Esta noite estive a ver o Câmara Clara. No canto superior esquerdo, por baixo de RTP2, estava escrito “Último”. Nesta edição especial sucederam-se, em imagens bem escolhidas, escritores, poetas, arquitectos, ensaístas, dramaturgos, actores, realizadores, encenadores, bailarinos, historiadores… Eram pequenos excertos das interessantes entrevistas que pudemos ver ao longo de anos de produção de um programa que nos dizem que era caro. Alguns dos que passaram por lá faleceram entretanto: Manuel António Pina, Fernando Lopes, entre outros.
A inteligência dos autores ficou bem marcada ao demonstrarem-nos o erro que é acabar com este programa. Foi uma espécie de: “estão a ver? É isto que vão deixar de poder ver, diária e semanalmente”.
Aquilo a que chamamos cultura, mas a que podíamos chamar vida, vai continuar a acontecer. Mas já não vamos ter o Câmara Clara para a mostrar, para nos despertar para uma exposição, um livro, uma música. Para isso continuamos a ter os jornais, as revistas, outros meios, dirão. Sim, mas a televisão, a tal que ainda é pública e que é, para muitos, o único meio disponível, fica bem mais pobre.
Parece-me não ter sido por acaso que, para terminar o programa, e em jeito de despedida, foi escolhido o tema musical da última cena de Life of Brian. Entre o absurdo de certas decisões e o absurdo dos Monty Python nós preferimos este último.

Enquanto isso Miguel Relvas esboçava um sorriso e ligava a Sport TV.
Talvez, mas só se não estivesse no ar nenhuma emissão da Universidade Aberta… Ou será que já não se transmitem?
O problema – parece – é que o Câmara Clara era um programa demasiado caro para o nível de audiências que tinha. O que levanta de novo a questão do que é serviço público e de quanto pagar por ele. Pessoalmente, julgo que são precisamente programas como o Câmara Clara que constituem os fundamentos do serviço público – porque são aquilo que os outros canais não transmitem (o Fernando Mendes transitaria imediatamente para a SIC ou para a TVI se a RTP1 o dispensasse). É por isto que defendo um canal público nos moldes da RTP2 (ainda assim, passível de muitas melhorias), independentemente das audiências, a um nível de custos similar ao que hoje custa a RTP2 (da última vez que vi, menos de 50 milhões de euros por ano) ou, para englobar as rádios (e pelo menos a Antena 3 não me parece indispensável), um pouco acima: digamos 70 milhões ou cerca de metade das receitas da taxa do audiovisual (com correspondente diminuição desta). Quanto à RTP1, seria privatizada ou fechada. Mas claro que não é esta a solução que teremos.
Sem falar nos números (que, sinceramente, não conheço) concordo com o que dizes, relativamente à necessidade de considerar os fundamentos do serviço público. A ideia de que os telespectadores preferem o Fernando Mendes à Paula Moura Pinheiro (:)), não pode ser argumento a usar. O Estado não pode esquecer que os cidadãos só poderão escolher se tiverem escolhas. E em vez de acabar com um programa como este talvez existissem outras opções a explorar que tornassem a sua produção menos cara.
Pois. E também acaba o Sociedade civil.
Ou me engano muito, ou vão acabar totalmente com a RTP2.
Já lá dizia António Borges…
Impressionou-me a intensidade das pessoas que iam desfilando na memória do programa. Foi pena ter acabado mas, ao menos, acabou em grande estilo!
Intensidade… É essa a palavra certa, exactamente. E eu acho que a estratégia definida para este último programa foi mesmo muito boa.
Também reparei no golpe de mestre de usar aquele final da Vida de Brian como despedida. Ninguém melhor do que os Monty Python para uma bofetada de luva branca a quem decidiu o fim do programa. O pior é que a pancada nos atinge a todos, ou pelo menos aos que vão sentir a falta do Câmara Clara.
Sem dúvida, Ana.
E neste instante passa Monty Python na 2 …
Embora não simpatize muito com o género da apresentadora Moura Pinheiro, via muitas vezes, tenho pena que acabe o Câmara Clara, também. Belo serviços ao País.
Pois foi. Uma boa série documental. Tenho seguido e é muito interessante conhecer a história e as histórias ligadas a tanta coisa interessante que fizeram. Quanto à apresentadora, confesso que às vezes me irritava outras achava-a a ideal para a função. Mas depois do post do jaa ali acima é melhor nem dizer nada…
🙂 compreendo.
beijinhos
🙁
🙁 🙁
Não nos esqueçamos, ainda assim, de valorizar o que fica – mais não seja por enquanto.
Há dias, li um texto que mencionava o encerrar de alguns programas televisivos-culturais – penso, até, que escrito pela Ana – mas acabei por deixar passar a oportunidade para comentar; não será o caso, agora.
A RDP continua a dar-nos excelentes momentos de alguma aprendizagem e conhecimento. Admito que estou em maior sintonia com a Antena 2, daí referir alguns excelentes programas que continuam a existir e a valer a pena sintonizar; são eles: “A força das palavras” (aos sábados, pelas 16h), o “Baile de Máscaras” (de segunda à sexta também eles por volta das 16h), o delicioso “Em sintonia com António Cartaxo” (todos os domingos, às 11h, e nas quartas, às 23h), o “Molduras” (às sextas, pelas 17h30), a “Quinta Essência” (nos sábados, às 10h, e nas segundas, às 23h), entre tantos mais que, de momento, me escapam à memória.
Tem razão, CeC. Ainda existem programas interessantes. Na televisão e na rádio. A questão é que, à medida que vão desaparecendo, vamos perdendo capacidades de reconhecermos outras realidades para lá das que nos querem “vender”.