As minhas férias nos Açores


Ana Lima,
Foi a primeira vez que andei de avião. As quatro horas de voo, feito em avião militar até à Terceira, foram passadas entre a excitação da viagem e a ansiedade de rever o meu pai, em comissão de serviço há cerca de um ano. O passeio em Angra, nesse dia calmo e cheio de sol, não fazia imaginar o tremor da terra três meses depois. Ao fim do dia a viagem para o Faial num avião já com assentos e hospedeiras a servir sumo. Chegada à ilha onde iria passar um mês a surpresa das cores, do bulício do porto e da calma no resto de uma cidade pequena e grande ao mesmo tempo. Da Horta recordo sobretudo a sensação de que estava num mundo à parte. Um mundo com um monte vulcânico em frente que nos acompanhava onde quer que fôssemos. Talvez por isso nunca me perdi. 

De manhã, sozinha, ia à praia. Sempre pelo mesmo caminho. Já conhecia de cor as casas brancas até chegar a Porto Pim. Porto Pim, Porto Pim… É extraordinária a musicalidade deste nome. A praia, com a sua areia escura, esperava-me. A mim e a poucos mais. Nessa altura do ano já fazia algum frio e as águas-vivas abundavam afastando os banhistas. 

À tarde lá vinha ela. A chuva. Estávamos em Setembro e chovia todos os dias. Recordo o cheiro intenso daquela terra molhada como se ele ali fosse diferente. E mesmo não tendo voltado àquelas ilhas tenho a certeza que a memória não me atraiçoa e ele é mesmo diferente. A casa onde passei aquele mês tinha um jardim e o jardim tinha um baloiço. Nunca mais “vivi” numa casa com jardim e com baloiço. Era lá que eu esperava a chuva. Com um livro nas mãos e o rádio ali ao lado. Às vezes a miúda da casa do lado, que tinha mais quatro anos que eu, vinha fazer-me companhia. Trazia um leitor de cassetes. Não sei se tinha mais mas eu só me lembro de uma dos Beatles. A sua favorita era “Hey Jude”. Ainda é hoje uma das que mais gosto. Quando a chuva começava a cair corríamos, ora para uma casa ora para outra. E lá ficávamos a ver, da janela, a chuva com o Pico ao fundo. 

Para lá dos passeios na ilha são estes os dias que mais recordo das minhas férias nos Açores. Não tenho uma única fotografia. O rolo tinha ficado mal posto e só em Lisboa percebemos isso. Eu tinha 11 anos. Acho que posso dizer que foram as melhores férias da minha vida.

(Lembrei-me de tudo isto ao ler este post do João Carvalho)

7 comentários em “As minhas férias nos Açores”

  1. Setembro de 1979, uma casa com um jardim e o jardim com um baloiço, uma cassete dos Beatles a tocar Hey Jude, a chuva a cair com o Pico ao fundo, o rolo fotográfico mal colocado sem um único registo… Nunca imaginaria que fossem as tuas melhores férias, aos 11 anos, mas as memórias que partilhas aqui dizem que foram mesmo, Ana. Ainda bem.

  2. Porto Pim é um nome bonito, poético, e cheira mesmo a Açores. Então a bruma, essa fica-lhe mesmo a matar…

  3. Recordo o deslumbramento que senti, uma manhã, ao descobrir inesperadamente a praia de Porto Pim no termo de uma caminhada a pé. Fiquei a contemplar o panorama, durante largos minutos, absolutamente hipnotizado pela paisagem. E eu já devia estar prevenido: lera ‘Mau Tempo no Canal’ uns bons anos antes.

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