícola Nacional, foram expropriados. Empreitadas e subempreitadas foram preparadas, favorecendo a sustentabilidade e o emprego na região. E as obras começaram. As máquinas abriram caminho, as propriedades foram cortadas ao meio, os viadutos e pontes começaram a despontar, os arqueólogos, nas suas escavações, depararam-se com estruturas interessantes…

E as obras pararam (prevendo-se, apenas, a conclusão de troços entre Sines e Santo André e entre Sines e Santiago do Cacém). A justificação é a de que o tráfego previsto não justifica a construção da auto-estrada, que o aeroporto tem bons acessos (e mais que suficientes para a utilização que tem) e que, desta maneira, se evitam gastos maiores podendo beneficiar-se a conservação e requalificação do IP8. Dada a situação em que se encontra a nossa economia estes são argumentos de peso.

Mas e agora? É que não estamos a falar de projectos no papel. Falamos de milhões de euros gastos. Falamos de quilómetros e quilómetros de paisagem arruinada; de área verde destruída; de terrenos agrícolas, alguns com grande potencial, esventrados; de infra-estruturas iniciadas que, à mercê dos fenómenos meteorológicos, ficarão impróprias para qualquer uso futuro. Falamos de escavações arqueológicas que, ao ficarem a meio, prejudicam as empresas envolvidas e não poderão contribuir para aprofundarmos o conhecimento de um valioso património. Falamos de empresas que viram na auto-estrada uma oportunidade de sobrevivência e que agora pensam no despedimento de trabalhadores. Falamos de aldeias onde os agricultores não poderão estar descansados com medo que o seu gado se perca ao cair em valas; onde os pais terão medo que os seus filhos brinquem nas redondezas, pois o perigo espreita, indiferente a avisos escritos. Falamos de uma área do país que tem visto alguns projectos criarem grandes expectativas que depois não são satisfeitas (Alqueva concretizou apenas uma pequena parte do impacto positivo previsto) deixando a população, cada vez mais, descrente da justeza das decisões que se tomam em nome do desenvolvimento.

Passear nesta bela região, assim tão maltratada, é observarmos um retrato da nossa pobreza, da nossa incompetência, da nossa incapacidade de planearmos, com rigor, intervenções que acabam por ter resultados desastrosos.

O Alentejo merecia melhor.

 

6 comentários em “Paisagens estranhas”

  1. Enche-se o território de elefantes brancos, gastam-se milhões e depois é ver os nossos solos deixados ao abandono. Ninguém vai ser responsabilizado, todos saem impunes…é assim, Portugal…

    1. Tempos difíceis para a teoria que diz que devem ser as obras públicas um dos motores da economia…
      E se a importância dessas obras é real, a forma como se fazem os estudos, a responsabilização de quem toma as decisões deveriam ser sempre acompanhadas e avaliadas. Mas tem razão, sergio. Em Portugal essa é uma falha grave.

  2. Bem documentado!. Hiper-realidade!.
    Ou seja, a resultante do choque entre “socialismo” e “soberano” crédito bancário.
    Ps. Alguém o reelegeu .

    1. Infelizmente é a realidade, sim. E não sei se com outros “ismos ” o resultado não seria o mesmo. O crédito bancário é, de facto, “soberano”.

  3. Ana, eu sou alentejano e já tenho uma autoestrada (A6) onde passam 20 carros por hora. Não preciso de outra onde só passem tres ou quatro. Já basta o aeroporto em Beja de onde não partem nem chegam aviões. O Alentejo merecia de facto melhor, mas se calhar estamos a falar de coisas diferentes.

    1. Não sei se estamos a falar de coisas diferentes, Alexandre. Mas concordo consigo. Estes são exemplos de como se tomam decisões sem que se tenha uma perspectiva bem fundamentada da realidade. E, como quase sempre, o preço a pagar é muito elevado.

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