The show must go on


Ana Vidal,


Há qualquer coisa de necrófago e pornográfico na forma como os media filam uma tragédia e a descascam até ao tutano, fazendo-a render o mais possível sem qualquer pejo ou hesitação. Não o fazem pelo desejável brio profissional de revelar a verdade, mas para manter altas as audiências, numa concorrência desenfreada que os faz perder completamente as mais básicas noções de decência e de respeito pela privacidade. O osso só é largado quando outra qualquer desgraça, maior, mais sangrenta ou mais escandalosa, se perfila no horizonte. 

Agora, descobriram um pai que se despediu em português da filha pequena morta na carnificina da escola americana, e esse facto irrelevante parece ter-se tornado importantíssimo em todos os telejornais, como se fosse uma espécie de deferência especial para com Portugal. E como se o horror anónimo, em qualquer língua, não fosse já suficientemente insuportável.

9 comentários em “The show must go on”

      1. Pois. É o que ando a dizer há muito tempo. Vivemos do soundbyte e, tantas vezes provinciano, mal informado, sem verificação de fontes. Concordo inteiramente contigo, Ana. Beijo

  1. E infelizmente já vem de há algum tempo essa preocupação saloia de identificar um tuga, ou um descendente de tugas, ou uma t-shirt do Cristiano Ronaldo ou coisa parecida, que tenha vagamente a ver com tudo o que seja tragédia, desde um massacre como este a um fenómeno meteorológico, a um navio encalhado, um avião desviado, um choque em cadeia numa auto-estrada, um incidente num hotel, um fogo numa discoteca, isto em qualquer parte do mundo…

  2. Também me pareceu uma selecção disparatada, de um facto irrelevante. E também passou nas notícias da RTP2 onde costumavam ter uma selecção de temas melhor. Haverá algum noticiário de Portugal onde essa peça não tenha passado?

  3. Jornalismo de merda, pardon my French. Para lá dos contornos do caso em análise, a que a Ana se refere com total razão, eis mais um exemplo da parolice nacional que se fascina ao saber que a bandeira que Armstrong deixou na lua foi cosida por uma portuguesa ou que as selas dos cavalos do filme O senhor dos anéis vieram de um correeiro luso (vi isto na TV e pelos vistos ficou). Não é que não devamos ficar contentes com êxitos nacionais, mas daí à velha frase do “óscar que também é um bocadinho português…” ou de achar que reside aí a grandez… Não entro, pois já está tudo dito, no carácter pornográfico da matança nos EUA.

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