Heróis do Mar


Rui Rocha,

 

As Caxinas são terra de vivos-mortos. Os Postiga, os Coentrão ou os Maravalhas, quando não se libertam da lei da morte pelo futebol, vão ter com ela todos os dias em que há faina. Calha que mais das vezes a enganam, por matreirice e experiência feita, trocando-lhe as voltas, driblando-a como fazem aqueles seus primos famosos aos adversários, a cada jornada, pelos estádios da Europa. Mas, ela está lá, algures no mar oceano, muito mais perto do que aquilo que qualquer um de nós seria capaz de suportar. E, a cada dia em que o Virgem do Sameiro ou os seus irmãos enfrentam as vagas e acabam por regressar, é a própria morte que não se inquieta. No fundo, ela sabe que é uma questão de tempo e que o encontro está marcado. O resgate do Virgem do Sameiro tem, aparentemente, os contornos de uma boa história mediática. Não lhe faltam a angústia, o herói, o pivot de televisão e o autarca. Estão lá as rezas, as lágrimas, a redenção e o hino nacional. Mas, digo que falta qualquer coisa. Algures entre as entrevistas, os soluços e a marcha contra os canhões, sinto a falta de um acto de contrição, de uma penitência e de uma solução. Sobra nesta história a comoção colectiva de circunstância, na mesma proporção em que escasseia a exigência de um sistema de comunicação que proteja os pescadores. Os Coentrão, os Postiga ou os Maravalhas aproximaram-se demasiado da morte. Digo até que estiveram nas suas mãos, de certidão de óbito passada e que, ainda por uma vez, a enganaram. Mas, mantendo-se as coisas como estão, não há ladainha, hino nacional, Virgem do Sameiro, directo televisivo ou abraço de autarca que os proteja. Em rigor, só o acaso ou um sistema de comunicações lhes pode valer. As leis do acaso continuarão a ser desafiadas até que se lhes acabem os créditos de vidas. E se, como tudo leva a crer, o tema das comunicações voltar ao esquecimento depois de desligadas as câmaras, o seu destino está traçado. Resta saber a hora exacta em que o encontro com a morte, por ora adiado, acabará por consumar-se.

13 comentários em “Heróis do Mar”

  1. Foi, sem dúvida, um motivo de regozijo para todos nós. Segue-se um curto intervalo até à próxima desgraça, já anunciada, mas ainda sem data certa. Estes verdadeiros heróis do mar, companheiros da incerteza e das circunstâncias sempre difíceis de uma profissão duríssima, têm também por vezes a companhia e a amizade do acaso. Sim, do acaso que foi o serem encontrados em alto mar, ao fim de mais de dois dias à deriva, já em condições de extrema exaustão física e psíquica, por um helicóptero que nem andava à procura deles. É, portanto, nestas águas escuras, nesta abismo de incertezas, neste mar de improvisos que navega um país de marinheiros com séculos de tradição ligada à faina marítima. Falou-se da falta de meios, de deficientes equipamentos de comunicação, da crónica falta de condições dos barcos para enfrentarem com algum êxito condições de mar adverso e o resgate das tripulações, enfim a mesma ladaínha de sempre. Apareceram, felizmente, porque o acaso resolvera também embarcar com eles na balsa da felicidade. Chorou-se, riu-se, festejou-se, ergueram-se as mãos aos céus em agradecimentos à Virgem e as romagens a Fátima, pelo milagre, seguir-se-ão dentro de momentos. As televisões, de uma forma bovina, durante horas infindáveis mantiveram especadas à porta do hospital de Leiria um misto de repórteres e de basbaques que se atarefaram a empanturar-nos com não-notícias acerca do estado de cada um dos pescadores, que já conhecíamos desde os 10 primeiros minutos.
    Até à «próxima desgraça, já anunciada, mas ainda sem data certa», tudo continuará na mesma à espera que tudo se vá resolver, mais uma vez por milagre.

      1. É isso mesmo, Rui. Nesta área, como em quase tudo o resto, estamos como sempre, ‘entregues à bicharada’. Resta-nos erguer as mãos aos céus…

  2. Ainda ontem disse o mesmo, Rui. A emoção colectiva, o hino nacional e as graças divinas são coisas muito bonitas, mas são também uma prova de como aceitamos tranquilamente estar mais entregues à sorte e ao fatalismo do que a medidas de segurança concretas e justas. Os pescadores já têm uma vida duríssima e muito perigosa, escusava de ser também tão desprotegida.

    1. Já a Rainha D. Amélia se apoquentava com a falta de iniciativa do marido para com estas gentes, nas nossas costas, as costas negras, como eram conhecidas.
      E El-Rei, para a sossegar, deixou-a criar o Real Instituto de Socorros a Náufragos, pois já tinha dado provas de grandes capacidades nos vários dispensários e creches que tinha fundado e dirigia pessoalmente. Estávamos em 1892.
      Não evoluímos muito desde então. Mudamos-lhe o nome.
      Ontem, foi um milagre. Confesso que até eu festejei, apesar de não ter lá família. Mas esta gente do mar e, tantas vezes a de Caxinas, não costuma voltar. Haverá Natal nestas casas!

        1. Não, de forma alguma. É uma tristeza, tendo nós uma costa tão grande e tão “batida”.
          E, principalmente, porque tudo vai continuar igual.
          No entanto, como profundamente crente que sou, continuo a dizer que foi um milagre, não se viveram lágrimas desta vez, que não fossem de alegria.
          Não tinha chegado a hora. Alguém lhes deitou a mão.
          Mesmo em pleno verão, com outras temperaturas e mar mais calmo, seria difícil; em pleno inverno, com este frio e mar bravo, ninguém acreditou vencer.
          Regozijo-me por este milagre, dêem-lhe o nome que derem.
          E assim viveremos, à espera que eles aconteçam…

    2. Honra à FAP que os resgatou, não sei se o helio pertencia à esquadra 751,que tem como lema : ” Para que outros vivam “.

  3. A vida de pescador é dura independentemente dos radares, sonares , GPS, blá .. que se lhes sejam disponibilizados. Porque o mar, esse manto azul que beija as nossas costas, morde nos nossos pescadores sem apelo nem agravo. E sempre foi assim e sempre será…
    Já o Almeida Garrett nas Viagens na Minha terra perguntava a certa altura:
    “…Então agora como é de força, quero eu saber e estes senhores que digam, qual é que tem mais força, se é um toiro ou se é o mar
    – Essa agora
    – Queremos saber.
    – É o mar.”

  4. Continua o discurso dos coitadinhos
    Para começar porque é que o barco afundou? O mar não estava mau. O barco era relativamente novo, não custa nenhum exagero ter meios de comunicação numa balsa salva vidas. Falta de cuidado dos mais interessados.

    A questão séria para o salvamento é porque é que foi “por acaso” que foram encontrados.

    Foto:
    http://www.shipspotting.com/gallery/photo.php?lid=1448723

    Subsídio para a construção:
    http://fishsubsidy.org/PT/vessel/PRT000020589/virgem-do-sameiro

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